Catando  Conchinhas - Aldo Cordeiro

 

 

 Catando conchinhas
(Ao amigo Wanderley)

Aldo Cordeiro

O Wanderley era um amigo que eu tinha e que não vejo há muito tempo. Desses que a gente nunca esquece, tamanha é a riqueza de alma, a grandeza do coração e a simplicidade das atitudes. A última vez que o encontrei, foi por acaso, aqui no Rio. Estava de passagem pela cidade. Havia largado o Banco do Brasil e se instalado numa pousada em Caraívas, um pedacinho do paraíso, perdido no sul da Bahia.

Quando ainda morava no Rio, o Wanderley foi fazer uma excursão em Natal. Todo mundo cumprindo aquela peregrinação obrigatória dos turistas: experimentar as bebidas do lugar, ir a todos os lugares, comprar artesanatos - uma maratona que permite ao visitante, depois de algumas horas de city tour, dizer: conheço Natal. No entanto, deslumbrado com o mar de Natal, Wanderley renunciou a uma parte dos programas, pra ficar numa praia, completamente concentrado numa longa e prazerosa tarefa, que enchia seu corpo e sua alma de profundo bem estar: catar conchinhas.

Num dado momento, um companheiro de viagem, que havia decidido ficar numa barraca próxima, se aproximou e tentou puxar assunto:

- Você é geólogo?

O Wanderley quis dizer que estava, apenas, catando conchinhas, e isso não carecia de explicação ou justificativa. Mas, o interlocutor foi tão objetivo em sua pergunta, que o nosso amigo concluiu que ele precisava de uma resposta que lhe permitisse enquadrar o outro como um ser igual a ele - todo catalogado - e aquela criança grande, brincando na areia, não queria dizer que era diferente, queria apenas ser.

Wanderley levantou o rosto, olhou pro dono da pergunta, com um sorriso tranqüilo, um laconismo infantil e uma voz suave e respondeu, simplesmente: sou.


Hoje, resolvi escrever essa lembrança, para que o Wanderley, na comunicação telepática dos amigos que se afastam mas continuam nos corações uns dos outros, saiba que continuo admirando seu jeito de ser. Para ele o meu abraço cúmplice de quem conhece o prazer de catar conchinhas, pedras de rios, sementes e folhas de árvores, sorrisos e olhares escondidos pelos cantos da cidade.


Rio, 29.11.2003

Música: Favorite Things

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