Aconteceu Luna's
&
Samuel Beckett

APRESENTAÇÃO

Samuel Beckett foi um dos fundadores do teatro do absurdo e é considerado um dos principais autores do século 20.

Sua obra foi traduzida para mais de trinta idiomas.

Samuel Beckett (1906-1989) jogou papel decisivo no alto modernismo europeu e seus desdobramentos; de "Esperando Godot" às peças televisivas, de "Molloy" à ficção final, transformando em profundidade, o teatro e o romance moderno. Às voltas com o bilingüismo, a ruptura dos gêneros, a ameaça de silêncio e esterilidade, o curso examina como sua obra avança, de impasse a impasse, desde o estilo alusivo e virtuosístico da estréia até o minimalismo final.

"Falhar, falhar melhor", o mote sob o qual a obra beckettiana se desenvolveu, sugere uma continuidade – temática, e o tema somos nós, a contemporaneidade – conduzida por um rigor construtivo que se concretiza num percurso de adensamento progressivo. Formalmente, as duas são igualmente desconcertantes, seja pela estranheza, seja pelo grau de acabamento estético (da ordem da ruína e do fragmento). A novidade que "Godot" representou no teatro moderno segue presente em "Fim de partida", mas a capacidade de ferir se acentua na segunda, Beckett mesmo diz assim. Pessoalmente, o humor mais acre de "Fim de partida" me fala mais de perto.

"Que importa quem fala, disse alguém, que importa quem fala"!

Samuel Beckett


Outubro/2008
Maria Thereza Neves

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Poetas Luna's e Amigos

João Drummond / Maria Ivone dos S. Pandolfi / Líria Porto / Nídia Vargas Potsch / Solange Daniel / Rosangela Aliberti / João de Abreu Borges / Ceres Marylise / Regina Romeiro / Sônia Maria Grillo / Tarcísio R. Costa / Lourdinha Biagioni® / Antonia Nery Vanti  (Vyrena) / Elisa Santos / Jorge Linhaça / Sueli do Espírito Santo / Veronica de Nazareth - Noic@ / Lisieux / Marisa Cajado /  Célia Lamounier de Araújo / Helena Armond / Maria Thereza Neves

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Beckett nasceu numa família burguesa e protestante, e em 1923 ingressa no Trinity College de Dublin, para se formar em Literatura Moderna, especializando-se em francês e italiano. Em 1928, meses após sua mudança para Paris, conhece James Joyce, apresentado por um amigo em comum. Torna-se grande admirador do escritor, e sua obra posterior é fortemente influenciada por ele.

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ALÉM DO OLHAR
João Drummond

Um olhar, um sorriso, andar insinuante..
O brilho de uma estrela, a face da lua se
abrindo entre nuvens difusas. O vento em
em mágico sopro sobre seus cabelos.

Meu coração se inflama e se incendeia
Como fogueira ardente de paixão.
Que queima sem controle minhas
Verdades absolutas, minhas certezas.

Não creio em amor à primeira vista,
Então o que me atingiu em face da sua presença?
Que razão explica este seqüestro relâmpago?
O que me priva da lógica e do discernimento?

Talvez , quem sabe uma lógica diferente,
Que só o coração vê e sente, e que está além
da presença, das aparências e muito além
de um simples olhar... além do olhar.

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Após lecionar durante o ano de 1930 na Irlanda, Beckett volta no ano seguinte para Paris, fixando residência na cidade, e escreve sua primeira novela, “Dream of Fair to Middling Women” (publicada após a morte do autor, em 1993. Em 1933, Beckett retorna novamente a Dublin, pois, devido ao falecimento de seu pai, encarrega-se de cuidar de sua mãe. Retorna a Paris em 1938, quando é marcado por dois acontecimentos de grande importância: fica gravemente ferido ao ser agredido por um estranho, que lhe desferiu uma facada no peito, e conhece Suzanne Deschevaux-Dusmenoil, com quem viveria o resto da vida e se casaria em 1961.

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CICLO
Maria Ivone dos S. Pandolfi

Trajada em cor
Cabelos como raízes
Um par de asas...
Anjo? Borboleta? Flor?
Delicada
Criança e fada
Madrinha da natureza
Distribui o pólen da beleza
dá carinho, enxuga o pranto
É rainha no seu canto
Vive bem no seu espaço
Não faz estardalhaço
Não congrega seguidores
Age sempre como as flores
Que nascem para embelezar
Dar frutos ou perfumar
E logo depois virar pó
... e do pó o barro...
e do barro...
iniciar tudo de novo...


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Depois da eclosão da Segunda Grande Guerra, vincula-se à resistência francesa, na ocasião da invasão de Paris pelo exército nazista, em 1941, juntamente com sua esposa. Afasta-se da resistência em 1942, quando ambos foram obrigados a fugir da França. Morre em 1989, cinco meses depois de sua esposa, de enfisema pulmonar, contra o qual já lutava havia três anos. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse.
 

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MANHÃ DE JULHO
Líria Porto

eu vi o sol travestido
vestido de lua de lua
e o frio o frio
senti-o na nuca
na nuca

eu velha velha
velha
tremia tremia tremia

sol filho-da-gruta

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A produção beckettiana foi um dos principais ícones do Teatro do Absurdo que faz uma intensa crítica à modernidade. Em 1969, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

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CHORAR E RIR...
Nídia Vargas Potsch

Tormentas atravessam nossas vidas
Rir ou chorar ... Chorar ou rir ...
Nos fazem construtores de sonhos,
arquitetos do coração
e de magias poderosas,
próprias do ser humano, somente.
Tanto que o Homem pode escolher
rir de desgosto
ou chorar de felicidade ...
Ninguém mais!


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SAMUEL BECKETT
por Veronica Stigger

Samuel Beckett é seguramente, um dos maiores dramaturgos do século XX - senão o maior. Foi com peças como "Esperando Godot" e "Fim de partida", que ele se tornou conhecido. Mas ele também escreveu prosa, e há contos, novelas, romances seus que são tão grandes quanto seu teatro.

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CORES
Solange Daniel

Quais suas cores
Seus amores
Suas dores?

Onde anda seu coração
vagando em outros ares
no caminho da perdição.

É de cores transparentes
da alma cores doentes
dos amores dolentes.

Deste coração penitente
se perdendo na paixão
num porto de solidão!


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Três breves textos de Beckett "O expulso", "O calmante" e "O fim", estão reunidos em "Novelas", livro que, até o final do ano passado, era ainda inédito no Brasil. Estes textos foram dos primeiros que Beckett escreveu originalmente em francês. Eles foram feitos em 1945, no mesmo ano em que acabou a Segunda Guerra Mundial. Nesta época, Beckett estava no sul da França. Durante a guerra, ele foi membro da resistência à ocupação alemã e viveu escondido. Para ele, não havia dúvida de que era melhor ficar na França em guerra do que na Irlanda em paz.

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CRIME BUCÓLICO
Rosangela Aliberti

a autoconfiança
estava na mão direita
e na esquerda
no rapel

com as presilhas na cintura
seus olhos
se jogavam laaá
embaixo
nos braços do precipício

súbito
a falta de ar
inesperada
num golpe ardiloso
bastaram apenas
três pingos de veneno
na garrafinha de água mineral

as penas caíram
doídas e roídas

foi um ataque
fulminante
morreu: pluma!

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Novelas me parece estar impregnada da vivência do pós-guerra. Num texto chamado Experiência e pobreza, Walter Benjamin fala do silêncio dos soldados que voltavam dos campos de batalha. Isso na Primeira Guerra Mundial. Eles voltavam mudos diante de tanta barbárie. Um silêncio similar parece tomar conta dos personagens de Beckett. Em "O fim", o narrador fala:

- Às vezes nos perguntamos se estamos no planeta certo. Até mesmo as palavras nos abandonam, não é preciso dizer mais nada.

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ATO
João de Abreu Borges

Nada tenho
de que possa dizer:
"Isto é meu!"

Nada sou
de quem possa dizer:
"Este sou eu!"

Um hiato
não é um afastamento
é a confirmação absoluta
da razão última de ser
de um isolamento.

Nada digo
de que possa dizer:
"Quem disse fui eu!"

Nada sinto
do que possa dizer:
"Sem o outro, eu sou eu!"


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Em "O calmante", o narrador quer falar, mas a voz não sai. É a afonia causada pelo longo silêncio, explica ele. E compara:

- Como no bosquezinho onde se abrem os infernos.

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UTOPIA
Ceres Marylise

Será que neste mundo conturbado
extinguiu-se de vez a utopia?
Que todo sentimento de esperança
cedeu lugar à descrença, à covardia?

Como posso acreditar, meu Deus,
que a Terra atualmente é só ruína?
Que a morte e o silêncio de mãos dadas
determinam o final de toda a vida?

Como posso aceitar que digam
que o prazer é uma rápida euforia?
Que o horizonte é o final de tudo
e que a noite nada realiza?

Como posso acreditar, enfim,
que mãos se buscam apenas por calor?
Que é mentira toda troca de afagos
e utopia toda forma de amor?

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Mas o silêncio de Beckett é bem peculiar. Por um lado, como os soldados descritos por Benjamin, ele não é mudo, ele foi emudecido. Por outro lado, seus personagens falam o tempo inteiro. Mas falam sobre o nada. Em O expulso, por exemplo, o narrador começa falando da impossibilidade de contar os degraus da escada. Em O calmante, o narrador consegue conversar com outro personagem sem dizer qualquer coisa de relevante.

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PLASMADA
Regina Romeiro

Que tímida tu és

Espera na porta

Ou te escondes na porta?

Es_pera! Teu por é esférico!

A porta não é tua

Tu não te im_portas

Plasmada na porta

Taparam teus olhos selaram tua boca

Cruzaram teus braços

Teus olhos_ nas costas da porta

Assento tu tens na soleira da porta

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É a condição dos três narradores do livro que faz com que eles silenciem. Todos os três foram jogados na rua. A partir disso, vagam sem rumo por uma cidade que eles não reconhecem, embora lhes seja familiar. Eles se sentem deslocados. E vão se tornando cada mais deslocados, cada vez mais à margem da sociedade. Mas eles não se revoltam. Eles se adaptam, calados, ao progressivo rebaixamento social por que passam.

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IMPOTÊNCIA
Sônia Maria Grillo (Baby®)


Da abertura
formou-se o cenário,
a seta lançada à altura
do espaço infinito, do imaginário...
E resta acima de tudo, a esperança,
que se acreditava adormecida
exatamente como uma criança,
pelo cansaço da brincadeira, vencida...
E eis que de repente,
numa fração de segundo
tudo muda à nossa frente
e há uma reviravolta no mundo...
O que se há de fazer
quando a razão se torna impotente
diante do vir a ser?
O jeito, é esperar o dia amanhecer
ousado e insolente
e deixar a vida acontecer...

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Vladimir, personagem da peça Esperando Godot, é quem cria a imagem perfeita da condição dos narradores de Novelas. Diz ele a seu companheiro Estragon:

- Eu vou me acostumando ao esterco à medida que piso nele.

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HESITAÇÃO
Tarcísio R. Costa

Tanto tempo desperdiçado com hesitações,
Ao fazer-se do presente momentos de incertezas,
Como se pudéssemos brincar com os sentimentos!

Não! Resolvi levar a sério os ditames da minha consciência
E, assim, controlar minhas ações.
Evitar o deletério, procurar agir com parcimônia
minhas palavras
E usá-las sempre sob a égide da paciência,
Para nessa temperança, colher o equilíbrio do meu agir...
Assim, inicio uma marcha contrária ao meu caminhar,
Sem, no entanto, seguir por atalhos...

Aonde vou chegar? Eu não sei!
Acho tudo tão misterioso, o que me faz pensar:
Que feliz é quem tem fé nas leis do sobrenatural,
A única saída para se encontrar a solução
Para o impasse do absoluto.

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PENSAMENTOS E REFLEXÕES

"As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára. O mesmo vale para o riso".

Samuel Beckett

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VENTO OESTE
Lourdinha Biagioni®

Envolvo no colo este momento,
sem vacilo nem cochilo,
sem protelação me entrego.
A escassez entre o presumido
- o preço do tempo -
e o que faz (e é) sentido.

Cansaço de explicação...
o tédio dorme no livro de auto-ajuda,
molde e prescrição...
como se destino voltas não desse,
planeta no céu não rodasse
e o imaginado não valesse.

Vida se esvai, hoje vira ontem.
grãos de areia em mãos de criança.
De repente é o agora, com ou sem aviso.
O mágico instante, sem resgate,
no movimento engolido, à margem,
mera lembrança,

A fortuna, seu balanço,
enrosca-se ao cenário e trama, vira história.
Mágicos instantes sem resgate.
O sonho acalentado
e o perdido, com ou sem juízo,
inalcançado.

Do milagre do amor encontrado,
restam as rimas escritas e sonoras
em que me debruço.
Na clara fala
contida no silêncio, ou num soluço,
Eu (me) refaço.

e então me encontro,
ou me perco, no murmúrio
das águas,
no vento leste dos começos,
no vento oeste
onde as coisas terminam.

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"A arte sempre foi isto - interrogação pura, questão retórica sem a retórica - embora se diga que aparece pela realidade social".

Samuel Beckett

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SEM VOCÊ
Antonia Nery Vanti (Vyrena)

Sem você perco o sentido da vida
Seguindo um caminho incerto,
Minha alma fica perdida
Em escuros labirintos
Dos quais não encontro a saída.

Sem você, sou como ave ferida
Sem força para voar a tua procura
Não sei onde andas, onde te escondes
Só sei que sem você,
Minha doença não tem cura.

Doença essa de saudade
Que fez morada em meu peito
E ali permanece
Alimentando-se da dor infinita
que remédio nenhum dá jeito.

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"Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem".

Samuel Beckett

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S F U M A T O
Veronica de Nazareth - Noic@

Sfumato

é o olhar

sobre o mar do tempo,

ondulando

recuerdos presentes,

trazidos

em garrafas

de Saudade...

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A VIDA É UM HÁBITO

"O hábito é o balastro que prende o cão ao seu vômito. Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, porque o indivíduo é uma sucessão de indivíduos [...] «Hábito» é pois o termo genérico para os inúmeros contratos celebrados entre os inúmeros sujeitos que constituem o indivíduo e os seus inúmeros objetos correlativos. Os períodos de transição que separam as consecutivas adaptações [...] representam as zonas perigosas na vida do indivíduo, perigosas, penosas, misteriosas e férteis, em que, por um momento, o tédio de viver é substituído pelo sofrimento de ser".

Samuel Beckett, in "À Espera de Godot"

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VAZIO CÁLIX
Elisa Santos

Em mãos... O cálix vazio em brinde!
Sorvido o vinho...Saciado o corpo,
Ficou a sede, nos lábios tremulam
As palavras que se perderam na volúpia

Nas asas da paixão, rubra e borbulhante
Mergulhou a alma e o gosto amargo
Tomou-me o corpo que em agonia
Vive à revelia da morte que chegou

Ontem verso vivo, hoje
Faço-me reverso e acompanho-me
Em brinde ao abandono que invisível
Enche o cálix nas noites sem amor!

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É O FIM QUE CONFERE O SIGNIFICADO ÀS PALAVRAS

"Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras".

Samuel Beckett, in "Textos para Nada"

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TATUAGEM
Jorge Linhaça

Queria ser a tatuagem
no teu corpo desenhada
não ser apenas visagem
nas curvas de tua estrada

Queria ser a paisagem
para sempre eternizada,
queria ser a tatuagem
no teu corpo desenhada.

E em plena estiagem
ser a flor desabrochada.
Ser o final de tua viagem.
e na tua pele incrustada
queria ser a tatuagem.

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QUEM É QUE TU AMAS?

Quem é que tu amas? - continuou Murphy. - Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. - Nada mal, para um Murphy. - Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar.

Samuel Beckett, in "Murphy"

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BONS VENTOS
Sueli do Espírito Santo

Frente ao mar eu falo com o bom vento
observando no céu azul as gaivotas
tão tranqüilas, traçando as suas rotas
felizes, unidas em um vôo suave e lento

suas rotas parecem um grande desenho
seus traços de beleza têm tanta clareza
indicam um rumo perfeito com certeza
por isso frente ao mar eu sempre venho

e como se estivesse usando uma lente
no horizonte vislumbro o lindo arco-íris
e peço ao vento que o traga, que tente
trazer cores a vida de tanta gente infeliz

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"A arte sempre foi isto - interrogação pura, questão retórica sem a retórica - embora se diga que aparece pela realidade social".

Samuel Beckett

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ACALANTO PARA A PAZ
Lisieux

Dizem que sonhar é para os loucos
e que os poetas respiram utopia...
mas eu insisto em que sonhar é muito pouco
para quem vive num presente de agonia.

E eu sou pedra dura... embora sonhe...
embora até pareça ser suave,
por estes pequeninos, me levanto
e ergo a voz, em tom bem alto e grave.

É que não basta só sonhar... portanto,
é necessário arregaçar as mangas,
e labutar por essas criancinhas,
sejam elas tuas filhas, sejam minhas...

Porque crianças não pertencem só a nós
que somos pais e mães, que as parimos;
elas são fruto do amor Divino,
são a esperança de um futuro bom!
São a certeza de que o destino
será melhor pra toda a humanidade.

Um dia nós teremos, num só tom,
celeste sinfonia, muitas vozes,
num grande coro pelos oprimidos,
a proclamar, enfim, libertação!

E o cativeiro dos patrões e algozes,
será por fim por todos nós, vencido...
E nesse dia, veremos a Nação
entoando um novo canto,
como irmãos!

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"As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára. O mesmo vale para o riso".

Samuel Beckett - "Esperando Godot"

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ESTOU MULHER
Marisa Cajado

Não sou mulher, estou mulher
Estado maravilhoso desta vida
Enquanto nele, sou feliz, agradecida
A este corpo que agasalha o ser.

E ufano-me com a graça
De na mulher ser, mãe, amante
Co -criadora feliz a todo instante
Na forma, que meu ser abraça

Estou mulher para fazer feliz ao homem
Amparando quem de mim se aproximar
Para entender, compreender e amar
Demonstrando que a mulher, é lúmen!

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"Os moralistas são pessoas que coçam onde os outros têm comichão".

Samuel Beckett

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O AMOR
Célia Lamounier de Araújo

Meu corpo aceso guarda um grito agudo
que vai rolar ao infinito mar
pois com a felicidade, se me iludo,
irei cantar, dançar, de amor queimar.

Ao vento, ao rio, ao mar, gritar ao céu
irei, na eterna busca de um alguém
sincero, bom, correto, andante ao léu
que junto a mim será feliz também.

Por esse alguém hei de me reflorir
em flor e fruto ou rosa a repartir
num tempo de nós dois, amor e vida.

E dia e noite, caminhando a dois
vamos assim no passo a passo pois
o meu amor é fogo de partida.

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"A virtude absoluta mata o ser humano com tanta segurança como o vício absoluto, pela letargia e pomposidade que provocam".

Samuel Beckett

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SER
Helena Armond

forma-se o cerco

sem saída o SER

evoca sobre si

o umbilical cordão

acha o fio

a -ponta e encontra

o princípio...

de uma interrogação


(do livro Velaturas, 1999)

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"Toda a palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada".

Samuel Beckett

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DUALIDADE
Maria Thereza Neves

Em movimentos...
a consciência, o corpo-alma-poeta
"o ser ou não ser"
sentidos da divisão em conflitos
das eternas contradições

paradoxos ambulantes
instantes-sentimentos
há que se entender essa dualidade
pra que se entenda o SER
na sua essência profunda
caminhando como sentidor, pensador
dividido,dividindo-unindo...

num mesmo passo
ou no descompasso do existir
no encontro das montanhas
que se fundem com as águas
quando retornam vivas lembranças!

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Edição: Maria Thereza Neves
Música: The song from Moulin Rouge - Percy Faith (parte)

Outubro  de 2008

 

 
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