Já pari 3 vezes.

Já escrevi 4 livros.

Já quis consertar o mundo.

Já tomei banho de chuva.

Já colhi guavira do pé.

Já tive um pomar e alguns passarinhos.

Já tomei porres.

Já pulei muitos carnavais.

Já naveguei em outros mares.

Já fiz natação, ioga e até me iniciei na bruxaria.

Já tive loja de roupa, lanchonete, banca de revista, salão de beleza e um fusquinha vermelho nos anos 70.

Já pintei muitos quadros, fiz esculturas, mas minha paixão mesmo é a literatura.

Já viajei sem rumo.

Já subi no telhado com meus filhos para ver as estrelas mais de perto.

Já tive amigos que nunca mais vi, outros que vejo sempre e aqueles que apesar da distância podem contar comigo.

Já fui em festas de grã fino, festas cheias de protocolos, festas formais e festas da sociedade, mas nada me diverte tanto quanto uma festa sem frescuras e preocupações com gafes.

Já dormi em castelo e já dormi em casebres.

Já vi neve.

Já criei pratos de gastronomia.

Já chorei a dor dos outros e muitas vezes abafei a minha.

Já varei a noite conversando com minhas 2 filhas sobre regimes e coisas de mulher.

Já fotografei um ipê amarelo florido.

Já fiz pic-nics com meus filhos quando crianças no horto florestal, parque dos poderes e praça Itanhangá.

Já disputei um pleito eleitoral.

Já me formei em Direito.

Já me vesti para seduzir.

Já fui apaixonada pelo Chico Buarque.

Já cantarolei enquanto dirigia.

Já chorei em especial do Roberto Carlos de fim de ano.

Já me vesti de cigana.

Já fiz curso de filosofia, espanhol, culinária, poesia, artes plásticas, mosaico, joalheria e tantos outros que nem me lembro mais.

Já li um livro num fôlego só.

Já abandonei outros no meio.

Já morri de saudade dos meus pais.

Já fiquei horas no telefone.

Já fui noveleira, já odiei novelas e voltei a gostar.

Já fiz cachecóis de lã para minhas filhas no inverno.

Já joguei baralho.

Já senti a mão de Deus segurar a minha.

Já chorei e já sorri tantas vezes, porém se for fazer um balanço até aqui: os risos prevaleceram aos prantos, pois acredito que a vida é um eterno recomeçar.

Aida Machado Domingos

 

 
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