MADRE CRISTINA
(1916 - 1997)

Célia Sodré Dória nasceu em Jaboticabal, no interior de São Paulo, e aos 19 anos foi estudar pedagogia e filosofia na Faculdade Sedes Sapientae, em São Paulo. No término do curso, decidiu seguir a vida religiosa. Passou a lecionar para jovens e adultos depois de trabalhar com crianças. “Eu me preocupava com o abismo social deste País, gerado pela grande carência educativa”, dizia Madre Cristina. Com o novo nome religioso, ela tornou-se também psicóloga. Em 1954, doutorou-se em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No ano seguinte, maravilhada com as idéias de Freud, foi estudar em Paris, onde fez especialização em psicanálise na Sorbonne. Voltou de lá no início dos anos 60, com ideais de transformação social e política. Na época da ditadura militar, Madre Cristina chegou a receber ameaças de morte e prisão, por ter escondido e intermediado encontros entre perseguidos políticos. Em 1977, fundou o Instituto Sedes Sapientae, em São Paulo, que até hoje oferece cursos de especialização nas áreas de pedagogia, psicologia e filosofia. A instituição era definida por Madre Cristina como "um espaço aberto aos que quiserem estudar e praticar um projeto para a transformação da sociedade, visando um mundo onde a justiça social seja a grande lei".


DORINA NOWILL
(1919)

A professora Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em São Paulo em 1919. Devido a uma patologia ocular ficou cega aos 17 anos. Como era dotada de uma inteligência brilhante, decidiu continuar seus estudos. Entretanto, naquela época havia poucos livros em Braille para estudantes cegos. Por essa razão, reuniu um grupo de voluntários e criou em 1946 a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, organização que em 1991, recebeu o seu nome pelo merecido reconhecimento de seu trabalho em prol da educação, reabilitação, cultura e profissionalização de pessoas cegas ou com baixa visão.

A professora Dorina foi a primeira aluna cega a matricular-se em São Paulo, numa escola comum, para estudar junto com estudantes com visão normal. Formou-se professora na Escola Caetano de Campos.

Iniciou as atividades da Fundação em São Paulo, com a implantação da primeira imprensa Braille para produzir livros em braille e foi responsável pela criação na Secretaria de Educação de São Paulo do primeiro Serviço Especial para Educação Integrada de Alunos Cegos na Escola Comum.

É Presidente da Fundação Dorina Nowill para Cegos desde 1946 até o presente momento. Hoje, a fundação produz 100 mil volumes por ano e fornece livros para 700 organizações.


IRMÃ DULCE
(1914 - 1992)

Maria Rita Lopes Pontes nasceu em Salvador no ano de 1914. Aos 13 anos, tentou entrar para o Convento do Desterro, mas foi recusada por ser jovem demais.

Considerada o anjo dos desvalidos da Bahia, ela era chamada de Irmã Dulce dos pobres, Peregrina da Caridade ou Mãe Dulce pelos milhares de indigentes que atendia, mas a verdade é que todos gostariam de chamá-la de Santa Dulce da Bahia, como fazia o escritor Jorge Amado. Maria Rita Lopes Pontes sempre foi considerada uma santa viva. Em 1991, em seus últimos meses de vida, recebeu a visita do papa João Paulo II -- que mudou o rumo das atividades programadas para vê-la no leito do hospital --, enquanto milhares de peregrinos rezavam por ela nas ruas de Salvador, pedindo a salvação da freira que dedicou sua vida às obras sociais e à caridade.

Professora, aos 18 anos entrou para o Convento das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Em 15 de agosto de 1934, fez sua profissão de fé e voltou a Salvador. Começou seu trabalho num barracão, para onde levava doentes e desabrigados. Depois ocupou um galpão e, despejada pelo proprietário, transformou o galinheiro do Convento Santo Antônio em albergue para os pobres. Anos depois, em 1959, Irmã Dulce conseguiu um terreno para construir o Albergue Santo Antônio. Em 1970, foi fundado o Hospital Santo Antônio, ao lado do albergue, obra que hoje possui mais de 1.000 leitos e atende a 4.000 pessoas por dia. Irmã Dulce também abriu um orfanato para 300 menores e passou muitos anos saindo diariamente para pedir donativos de porta em porta. Sua obra foi crescendo e ela percebeu que era preciso trocar as ruas pelos gabinetes das autoridades e empresários, num trabalho incansável atrás de verbas. Abnegada, a freira baiana viveu como franciscana: dormiu por 30 anos numa cadeira de madeira, até ser proibida pelo médico. Em 1990, com os pulmões abalados e sérios problemas respiratórios, entrou numa agonia que durou 16 meses, até ser levada do hospital para o Convento Santo Antônio, onde morreu, em 13 de março de 1992.


ANA NÉRI
(1814 - 1880)

Nascida em 13 de dezembro de 1814 na então Vila da Cachoeira do Paraguassu, Bahia, Ana Justina Ferreira Néri entrou para a história com precursora da Enfermagem no Brasil e uma das heroínas da Guerra do Paraguai. Casou-se aos 23 anos com Isidoro Antônio Néri. Ele era capitão-de-fragata da Marinha e estava sempre no mar. Dessa forma, Ana acostumou-se a ter a casa sob sua responsabilidade. Ficou viúva aos 29 anos, com os filhos Justiniano, Isidoro e Pedro Antônio para cuidar. Os dois primeiros tornaram-se médicos e o último, militar. Em 1865, o Brasil entrou na Tríplice Aliança, começou a Guerra do Paraguai e os filhos de Ana foram convocados. Sensibilizada com a dor da separação, no dia 8 de agosto ela escreveu ao presidente da província oferecendo-se para cuidar dos feridos de guerra enquanto o conflito durasse. Logo partiu para o Rio Grande do Sul, onde aprendeu noções de enfermagem com as irmãs de caridade de São Vicente de Paulo. Apesar das faltas de condições, como falta de higiene e de materiais e excesso de doentes, Ana chamou a atenção por seu trabalho como enfermeira por várias regiões por onde passou. Com recursos próprios, herdados de família, Ana montou uma enfermaria-modelo em Asunción, capital paraguaia sitiada pelo exército brasileiro. No final da guerra, em 1870, Ana voltou ao Brasil com seis meninas órfãs brasileiras. Foi homenageada e D. Pedro II, por decreto, lhe concedeu uma medalha e uma pensão vitalícia. Faleceu no Rio de Janeiro em 20 de maio de 1880. Carlos Chagas batizou com o nome de Ana Néri a primeira escola oficial brasileira de enfermagem de alto padrão, em 1926.


MÃE MENININHA
(1894 - 1986)

"A mão da doçura tá no Gantois", diz o verso da canção "Mãe Menininha", que Dorival Caymmi fez em homenagem à mãe de santo mais adorada do Brasil. “Uma filha de escravos que se fez rainha, orientando o povo baiano com exemplar dedicação e perene bondade”, como definiu-a Jorge Amado, um dos seus maiores amigos e admiradores. Cantada em prosa e verso também por Vinícius de Moraes, ela foi conselheira espiritual de muitos artistas e políticos famosos. No casarão branco no Alto do Gantois, em Salvador, Mãe Menininha, com suas muitas saias de renda imaculadas, guias e óculos de lentes grossas, exerceu o seu reinado durante 64 anos. A ialorixá, que nasceu Maria Escolástica da Conceição Nazaré, assumiu a chefia do terreiro em 1922, aos 22 anos de idade, segundo consta por determinação de Oxóssi, Xangô, Oxum e Obalauê. “Quando os orixás me escolheram, eu era muito nova e não recusei, mas balancei porque é uma obrigação muito árdua.” Mas Mãe Menininha foi também uma das maiores conhecedoras da religião afro no Brasil, procurada por sociólogos e antropólogos de todo o mundo em busca de informações para teses e estudos acadêmicos. Morreu aos 92 anos, em 1986.


NISE DA SILVEIRA
(1905 - 1999)

Quando a psiquiatra Nise da Silveira criou o Serviço de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio, em 1946, os maiores avanços da psiquiatria mundial ainda eram a lobotomia, que surgiu durante o salazarismo em Portugal, e o eletrochoque, inventado na Itália fascista. Nise, baixinha e franzina, comprou uma briga com a direção do hospital ao se recusar a usar eletrochoques e psicotrópicos, e ao distribuir tintas, pincéis e argila aos esquizofrênicos. Com o material para poder criar, eles passaram a ter uma vida útil e criativa, dentro de um espaço onde antes se sentiam mortos. Nise interpretava suas obras e assim os tratava, lendo nas pinturas e esculturas seus ricos e perturbados inconscientes. Em 46 anos de trabalho, reuniu mais de 300 mil peças de arte, que hoje formam o acervo do Museu do Inconsciente, no mesmo hospital, e mandou a maior parte dos pacientes para casa, curados.

Alagoana, Nise saiu de Maceió aos 15 anos para estudar no Rio. O pai havia morrido e ela, filha única, decidiu que precisava abrir os horizontes. Formou-se em Medicina – foi a única mulher num grupo de 156 homens – e especializou-se em neurologia. Recusou-se a chamar de pacientes aqueles a quem dedicou seu trabalho. Também não os chamava de loucos ou doentes mentais. "Eles são pessoas como as outras, são clientes", dizia. "Chamo-os todos pelo nome". Nise sempre acreditou em terapias mais humanas. Certa de que seus clientes precisavam dar e receber afeto, ela levou cães e gatos ao hospital e os nomeou co-terapeutas, experiência hoje feita em clínicas de todo o mundo. Amiga do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, com quem se correspondeu por vários anos, recebeu dele o conselho para estudar mitologia, que depois considerou outra peça-chave de seu trabalho. Escreveu seis livros, o último deles sobre gatos, uma de suas paixões. Em 1990, uma fratura na perna a levou à cadeira de rodas, de onde não mais saiu. Foi ativa até o fim. Um dia antes de morrer, aos 94 anos, recebeu em seu apartamento, no Rio, o grupo de estudos que mantinha para discutir psicanálise e psiquiatria.


CARMEN PORTINHO
(1903 - 2001)

Engenheira e militante feminista, nasceu em Corumbá (MT), em 26 de janeiro de 1903, mudando-se muito cedo para o Rio de Janeiro. Militou entusiasticamente nas décadas de 1920 e 1930 em prol da conquista feminina e do reconhecimento profissional das mulheres.

Em 1919, participou, com Bertha Lutz, da organização do movimento sufragista. Atuou na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino desde sua fundação, chegando à vice-presidência. Tomou parte, também, na criação da União Universitária Feminina no ano de 1932. Na defesa do direito das mulheres ao voto, Carmen e outras companheiras chegaram a sobrevoar o Rio de Janeiro, na década de 1920, lançando panfletos em defesa do sufrágio feminino: "Isso no tempo em que nem aviões decentes existiam", comentou em uma entrevista.

Em 1937, ajudou a criar a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA) e foi sua primeira presidente. Na ocasião, esta era a única entidade profissional de classe composta exclusivamente por mulheres.

Pioneira no mundo da construção foi a terceira mulher a se formar engenheira civil na Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil, em 1925, Carmen enfrentou preconceitos com galhardia. Um deles foi escalar, no primeiro dia de trabalho, o telhado do prédio da Prefeitura do Rio de Janeiro para checar um pára-raios. "Já tinha feito alpinismo, subir naquele telhado foi sopa", diz Carmen, que considerou a tarefa provocação de um chefe machista. Ela também desafiou a ira do ministro da Justiça, quando era professora do Colégio Pedro II, em 1925. "Ele não se conformava em ver uma mulher dando aulas num internato de garotos. Mas não conseguiu mexer comigo e eu fiquei mais três anos lá", lembra ela. Ela desenhou o primeiro projeto da capital federal no Planalto Central, em 1938. No Rio, construiu o Museu de Arte Moderna e dirigiu, durante 27 anos, a Escola Superior de Desenho Industrial. Aos 96 anos, continuava ativa, como assessora do Centro de Tecnologia da UERJ. Faleceu em 25 de junho de 2001.

 

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