Aconteceu Luna's
&
Nelson Rodrigues

APRESENTAÇÃO
Nelson por Nelson

"Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só?” Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional.

Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista.

Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico".

Nelson Rodrigues


Setembro/2008
Maria Thereza Neves

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Poetas Luna's e Amigos

Mardilê Friedrich Fabre / Moacir I. da Costa Jr / Regina Romeiro / Edimo Ginot/ Delasnieve Daspet / Sunny Lóra / Nadir Vilela / Belvedere Bruno / Vilma Duarte/ Sônia Maria Grillo / Líria Porto / Vaine Darde / Marise Ribeiro / Lupércio Mundim / Reinaldo Corona / Malu Otero / Ilka Vieira/ Nídia Vargas Potsch /Jorge Linhaça / Andréa Motta / Vânia Moreira Diniz /Abilio Terra Junior / Gustavo Dourado/ Mellíss / Ana Joaquina de Oliveira Cruz / Paulo Fuentes / Elaine Ermel / Elane Tomich Buchmann / Arneyde T. Marcheschi  / Nany Schneider / Roberto Stavale / Sonia Salete / Tarcisio Costa / Tonha França / Leda Galvão de Avellar Pires / Tereza da Praia / Maria Ivone / Carlos Assis / ABittar / Neusa Mendonça / Luiz Poeta / ...  / Maria Thereza Neves

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INSENSATO AMOR
Mardilê Friedrich Fabre

De olhos fechados deliro. Ardentia.
Atirei-me contigo no abismo.
Insensato amor me consumia.
Turvei-me em doses de otimismo.

Subjugada pela ilusão,
Ofereci-te todo o meu brilho
E caí em ebulição,
Desnorteada como o andarilho.

Sem palavras te prometi
Ser teu amanhecer maduro.
Nada esperei. Nada exigi.
Desmoronei no canto escuro.

Seguiste com indiferença.
Enovelei-me nas carências
Da minha reconvalescença,
Escondida das envolvências.

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Quinto filho dos catorze que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues puseram no mundo.

Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, por problemas políticos resolve se mudar para o Rio de Janeiro, onde vem trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em julho de 1916, d. Maria Esther e filhos chegam ao Rio de Janeiro num vapor do Lloyd.

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AROMA
Moacir I. da Costa Jr.

andava ele pelas Sete Colinas de Roma
atrás da Mulher com o mais doce Aroma.
e ELA ofereceu-lhe a maçã: 'ah,... coma!'

Selena et Moacir
Filia DEI benedicite amor mei!


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Nelson ia sendo criado dentro do clima da época: as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa. Os velórios também eram feitos em casa, usava-se escarradeira e o banho era de bacia. Nelson registrava em sua memória esse cenário. Daí sairiam os personagens de sua obra literária.

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A MESMA LÍNGUA
Regina Romeiro

Toco com minha palavra o teu país
Cruzo fronteira pedindo licença
Teu aceite incita reconhecimento

Passeio os olhos no pomar e na floreira ofertados
Toques e cheiros impregnados na memória afloram
Linguagem dos olhos esculpindo templo

Olhos para o mesmo sol
E o deus exposto sussurrando
Ouço... reconheço. A mesma língua.

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Com o autor vivendo seu quarto ano de vida, um fato pitoresco: uma vizinha, d. Caridade, invade a sua casa e diz para sua mãe: "Todos os seus filhos podem freqüentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson." Como ninguém entendesse a razão de tal proibição, ela afirmou: vira Nelson aos beijos com sua filha Odélia, de três anos, com ele sobre ela, numa atitude assim, assim. Tarado!

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ACHADO
Edimo Ginot

às vezes
parecemos peças
de um jogo ultrapassado

num mundo
virado às avessas
(um viver tão delicado)

que só podemos
quebrar as promessas
que nos mantém amarrados

e tentar escrever
uma nova peça
para achar um novo achado


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Aos sete anos, em 1919, pediu a sua mãe para ir à escola. Foi matriculado na escola pública Prudente de Morais, a dois quarteirões de sua casa. Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora, d. Amália Cristófaro. Infelizmente não era muito asseado e vivia sendo repreendido por ela. O que, no entanto, causava espécie, era sua cabeça — desproporcional em relação ao tronco — e suas pernas cabeludas.

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GRATUIDADE
Delasnieve Daspet

Olhos nos olhos da imensidão
Percebo a grandiosidade das coisas,
Tudo que é belo é gratuito.

Pela vida nada se paga,
Concebidos e gerados
Somos no amor.

O nome que se carrega,
Nos é dado, assim como,
A raça, a cultura, a cor...

Gracioso, também, é o ar que se respira,
O sol que nos aquece e ilumina,
O oxigênio que nos chega das matas,
As flores que nos enfeitam,
O fruto que nos alimenta.

De graça, também, é a inteligência
Que elabora o pensamento,
A decisão da escolha,
E o amor que trocamos...

E a memória que armazena
As lembranças, as metas traçadas
Do ideal que se assume...

A vida – bem, sem preço dos seres vivos,
Riqueza maior do homem,
É transmitida e garantida, e, deve ser
Partilhada e vivida em harmonia.

Tudo que é perfeito,
Recebemos de graça,
Por quê, então, a cobrança?

Por quê tanta gente com fome.
Com sede e com frio,
Tanta gente sem lar,
Sem aconchego ao léu?

Por quê tantos abandonados à sorte,
Infeliz sorte,
Num infeliz caminhar ?

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Em 1920 ocorreu um fato que, depois, se transformou num dos favoritos do escritor: o do concurso de redação na classe. D. Amália passou a lição: cada aluno deveria escrever sobre um tema livre. A melhor redação seria lida em voz alta na classe. Finda a aula, as composições foram entregues. A professora quase foi ao chão com o trabalho de Nelson: era uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão. A redação, apesar do espanto que causou em todo o corpo docente, não tinha como não ser premiada, muito embora não pudesse ser lida na classe. A professora inventou um empate e leu a outra composição.

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PASSAR A VIDA A LIMPO
Sunny Lóra

A vida desfila como um cortejo,
Todo dia é novo, nunca será repetido,
Se eu desejar passá-la a limpo
Nunca será igual ao que tenho vivido...
A vida tem passagem só para um
Cada um de nós tem o seu caminho...

Eu sempre quis subir em balões!
Espalhar todos os sonhos lá de cima,
Mesmo que poucos me ouçam
Gosto de viver de ilusões...

Não quero perder o encanto de viver
Quero inventar canções, um encanto...
Aplaudir o que é certo, descartar o errado
E quando a velhice vier à minha procura
Direi, sorridente para ela:
- Venha, acolhe a minha meninice
com as tuas mãos...


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Nesse período, Nelson presenciou grandes discussões entre seus pais, causadas por ciúmes que seu genitor tinha de sua mãe. Influenciado por seus irmão mais velhos, passou a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente do Tico Tico para romances mais "pesados" como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e as Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, os fascículos de Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América, e outros mais. Mudavam os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.

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MEU ANJO
Nadir Vilela

Você é meu anjo o meu sonho bom,
Um presente lindo que Deus me ofertou.
Eu te amo tanto e nunca vou negar,
Sou feliz contigo pra sempre vou te amar...

Seus lábios me envolvem me deixa no ar,
Seus olhos me enfeitiçam eu so penso em ti.
Seu corpo me enlouquece só quero te amar,
Você é meu vicio pra sempre vou te amar...

Entrego-me a ti, sobre a luz do luar,
Em qualquer lugar so quero te amar.
So quero te amar, so quero te amar...

Embalo nos teus braços e não quero mais parar,
Envergonho as estrelas que não sabe amar.
Nos sonhos me refaço, pro mundo eu revelo,
É amor,é amor...é paixão e vicio...
Eu te quero tanto e nunca vou negar...
Em qualquer lugar eu vou te amar...

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Foi em 1919 que o autor descobriu o Fluminense. Foi o primeiro ano do tricampeonato do tricolor, muito embora nem ele nem seu irmão Mário Filho, posteriormente famoso como jornalista esportivo e que teve seu nome escolhido para ser o nome oficial do estádio do Maracanã, tivessem dinheiro para sair da rua Alegria e se deslocarem até Laranjeiras para ver o seu time jogar.

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ROSAS & PORTA-RETRATO
Belvedere Bruno

rosas a murchar
sobre a mesinha
ao lado da
minha cama

pergunto
quantas luas
ainda ficarei
assim
tão-apenas
comigo

sempre frisei
que me amava
tanto
e tanto
que
seria eu
minha melhor
companhia

hoje sinto
que
por mais
que me ame
sua foto
neste
porta-retrato
parece
me dizer
que sempre
vivi
equivocada


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Consolidado seu prestígio junto a Edmundo Bittencourt, do Correio da Manhã, Mário Rodrigues junta sua família e muda-se para a Tijuca, fato que, na época, era mostra de nítida melhora de padrão de vida. Estávamos em 1922.

O autor seguia sua vida, sentindo a ausência do pai, sempre envolvido com a política e o jornalismo. No ano de 1926 foi expulso do Colégio Batista, na Tijuca, na segunda série do ginásio, por rebeldia. Nelson vivia contestando seus professores, em especial dos de Português e História. Foi, então, matriculado no Curso Normal de Preparatórios, na rua do Ouvidor, pois seu pai esperava que ele futuramente prestasse exames no famoso Colégio Pedro II.

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AMAR COM POESIA
Vilma Duarte

Tomaste-te como a desvendar o desejo

Da mulher inteira cabeça alma e coração.

Nos teus braços desfaleci de tanto amor,

Pra renascer gloriosa na ventura sublime

De deliciar a arte e manha de ser a fêmea.

No palácio-de-fadas te dei-me em magia

Sou tua poeta. Amei-te em rimas e versos

Como ninguém jamais amar-te-á tão doce!

Nessas noites frias a saudade em estrofes

Pinga dos olhos molhados ensopando amor

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Para compensar a falta de contato com os filhos, Mário Rodrigues permitia sua ida ao Correio da Manhã para visitá-lo. Dizem que jamais sonhou em ter seus filhos jornalistas: as meninas seriam médicas, os meninos advogados. Afinal, a vida que levava não era nada fácil: nomeado diretor do jornal, meteu-se numa batalha entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que lhe custou um ano de cadeia, em 1924. O motivo: denunciou que usineiros pernambucanos (eles já existiam!) haviam dado um colar no valor de 120 contos de réis à esposa do então presidente Epitácio Pessoa, d. Mary. Negando-se a fugir do país, ficou preso no Quartel dos Barbonos, na rua Evaristo da Veiga, no Rio de Janeiro. A partir da data de sua prisão o jornal que dirigia — Correio da Manhã — foi silenciado pelo governo por oito meses.
 

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VOCÊ SE LEMBRA?
Sônia Maria Grillo (Baby®)

Você se lembra daquela rosa,
Colhida no jardim da praça
E eu, ao seu lado, toda prosa
Aspirando seu perfume com graça?

Lembra-se de nós dois de mãos dadas
Amando sob os clarões enluarados
E as estrelas brilhando cúmplices e prateadas
Iluminando nossos corpos entrelaçados?

Lembra-se dos nossos sonhos para o futuro
Dos devaneios que o mundo coloriu
E dos beijos com sabor de fruto maduro?

Ah! Mas como você poderá se lembrar
Se de fato, isso, nunca existiu?
Foi apenas a minha imaginação a fantasiar...

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Antes de seu pai ser preso, Nelson e família haviam mudado para uma casa na rua Inhangá e eram vizinhos do hotel Copacabana Palace. Ali, aos doze anos, o autor aprendeu a nadar. Mas, aos poucos, à medida em que entrava na adolescência, foi sendo possuído por uma indolência melancólica, ficando depressivo, suspirando pelos cantos e dizendo: "Eu sou um triste!".

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FLUÍDOS
Líria Porto


tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nesta vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um imenso chafariz

minha tristeza de chuva
esta amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

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Durante o tempo em que esteve preso, Edmundo Bittencourt cortou o salário de Mário Rodrigues, dando à mãe de Nelson apenas o suficiente para pagar o aluguel da casa. Mário foi ajudado financeiramente, nessa época, por Geraldo Rocha (proprietário do jornal A Noite, concorrente do Correio da Manhã), sem o que sua esposa e a penca de filhos por certo teriam passado fome. Ao ser libertado, volta ao jornal e é surpreendido com a notícia de que não haveria mais um diretor permanente, cargo esse que detinha. Seria feito um rodízio de diretores. Mas pior do que isso foi o fato de tomar conhecimento de que Edmundo estava tentando se aproximar de seu desafeto Epitácio Pessoa.

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AMOR NÃO É FILOSOFIA
Vaine Darde

Amor não é filosofia,
É exercício de vida,
É construção cotidiana,
Semeadura e colheita,
Resignação e atitude.
Permanente doação.

Amor não é filosofia.
Amor é dividir multiplicando,
Acolher o alheio em nosso íntimo...
Amor é labor,
É como regar as flores...
Semear a messe...
Colher as rosas...

Amor não é filosofia.
É química agindo...
Física aplicada...
Matemática dos seres,
Linguagem de beijos,
Geografia de corpos,
História de vidas.

Amor não é filosofia.
É vida conjugada,
Experiência dividida,
Prazer multiplicado.
(Amor nem sempre é riso
Mas, também, nem sempre é dor.)

Amor é o divino no humano,
O infinito no efêmero.
Amor é a iniciação à eternidade.
Ilumine-se:
Exercite o amor todos os dia.

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Mário, em carta desaforada, pediu demissão a Edmundo, dizendo que em breve voltaria para esmagá-lo. Daí surgiu seu próprio jornal, A Manhã.

Nelson inicia sua carreira jornalística em 29 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, ganhando trinta mil réis por mês. Tinha treze anos e meio, era alto, magro e seus cabelos eram indomáveis. Embora fosse filho do patrão, teve que comprar calças compridas para impor respeito aos colegas de redação.

Ali reuniam-se colaboradores ilustres: Antônio Torres, Monteiro Lobato, Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho, Maurício de Lacerda e José do Patrocínio. Além desses, havia a turma da casa: Danton Jobim, Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo, Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra figura de A Manhã era Apparício Torelly — Apporely — que mais tarde se autodenominaria "Barão de Itararé" e fundaria seu próprio jornal, A Manha.

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TEMPO DE MIM
Marise Ribeiro

Machuquei-me tanto
que preciso de um tempo
para me curar...
Imolei meu corpo,
entregando-me à dor do descaso,
ao teu amor por acaso,
à posse sem pedir licença...
Desilusões marcadas em chagas,
ainda doridas pela descrença...
Fiz-me altar
para te agradar,
ofertando-me como pão...
Dei-te a minha melhor porção,
cultivada em amor
e regada em oração...
Agora preciso fugir de ti,
recolhendo-me dentro de mim...
Deixar brotar o que não consegui:
um tempo de alento
e a semente de um novo momento...

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O autor impressiona os colegas com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. Especializou-se em descrever pactos de morte entre jovens namorados, tão constantes naquela época.

Na zona preta do Mangue, na rua Pinto de Azevedo, estavam concentradas as prostitutas mais pobre e esculhambadas, negras na maioria, a dois mil réis por alguns minutos. Mas o autor preferiu as da rua Benedito Hipólito, mais asseadas e que ficavam em ambientes melhores, embora o preço subisse para cinco mil réis. Ali, aos catorze anos, Nelson foi pela primeira vez com uma mulher para dentro de um quarto. Ficou freguês.

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LUA ORIENTAL
Lupércio Mundim

Ah minha doce lua,
crescente lua oriental,
a linda imagem sua
cura-me de qualquer mal.

Lava minh'alma suavemente
eliminando todas as tristezas,
incentive-me a seguir em frente
observando somente as belezas.

Transporte-me ao mundo da poesia
onde reinam o encanto e a paixão,
onde meu amor se envolve em minha fantasia
e se entrega aos desejos do meu coração.

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O indomável escritor cria um tablóide de quatro páginas intitulado Alma Infantil,nascido da troca de cartas com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e a cariocas, Nelson desiste do tablóide.

A irmã Dorinha morre em setembro de 1927, aos nove meses, de gastrenterite. Em 1928 a família se transfere para uma nova e luxuosa casa na rua Joaquim Nabuco, 62, em Copacabana. Viviam um momento de muito dinheiro e muita fartura.

Nessa época, o autor e seus irmãos mais velhos trabalhavam no jornal A Manhã: Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, indo depois para a página literária e depois a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola, apesar do esforço desenvolvido por seu pai.

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Reinaldo Corona

Hoje volto a andar
por trilhas de meu passado,
lugares onde, embaraçado,
curti meu primeiro amor.

Ficaram as marcas
de sacrifícios comuns,
de vidas e mesa parcas, exceto para alguns
ricos homens astutos
incultos quase brutos
esnobes perante os pobres,
capachos de seus iguais.

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Tendo garantido uma coluna assinada na página três do jornal — a página principal — o escritor publica seu primeiro artigo, em 07 de fevereiro de 1928. Tinha o título de "A tragédia de pedra...", com as solenes reticências. Depois vieram "Gritos Bárbaros", "O elogio do silêncio", "A felicidade", e "Palavras ao mar", todos de grande sensibilidade poética. Seu lado monstro só apareceu na crônica de 16 de março, "O rato..." (com as famosas reticências), em que ele conta como viu um rato morto, achatado por um carro, defronte à Biblioteca Nacional. Para desespero de seu pai, começa a "bater" em Ruy Barbosa. No segundo artigo em que esculhambava o "Águia de Haia", antevendo o que aconteceria, Nelson achou que se safaria de seu pai se saísse bem cedo de casa, antes que o "velho" lesse o jornal. Enganou-se. O castigo foi mais duro do que ele imaginava: foi rebaixado, saindo da página três e retornando à seção de polícia, onde trabalhou nos cinco meses seguintes.

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LOBO COM DISFARCE
Malu Otero

Como podemos avançar,
Se nos puxam o tapete?
Sai e entra governo, no lar
Do pobre, vive igual a gente

Em nós, a esperança nasce,
Com o ano que recomeça,
Mas tanto lobo com disfarce,
E não há quem os impeça...

Mensalões e mensalinhos,
Lavagem de dinheiro à beça.
Salário mínimo minguadinho,
Mas o congresso sai dessa...

Por si o político sabe legislar
Do bem do povo se esquecem
Até quando assim vamos estar?
Nosso voto eles não merecem!

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Mal teve tempo de voltar à terceira página e o pior acontece. O jornal, mal administrado, está cheio de dívidas. O sócio de seu pai, Antônio Faustino Porto, que há tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes, torna-se sócio majoritário e oferece o emprego de diretor a Mário. Este aceita, mas fica só um dia. A intervenção do novo dono em seus artigos faz com que ele e a família deixem o jornal.

Amigo de Melo Viana, vice-presidente da República, no dia em completava 43 anos, 21 de novembro de 1928, e apenas 49 dias depois de perder A Manhã, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal de grande sucesso: Crítica, que chegou a ter uma circulação de 130.000 exemplares.

O tenente-coronel Carlos Reis manda a polícia prender todos os Rodrigues que encontrasse, sob a alegação de que um deles era o mandante do assassinato do argentino Carlos Pinto, repórter de A Democracia. Foram, pai e irmãos, todos presos. Nelson escapou por não se encontrar no Rio, em viagem para o Recife, única forma encontrada pela família para tentar livrá-lo da depressão em que se encontrava. Cheio de paixões, ora por Lilia, ora por Carolina e ora por Marisa Torá, estrela da companhia teatral de Alda Garrido.

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LARGUEI DO CAIS
Ilka Vieira

Larguei do cais...
Precisei embarcar sem doçura...
... não olhar pra trás...
... enaltecer a amargura,
arrepender-me jamais!

Larguei do cais
afogando meus sonhos flagelados...
... consumindo meus gritos reprimidos...
... transportando meu casco arranhado...
... rebocando sussurros não ouvidos...

Larguei do cais pré-condenada,
alvitrando erros cometidos,
tornando minha sentença invalidada,
por amor próprio compadecido

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Ao lado dos primos Augusto e Netinha (com quem mantinha há algum tempo namoro epistolar), conheceu Recife e Olinda, a praia da Boa Viagem e, com Augusto, a zona de mulheres do Cais do Porto, considerada a maior da América do Sul. Sua prima, não se sabe como, tirou-o da depressão, fazendo-o voltar a todo vapor para a redação da Crítica.

Em 26 de dezembro de 1929 o jornal estampa matéria, na primeira página, sobre o desquite de Sylvia e José Thibau Jr. Foi a fórmula encontrada para o diário não sair sem assunto, já que era o primeiro dia após o natal. No dia 27, pela manhã, Sylvia entra na redação da Crítica procurando por Mário Rodrigues. Não o encontrando, pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro no estômago. Nelson viu e ouviu aquilo tudo. Com dezessete anos e quatro meses, era a primeira cena de violência brutal que presenciava.

Seu irmão faleceu no dia 29.

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AS PORTAS DA PERCEPÇÃO...
Nídia Vargas Potsch

Se abrem para o infinito
de universos desconhecidos
por nós dois,
onde o silencio se instalou e impera...

Palavras são desnecessárias,
volatilizam-se pela brisa que passa ao largo.
O pensamento comanda.
Rebate e volta com força total de outro pensar,
que ao lado ou distante pode estar...

É como o silencio que gravita
em torno de dois seres que se amam:
um gesto diz muito,
mas apenas o olhar, diz tudo.
É o silencio cúmplice e conivente dos apaixonados...

A mensagem captada atravessa a atmosfera
como um raio de luz poderoso
em direção oposta.
Nos mostra e nos faz ver
através da percepção sensorial
o quanto somos pequenos,
o quanto ainda precisamos apreender...

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Ninguém conseguirá penetrar no teatro de Nelson Rodrigues sem entender a tragédia provocada pela morte de Roberto. No mesmo dia do enterro, toda a família pôs luto. Os homens ainda podiam sair à rua de terno escuro ou com o fumo na lapela, mas suas irmãs se cobriram de preto da cabeça aos pés. Milton, o irmão mais velho, ia para o porão do palacete, antigo território de Roberto, apagava as luzes e ficava horas no escuro — à espera de um milagre que o fizesse vê-lo e ouvi-lo. Nelson apenas chorava. Joffre, de catorze anos, ganhou um revólver de Mário Rodrigues e passou a andar armado pela cidade à noite. Sabia que Sylvia tivera sua prisão relaxada. Se a encontrasse, a mataria.

Apenas 67 dias após a morte do filho, Mário Rodrigues sofre, aos 44 anos, uma trombose cerebral. Faleceu dias depois de encefalite aguda e hemorragia. Diante de tão sentidas perdas a família não encontra mais condições de morar na mesma casa. Mudam-se para outra casa na rua Sousa Lima, também em Copacabana. Um bafo de sorte surge: Júlio Prestes, que fora elogiado e defendido pela Crítica, vence Getúlio Vargas nas eleições para a presidência da República. Mas o que eles queriam era destruir quem matara Roberto e, por conseqüência, Mário. Sylvia foi absolvida por 5 a 2. O julgamento foi encerrado no dia 23 de agosto, exatamente quando Nelson completava 18 anos.

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GIRA, GIRA, GIRASSOL
Jorge Linhaça

Amanhece o dia e eles se erguem
Buscando nos raios de sol o seu norte
A luz solar as flores perseguem
Ao meio dia assume todo seu porte

Girassóis amarelos e reverentes
Para da luz retirar seus nutrientes
Girassóis assim sempre a girar
Como gira a vida sem nunca parar

Somos também girassóis ansiosos
Buscando da luz os raios dadivosos
Nos nutrindo de energia divinal
Na vida afastando de nós o mal

Girassóis humanos a nos nutrir
Da dádiva da vida a aprender
Na esperança de um eterno porvir
Em outro lugar onde iremos viver.

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Estoura a revolução, em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, Minas e quase todo o Nordeste. Crítica, num erro de avaliação, continua a atacar os rebeldes. Em 24 de outubro Washington Luís é deposto e a turba saiu cedo para acertar as contas com os jornais do velho regime. As redações e oficinas de diversos jornais são invadidas e empasteladas. Dentre elas, a do jornal dos Rodrigues. De todos eles só um não voltaria a circular: Crítica. Isso sem contar que Milton e Mário Filho foram novamente presos, porém logo libertados.

Os irmãos começam a procurar emprego, coisa que para eles não estava nada fácil. Foram meses batendo em portas fechadas. Começaram a vender tudo o que tinham para poder sobreviver e, devido ao aluguel sempre atrasado, eram obrigados a mudar de casa a cada três meses. Até que um dia uma porta se abriu para Mário Filho e os outros irmãos penetraram por ela.

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SUBLIMAÇÃO
Andréa Motta

Sem medos
abraça-me a alma arrepiada
solta os meus cabelos e toca-me
intensamente
intimamente

Deixa esta onda de calor percorrer-te a pele
não permitas que este momento de sublimação
se perca no tempo

Olha-me a alma por dentro das minhas entranhas
enxerga o invisível dos meus olhos
sente o meu corpo e ouve esta música

Deixa-te desvendar a cada toque sentido
deságua no meu prazer
Faze-me acreditar que o céu me sorri

Deita-te em chamas entre as minhas mãos
deixa-me explodir num orgasmo sagrado
de onde brotem lágrimas de felicidade

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Irineu Marinho havia fundado o jornal O Globo em 1925, mas, apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Chamou um velho companheiro de seu pai, Euricles de Matos, para tocar o negócio. Mas, em maio de 1931 Euricles também faleceu e Roberto Marinho convida Mário Filho para assumir a página de esportes de O Globo. Mário aceitou, desde que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre. Roberto Marinho deu seu "de acordo" com a condição de só pagar o ordenado a Mário Filho.

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COMO TE PRESSINTO
Vânia Moreira Diniz

Eu te pressinto em todas as horas,
Nos momentos de maior emoção,
Quando meu coração rememora,
O afeto transformado em paixão.
Eu te pressinto no instante de ternura,
Nas lembranças de todos os devaneios,
Naquele gesto de incontida doçura,
Em que o espírito se desprende em enleios.
Eu te pressinto na intensa alegria,
Nos profundos recolhimentos d'alma,
E nas crises em que anseio por calma.
Eu te pressinto na variedade de cada dia,
Na explosão do desejo oculto e vigoroso,
E na expressão do sentimento carinhoso.

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Nelson trabalhou alguns meses no jornal O Tempo. Joffre foi para A Nota, onde já trabalhava o outro irmão, Milton. O escritor era chamado de "filósofo" pelos colegas de O Globo, tinha um aspecto desleixado, um só terno e não vestia meias por não tê-las. Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito de Roberto Marinho, Mário Filho lança seu jornal, Mundo Esportivo, justo no fim do campeonato de futebol. Sem ter assunto, inventaram algo que seria uma mina de dinheiro anos depois: o concurso das escolas de samba.

Em 1932 o autor teve sua carteira assinada em O Globo, um ano após começar a trabalhar naquele diário, com um ordenado de quinhentos mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia). Em compensação, economizava pois voltava de carona com o "Dr. Roberto" para casa. Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma Ponce & Irmão, distribuidora no Rio dos filmes da RKO Radio Pictures. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais.

Nesse meio tempo, tinha suas paixões: por Loreto Carbonell, argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal; por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, linda e jovem morena. Dividia com seu irmão Joffre a paixão por ela. Depois vieram Clélia, uma estudante de Copacabana e Alice, professora de Ipanema.

A tosse seca e uma febre baixa, porém persistente, ao por do sol, foram os avisos dados a Nelson, além de sua magreza. Sua irmã Stella, já médica, arranjou uma consulta. O médico pediu que ele dissesse "33" e verificou sintomas de tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934. Por falta de um diagnóstico precoce, o autor já havia, com apenas 21 anos, arrancado todos os dentes e posto dentadura, numa tentativa de debelar a febre que insistia em não ir embora.

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ESTE MOMENTO
Abilio Terra Junior

no quadro a cor vermelha
junto a um amarelo que escurece
ele é comprido
e sua posição vertical

um brilho rápido de um raio
uma janela que acende
e logo em seguida apaga
o apito do vigia
que passa na moto

cores e formas cambiantes
de um mundo virtual
que se perde e que volta
em uma freqüência uniforme
em mil memórias
mil ritmos mil espectros

o mundo verdadeiro
da imaginação
o sangue vibra
também é real

este momento
se multiplica
em outros espaços tempos

e a antimatéria?
se a matéria por si
já enjaula
mas é um caminho
tortuoso e ambíguo
que não permite respostas

perguntamos
e o demiurgo se esconde
na profundidade perplexa
de duras mazelas

onde está Sofia?
em mil véus
de antigos templos
em longos hemisférios
que transbordam
em um mundo que surge
de um ponto negro
intensamente concentrado

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Vai, então, para Campos do Jordão - SP, local recomendado para tratamento, sozinho, sem saber se voltaria. Foi a primeira de uma série de seis internações. Roberto Marinho, sabendo das dificuldades da família, continuou pagando seu ordenado normalmente. Nelson passou 14 meses no Sanatórinho, de abril de 1934 a junho de 1935. Durante esse período só os irmãos Milton e Augustinho foram visitá-lo uma única vez. Compensava a ausência de parentes e amigos com cartas, muitas delas para Alice, a professorinha.

Contam que, em 1935, um doente propôs encenarem um teatrinho. O biografado foi encarregado de escrever a comédia, um "sketch" cômico sobre eles mesmos. Logo nas primeiras cenas a platéia começou a gargalhar e, com isso, surgiram os ataques de tosse que quase fizeram vítimas. Foi a primeira experiência "dramática" de Nelson.

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LATINA AMÉRICA...
Gustavo Dourado

LatinAmérica:
Vívida Latinamérica:
América solar
Iracema menina
Tupamara Caraíba
Tupamérica
Tapuiaimoré
Nhambiquara
Tupinambárbara
Americantropofágica
Tropicanibal
Maiasteca tupinca
América tupiniquim
Afro-brasilíndia
Jamaicuba Caribela
Regaee Mar-Ley Tosh Cliff
Quetzal Manco Mama Ollo
Mu Sumé Zumbi... Ohana Manitu
Americabralina lusibaiana
Americastelhana colombina
Amerititi[ca]ca Amenti Inti
Navegatlântica-pacífica
Não podes ser cativa
'Libertas quae sera tamen'
Americamazônica ecológica
Da Hiléia Pampa Chaco-Pantanal.
Não à Americativa!
Façamos a Americósmica!
PoeticArtisticAtiva
Régia América Latina
Platina Castelhandina
Luxafro-Brasiliana
Revolte América!
Desarme o oficial terror
Libertando Brasil-Haiti-Peru
Guatemala-Panamá
Cuba-Nicarágua-U.$.A.
Granada -El Salvador
Salve o Deus Meru-Tupã
Os povos Gês-Tapuias
Tolteca Zapoteca Inca
Xavante Tupinambá Yanomami
Tupi-Guarani Navajo Moicano
Todo o povo Xinguano
Os povos das Missões
O gaúcho Martim Fierro
O bravo sertanejo Lampião
Chico Mendes seringueiro!

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O autor pede ao secretário do jornal O Globo que o transfira da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Com a ajuda de Roberto Marinho consegue a transferência e começa arrasando a "Esmeralda", ópera brasileira do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área.Em abril de 1936, a terrível doença atacou seu irmão Joffre, com 21 anos, que foi levado para o Sanatório em Correias - RJ. Nelson ficou a seu lado durante sete meses. No dia 16 de dezembro de 1936 Joffre faleceu.

Em 1937 a redação do jornal só tinha homens. Após muita conversa Roberto Marinho concordou em contratar Elza Bretanha, apadrinhada do diretor administrativo, como secretária de Henrique Tavares, gerente de O Globo Juvenil. Voltando de sua segunda estada em Campos de Jordão, Nelson foi informado da presença de Elza, "dezenove anos, moradora do Estácio e dura na queda." Ele, então, sentenciou: "Está no papo." Errou.

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Mellíss

Se eu não puder ser palavra,

que eu seja o sentimento.

Se eu não puder ser o sempre,

que eu seja este momento.

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Nelson se aproxima de Elza, expõe sua situação de penúria de saúde e financeira, e fala em casamento. Consultada sua família, não encontrou objeção. Afinal, já tinha 25 anos. A mãe de Elza, d. Concetta, siciliana das boas, quase teve um ataque, tendo a honra de ter sido acompanhada nisso por Roberto Marinho. Ele disse a Elza: "Está sabendo que vai se casar com um rapaz muito inteligente e de grande talento, mas pobre, absolutamente preguiçoso e doente? Sua mãe está coberta de razão!" Mesmo assim marcaram para se casar no dia do aniversário de Elza: 08 de maio de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém, em 13 de maio, mandou para a noiva um recado que dizia: "Amor, estou com a alma cheia de pressentimentos tristes". Era a tuberculose que o atacava novamente.

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VERSOS INVERSOS
Ana Joaquina de Oliveira Cruz

Do que escrevo sou o inverso,
Dos versos que um dia vivi,
Nem em sonhos são sinceros,
Os momentos de amor que escrevi...

Versos que calam no peito,
Inversos da dor que domina,
Cantando um amor sem defeito,
Ilusão que um dia termina...

Meus poemas estão sorumbáticos,
No coração, alegria a reinar,
Se estão assintomáticos,
Não sei o que vou falar...

Poesias vivendo em conflito,
Contrastando com a realidade,
Paro, penso e reflito,
Calando a minha verdade...

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Nos quatro meses em que ficou internado, Nelson mostrou seu lado ciumento. Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou desfazendo o noivado. Mas o coração falou mais forte do que o infundado ciúme e marcaram novamente o casamento, contrariando a mãe da noiva e o patrão de ambos.

No dia 29 de abril de 1940, sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu para trabalhar, foi para a casa de uma amiga onde trocou de roupa e casou-se no civil, diante do juiz. Depois, foram comemorar tomando uma média com torrada na leiteria "Palmira". Voltaram para O Globo Juvenil e trabalharam normalmente. Haviam acertado, por vontade de ambos, que a noite de núpcias só aconteceria após o casamento religioso.

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ALMA PARTIDA
Paulo Fuentes 

Minha alma gêmea amada que partiste...
A chamado de Deus desta vida tão cedo...
E que hoje repousa ao seu lado no céu do firmamento...
Deixando-me viver tão triste aqui na terra em plena dor.

Se hoje sentada no paraíso para onde sei que subistes...
Ainda tiveres memória de nossa vida passada...
Jamais se esqueças daquela amor ardente...
Que sabes da pureza que em meus olhos hoje tristes...
Um dia vistes e sentistes...
E se neste momento então conseguires isso sentir...
Saibas que o que aqui em meu peito ficou...
Foi a tristeza de saber que mesmo sem querer...
Você partiu deste mundo e me deixou.

Hoje fico aqui em dor a chorar...
E rogo a Deus para que no dia que me levares...
Não me deixes longe de poder novamente poder ver...
A minha amada que um dia ainda muito cedo partiu...
Deixando-me aqui neste mundo sozinho...
Porém com a certeza de que...
Por mais que eu ainda aqui sem ti viva...
Jamais conseguirei lhe esquecer.

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Os irmãos de Elza ficaram sabendo e falaram até em matá-lo. Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio. Compraram móveis de segunda mão e Mário, o irmão, lhe deu de presente a cama de casal e a penteadeira. Finalmente d. Concetta dá o "de acordo" e o casamento religioso se realiza, em 17 de maio, após o autor, com quase 28 anos, ter sido batizado, fazer a primeira comunhão e estudado o catecismo, como manda a santa madre Igreja.Após seis meses de casamento, certa manhã Nelson acorda e comunica a Elza que estava cego. Não enxergava nada. Descobriu, indo ao médico, que se tratava de uma seqüela da tuberculose. Tomou muito antiinflamatório, melhorou, mas 30 por cento de sua visão estava perdida para sempre, nos dois olhos. Apesar do estado de penúria em que se encontravam, o focalizado pediu a Elza que deixasse o emprego quando se casassem. Logo que pode comprou um telefone e ligava para ela de hora em hora. Saudades ou ciúme? Nelson procurava uma saída para seu aperto financeiro. Elza estava grávida e seu salário estava estagnado nos 500 mil réis mensais. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila que se formava para assistir "A família Lerolero", de R. Magalhães Júnior. Alguém comentou: "Esta chanchada está rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu na cabeça do autor: por que não escrever teatro?

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EXPLÍCITO
Elaine Ermel

A ti preservei sonhos lascivos...quase irreais
Neste encontro, pelo destino já selado e tão esperado
Vem a minha oferta em deleite num frescor vestal
Lábios que se tocam em cada sensação despertada
Que prossegue no sensual jogo de emoção
Explícito e incontrolável desejo em mãos trêmulas ao me desnudar
Descobrem caminhos não percorridos
Tua boca saciando-se nos meus enrijecidos mamilos
Em mim desarraiga incontidos e suaves gemidos
Cânticos de prazer aos nossos ouvidos estimula nossa libido
E ao me tomar nos braços junto aos macios lençóis
Adorno-te em carícias abrindo-me como pétalas em flor.
No êxtase do prazer, ao cerrar meus olhos, eu te recebo
E na plenitude da energia, fundimos em um só nosso corpo

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No meio do ano de 1941 escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado. Nessa época as peças ficavam, no máximo, duas semanas em cartaz. Nelson oferece sua peça para dois grandes artistas de então: Dulcina e Jaime Costa, mas eles a recusam. O autor, necessitando de dinheiro, começou a se mexer: submeteu a peça a Henrique Pongetti, Carlos Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro Lins. Mas não conseguiu encená-la.

Nasce Joffre, seu primeiro filho. O autor, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Descobre que foi premiado com uma úlcera do duodeno. O médico lhe prescreve regime alimentar e manda que ele pare de tomar café e de fumar, coisa que nunca fez. Depois de muita luta, em 09 de dezembro de 1942, A mulher sem pecado foi levada à cena pela "Comédia Brasileira", com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor.

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FRONTEIRAS
Elane Tomich Buchmann

Nômades são os limites
de mim em estado de caça,
presa livre, bom alvitre.

Não te esqueças jamais
da prece, do olhar da graça
que em pedra imolei a ti.

Bom teu cheiro, bem te vi,
verde estavas como menta
eu, queimando à pimenta
a violar ritos tribais
e cárceres menstruais.

Há uma toada na serra,
um choro, não existe mais,
_porque desprezam os pardais?_
de tanto amar, virei terra!

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Em janeiro de 1943 Nelson escreve sua segunda peça teatral: Vestido de Noiva. Elza, sua mulher, fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas, críticos e amigos. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele gostou. Como outros, escreveu sobre ela e elogiou. Os jornais e suplementos falavam sobre Vestido de Noiva mas o autor não conseguia encená-la. Todos diziam que era uma peça que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Só Thomaz Santa Rosa, um pernambucano ex-funcionário do Banco do Brasil, cantor lírico, desenhista, músico e poeta, achou que era possível. Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski.

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CRIANDO A POESIA!
Arneyde T. Marcheschi

Repouso minha cabeça
cansada das lutas diárias,
no aconchego de seus braços,
adormeço...sonho...
Na inércia componho
meus versos,
tento criar frases,sonetos,
vou a procura de rimas,
não busco simetrias,
crio ao acaso, de acordo
com os sentimentos vividos
que vão tomando formas
e sentidos.
Nos braços da poesia
entrego meus devaneios,
aqueles pedacinhos
que hoje são reflexos de mim,
acoplados com a magia
e o encantamento das letras.
Deslizo por entre flores
procurando em cada pétala
pedaços de vida
esquecidos nos fragmentos do sono.
O despertar me encontra
ainda pouco sonolenta
mas animada para pegar
as letras e transformar
em pequenas poesias
que falam de mim..
falam de você,
e se transformam em néctar
dando sentido á vida.

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O grande ator e diretor leu a peça e disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". O autor conhece o diretor e tem início a epopéia do grupo "Os Comediantes": oito meses de ensaios, oito horas por dia. Às 20h30 do dia 28 de dezembro de 1943, os portões foram abertos e 2.205 espectadores viram a peça. Duas horas depois a peça chegou ao fim. O silêncio foi total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. O diretor aparece e o teatro delira. Alguém grita na platéia: "O autor, o autor". Nelson estava escondido em um camarote, lutando contra a dor de sua úlcera, e não foi visto por ninguém. Disse, depois, que sofreu naquele momento, sentindo-se "um marginal da própria glória". Quando o autor, após as comemorações com a família na leiteria "Palmira", pegou o bonde de volta para casa já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. Naquele momento completavam-se catorze anos da morte de seu irmão Roberto.Apesar da fama que a peça lhe deu — o ano de 1944 foi cheio de acontecimentos — ele continuava sendo mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro de 1945 é convidado por David Nasser, de O Cruzeiro, para uma conversa com Freddy Chateaubriand. Foram almoçar, além do autor, Freddy Chateaubriand, Millôr Fernandes e David Nasser. A oferta era inacreditável: cinco contos de réis (já nessa época cinco mil cruzeiros) — mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.

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EMBALOS DE LUZ
Nany Schneider

Sem ao menos esperar,
Puxa-me pela mão e enlaça nossos corpos,
Para que juntos possamos sentir a harmonia,
Daquele som que inebria.

Pela madrugada escura, brilha a luz desses momentos.
Pois deles sempre renasce, a sensação violenta do amor.
Dançando sobre o tapete, pés descalços, só o toque.
Sentindo mais e mais a proximidade que nos envolve.

Essa é a dança da luz, luz que vem do coração.
Só a música quebra o silêncio, dos beijos apaixonados.
Dança da luz, onde estrelas descem para acompanhar,
A pureza de sentimentos, da beleza desse par.

Luz que dança a nossa volta,
Luz que está dentro de nós.
Luz que embala nossos passos,
Nesta dança que me faz tão sua em seus braços.

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Para ele estava fechado, mas pediu para falar com o Dr. Roberto, a quem devia favores. Esse não só não se opôs como desejou-lhe boa sorte e deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas Detetive e de O Guri. Como a função lhe tomava pouco tempo, o autor ficava perambulando pela redação da revista O Cruzeiro, que era no mesmo andar. Sempre procurando fazer "bicos" que permitissem um ganho extra — continuava a ajudar sua mãe financeiramente — soube que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal, que estava com uma tiragem de apenas 3.000 exemplares por dia e sem anúncios. Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim. Daí nasceu Suzana Flag e Meu destino é pecar.Cada episódio tomava uma página inteira de O Jornal e tinha uma ilustração de Enrico Bianco. Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem do jornal para quase trinta mil exemplares. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo, o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Quando a história terminou, o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado a trezentos mil livros. Isso provocou o começo de outro folhetim, Escravas do amor, cujo sucesso foi também retumbante.

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VIM DE LONGE
Roberto Stavale

Vim de longe
Dos confins da eternidade
Para viver a saudades
Lembranças de uma mulher
Morena de olhos negros
Seios... singelos matreiros
Perdidos entre os cabelos
Sem ofuscar a nudez
Tentação dos meus pecados
Cometidos em desvarios
Nas ânsias da embriaguez
Quero voltar... não consigo
Pois o seu vulto absinto
Segue-me na imensidão
Dos meus dias de desterro
Das longas horas sem zelo
Pontuadas e marcadas
Nas ampulhetas arcaicas
Heranças da solidão...

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Em março de 1945 é atacado, novamente, pela tuberculose. O ano anterior havia sido ótimo: além do lançamento em livro do Vestido de noiva, ele via seu filho crescer com saúde e Elza esperava um novo filho. Resolveram ir todos para Campos de Jordão, inclusive a sogra, d. Concetta. Depois de uma semana viram que aquilo não fazia sentido e a família retornou. Em junho teve alta e, face à proximidade do parto de sua mulher, voltou correndo para o Rio. Nasceu, então, Nelsinho. Vale dizer que os Associados arcaram com todas as despesas de seu empregado no Sanatórinho.Nos dois últimos meses de 1945 e nos dois primeiros meses de 1946 o grupo "Os Comediantes" encenou Vestido de noiva e A mulher sem pecado no Teatro Phoenix, com lotação esgotada. Começa a escrever, então, Álbum de família. Em fevereiro de 1946 o texto é submetido à censura federal e os censores ficam de cabelos em pé. A peça foi proibida de ser encenada. As opiniões se dividiam entre os intelectuais, os críticos e os jornalistas da época, uns a favor da liberação outros contra. Venceram os contra, pois a peça só foi liberada em 1965 e levada pela primeira vez em julho de 1967.

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INVASOR...
Sonia Salete

Bate uma dor aqui no peito.
Aperta feito um nó.
A saudades que sinto é tanta
A ansiedade é de dar dó !

Saudade criança, brinca de jogar
No esconde-esconde da vida
Vai torturando meu coração...
Tão longe estás da minha ilusão.

No dolorido aprendizado
Que sei ser amor...
A saudades vai amarrando...
Porque a vida nos separou...?

Nem sonhava amar assim...
Quero acordar,
sair desta saudades amarradeira
que expressa uma amizade verdadeira!

Foi tão fácil de te querer...
Daria um mundo pra te dizer:
Meu hoje é saudade
Doce e querido invasor...

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Outro sucesso de 1946 foi a publicação de Minha Vida, uma "autobiografia" de Suzana Flag. Como das vezes anteriores, além de publicada em O Jornal, virou livro e vendeu horrores.Anjo negro, estréia em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários polêmicos. Os ganhos com a peça permitiram que o autor comprasse uma casa no Andaraí, que teve parte financiada no IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários). Nelson tinha 36 anos e ficara livre do aluguel. Senhora dos afogados é proibida em janeiro de 1948. Com duas peças interditadas, o autor luta como um mouro para tentar liberá-las. Não conseguindo, escreve Dorotéia, em 1949, que muitos consideram seu melhor trabalho teatral.Ainda em 1948 é publicado mais um folhetim, Núpcias de fogo, ainda como Suzana Flag.Uma mulher chama a atenção do autor nas coxias do Teatro Phoenix, quando da encenação de Anjo negro: era Eleonor Bruno, conhecida como Nonoca, linda "mingnonne", tímida, recatada e soprano lírico, que estava ali para tomar conta de sua filha de apenas 13 anos, Nicete, que estreava como atriz. Embora nunca reclamasse, seu casamento não ia bem, e ele foi aceito por Nonoca e por toda sua família. Alugou um apartamento pequeno em Copacabana, em sociedade com o amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de "garçonnière", até que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu na porta, fez um escândalo e ele voltou com o rabo entre as pernas para casa. Seu romance com Nonoca terminou ali.

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SOU POESIA...
Tarcísio R. Costa

Sou poesia
Na cortina da aurora,
No eclodir do novo dia,
No oposto dos ponteiros
No soar da Ave Maria.

Sou Poesia
No voar do passarinho,
Na procura de um calor,
No aconchego do ninho.
Onde está o seu amor,

Sou Poesia
No embalo da ternura
No jardim, nas suas cores,
No sonho e na realidade,
No aroma das flores.

Sou poesia
Quando me encanta um flor
Na ausência que me dá saudade,
Quando me lembro do meu amor,
No segredo dos meus sonhos.

Sou poesia
Nas carícias da brisa,
Na cadência dos meus versos
Na tristeza, na dor, na alegria,
Nas minhas contradições,
No ritmo da poesia.

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Em 1949 Freddy Chateaubriand vai comandar o jornal "Diário da Noite" e leva Nelson consigo. Para trás fica Suzana Flag, que o autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu Myrna, a nova máscara feminina do biografado. A diferença é que Myrna respondia a cartas de leitoras.

Nelson escreveu a comédia Dorotéia para Nonoca. Foram duas as estréias como atrizes: de Nonoca e da irmã do autor, Dulcinha, aos 21 anos, no papel de Das Dores. Com medo de que a censura o atingisse novamente, o autor submeteu-lhe o texto como sendo um "original de Walter Paíno" — cunhado de Nonoca. A peça foi aprovada e estreou no dia 07 de março de 1950. Ao fim da apresentação, metade da platéia (onde estavam os convidados) aplaudiu e a outra saiu calada. Ficou 13 dias em cartaz. Em 1950 o autor dá adeus a Freddy Chateaubriand e aos "Diários Associados" e fica esperando convites de outros jornais. Ficou um ano esperando... Nesse período, salvam a família as economias de Elza e um "bico" no Jornal dos Sportes de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte sai do buraco e vai para a Última Hora e "A vida como ela é...". Começou com um salário de dez mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época.

Em junho Nelson estréia uma nova peça, "Valsa nº. 6", um monólogo estrelado por sua irmã Dulcinha. Ficou quatro meses em cartaz e foi outra desilusão para seu autor.

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CONCRETISMO...
Tonho França

Vejo-me entre arranha-céus, cinzas
Concretos, luzes, avenidas, semáforos,
Esquinas com perfumes e moças
Pedestres nas faixas
A vida na faixa
Meu rosto não tem marca de nenhum batom
No sobretudo uma rosa vermelha
Um poema de Drummond na ponta da língua
Um piercing tatuado no busto da praça
Um menino dorme no chão
[a vida na faixa: contramão]
No sobretudo uma rosa vermelha
Drummond na ponta da língua
Arranha o céu
Arranha
Em vão.

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Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora tinha algo em comum com o biografado: a tuberculose. Propõe ao autor que escreva, com pagamento extra, uma coluna diária sobre um fato real. Poderia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson sugeriu "A vida como ela é..." e, sugestão aceita, foi para a máquina escrever a primeira coluna. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relançou Suzana Flag em "O homem proibido".

Um dia, na rua Agostinho Menezes, onde então Nelson morava, um marido banana que era chutado como um cão pela esposa e ainda a bajulava, cansou-se do tratamento que vinha recebendo e, no meio da rua, deu uma sova de cinto na cara-metade. É claro que a vizinhança correu para ver o fato, sendo que as mulheres gritavam: "Bate mais, bate mais". O marido bateu até se cansar, parou, e então o inesperado aconteceu: a mulher atirou-se aos seus pés, aos beijos. E, desde aquele dia, passou a desfilar com o ex-banana, de braço dado e nariz empinado, toda orgulhosa. Ao ouvir os comentários das vizinhas que tinham apoiado maciçamente a surra, Nelson concluiu: "Toda mulher gosta de apanhar".

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ESPALHANDO ESTRELAS
Leda Galvão de Avellar Pires

Quero sair por aí
espalhando estrelas
azuis, douradas, prateadas...
Estrelas que adornem a fronte
da menina feia e triste;
estrelas que façam brilhar
os olhos daquela velhinha
que viu os filhos crescerem
- e sumirem -
na poeira dos caminhos;
estrelas que façam sorrir
a menina aleijada
que todas as tardes, da janela,
observa a criançada
brincando de pegador;
estrelas ternas que consolem
a moça que perdeu a virgindade
e que nunca pôde ser mãe;
estrelas que entrem no barraco
e sirvam de cobertor
prá família João-Ninguém;
estrelas de faz-de-conta
prá botar nos sapatinhos
dos que esperam, como eu,
a NOITE que nunca vem.

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Em 08 de junho de 1953 estréia no Teatro Municipal do Rio a peça "A falecida". Chamada de "tragédia carioca" era, na verdade, uma comédia. Foi escrita em 26 dias. Nessa época Nelson mantinha um romance com Yolanda, secretária de um radialista da rádio Mayrink Veiga. Esse caso durou cinco anos e rendeu três filhos: Maria Lúcia, Sônia e Paulo César, que ele não reconheceu como seus. Com tudo isso acontecendo, o autor produziu o último folhetim de "Suzana Flag", que chamou-se "A mentira" e foi publicado no semanário "Flan", lançado por S. Wainer.

Carlos Lacerda queria derrubar o presidente Getúlio e, para tanto, batia firme em Samuel Wainer e no jornal Última Hora. Nelson não escapava da pancadaria e era chamado de "tarado" por ele. Outro que também o atacava era o católico Gustavo Corção, da Tribuna da Imprensa.

"Senhora dos Afogados" é encenada no Rio, em 1954, com direção de Bibi Ferreira. A platéia, ao final, dividiu-se e uma parte gritava "GÊNIO" e a outra "TARADO". O autor não agüentou e reagiu à platéia, gritando do palco: "BURROS! BURROS!".

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SEM SENTIDO
Tereza da Praia

Tenho mentiras bem vestidas,
Verdades sem sentido,
Vontades imprevisíveis.
Amor que não compensa
O que ainda não tive.
Quero um coração,
Para que eu pise.
Chega de compreensão.
Perfumado é o pé
De quem pisa a flor...
Mas de quem é a dor?

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Em março de 1955 a família Rodrigues ganha uma ação contra o governo de indenização pela destruição do jornal "Crítica". Em 1956 recebem o equivalente a US$1.800.000,00. A parte que coube ao autor foi utilizada na compra de um apartamento em Teresópolis em nome dos filhos e de um carro para Elza. O que sobrou, investiu no teatro.

"Perdoa-me por me traíres" teve, também, problemas de liberação com a censura, em 1957 — sofreu cortes. Outra surpresa ocorreu na estréia: Nelson interpretava o personagem Raul. Mais uma vez as vaias e os que aplaudiam pediam para o autor falar. Ele não se fez de rogado: "BURROS! ZEBUS!". Ninguém esperava, mas aconteceu: um tiro! Na discussão entre prós e contras, o vereador Wilson Leite Passos sacou de seu revolver e deu um tiro para amedrontar alguém que o havia chamado de "palhaço". Tumulto geral. No dia seguinte a censura proibiria a peça.

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GUIRLANDAS
Maria Ivone

Das flores da cerejeira
Teci guirlandas
e, faceira,
fiz-me encanto
pra você

Dos galhos da cerejeira
fiz moldura
e, com candura,
pus-me à sombra
com você

E entre guirlandas e galhos
das flores da cerejeira
levamos a vida
florida, fornida
de sentimentos

Eu, você, nós,
as flores da cerejeira
e os frutos de tantas guirlandas
agora e sempre...

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"Viúva, porém honesta" estreou em 13 de setembro do mesmo ano. Dizem que nela o autor procurava atingir aos críticos que atacaram "Perdoa-me por me traíres". Um dos atores era Jece Valadão, cunhado do autor.

Dercy Gonçalves estréia "Dorotéia" em São Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson não gostava dos "cacos" que a atriz introduzia no texto.

Em 1958 estréia "Os sete gatinhos", também com Jece Valadão no elenco. Apesar de malhar o presidente da República da época, Juscelino Kubitschek, Nelson vai até ele pedir um emprego. Consegue um cargo de tesoureiro em um instituto de aposentadoria e pensões (IAPETEC), mas é reprovado no exame de vista. Pede, então, a vaga para Elza. Juscelino queria agradar Mário Filho e a nomeia.

O autor teve sério problema de vesícula e, após a operação de alto risco, ficou três meses sem publicar sua coluna no jornal de Wainer. Sua coluna em "A Manchete Esportiva" deixa de ser publicada de novembro de 1958 a março de 1959.

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AMANHÃ TALVEZ
Carlos Assis

Se sentir qualquer coisa
Venha
Abraça-me com ternura
Feche os olhos
Esqueça o resto do mundo

Venha
Fala-me com doçura
Da vida das pessoas
Da poesia das flores
Sorria

Depois
Lave-se e se perfume
Beije-me
E vá embora
Amanhã talvez!

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De agosto de 1959 a fevereiro de 1960, centenas de milhares de leitores acompanharam a história de Engraçadinha e sua família em "Asfalto Selvagem". Foram publicados dois livros, intitulados "Engraçadinha — seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito" e "Engraçadinha — depois dos trinta".

O autor almoçava com sua mãe quase todo dia. Tomava o ônibus na Central do Brasil e ia até o Parque Guinle. Um dos motoristas gostava de exibir-se: tinha vinte e sete dentes na boca, mas eram todos de ouro. Nelson juntou esse fato ao bicheiro do submundo carioca, Arlindo Pimenta, e dai surgiu o "Boca de Ouro"

A peça, como todas as demais, teve problemas com a censura. Foi levada para estrear em São Paulo e foi um retumbante fracasso. Ziembinski insistiu em viver o papel principal e não deu certo. Em janeiro de 1961, com Milton Morais no papel do "Boca de Ouro", estréia no Rio com grande sucesso.

Ainda no final de 1960 o autor entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Tôrres a peça "Beijo no asfalto". O espetáculo estava a um mês e meio em cartaz quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Ficou sete meses em cartaz, pelo Brasil. Ela provocou a saída de Nelson da "Ultima Hora", pois nela fazia referências pouco positivas à imagem do jornal. Voltou ao "Diário da Noite" com "A vida como ela é" e, após dez meses, em julho de 1962, foi para "O Globo", com a coluna de futebol, "À sombra das chuteiras imortais".

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ABittar

Ver o caminho
Seguir sozinho
Porque estamos sós
Desde que nascemos sós
Vivemos sós
Desde o início
Até o fim
Somos assim sós
Sempre estaremos sós
E um dia só
Morreremos sós

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Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima, que logo passa a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada e bem casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixona, deixa o marido e volta a viver com os pais. Ele demora dois anos para se separar de Elza. Seus amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio Mello e Souza ficam chocados. Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação do autor. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, após o qual Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo.

Na marquise do Teatro Maison de France, no Rio, piscava o título da nova peça de Nelson: "Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária". Otto quase morreu de susto e ficou profundamente irritado. Ela ficou por cinco meses em cartaz. O autor só não se conformou de Otto não ter ido assistir ao espetáculo. Ele adorava essas brincadeiras e fez o mesmo com Fernando Sabino e com Cláudio Mello e Souza.

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RETALHOS DA ALMA
Neusa Mendonça

Restam-me apenas os fiapos, os retalhos
De minha alma, as migalhas que cai de
Uma mesa farta, as sobras, os restos
Pois, pobre estou caída na rua, nua e crua

Sinto vergonha de mim, sinto o rasgar de
Minha carne sinto o vermelho do meu rosto
Se destacar, no vazio desta vida, vida sofrida
Mas calo-me diante da realidade deste mundo

Mundo este que esvaziaste tudo de bom que
Tinha dentro de mim, dentro de minhas entranhas.
Hoje vivo a vagar pelas ruas de uma cidade que
Não existe que criei dentro de minhas ilusões

Mas parada estou, sem saber que lado seguir
Se fico estacionada no tempo ou se sigo em frente
Estou sem direção, sem um guia, sem rumo certo
Mas continuo seguindo a rota que tracei para
Minha vida, para os dias que hei de viver

Dias frios como o vagar de minhas imaginações
Como o grito parado dentro de um peito dilacerado
Resta-me apenas o amargo vazio da solidão
Onde chora minha alma, geme meu coração
Esperança, não sei, será que há!!!

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Lúcia deu um trato na aparência do escritor, já que ele participava desde 1960 do programa esportivo "Grande resenha Facit" na TV Rio, por obra e graça de Walter Clark, e era, portanto, um artista! Ela teve uma gravidez nada normal e um parto difícil. Daniela, a filha, nasceu com 1,5 quilo, e não conseguia respirar. Perdeu minutos de oxigenação no cérebro até que conseguissem fazer seus pulmões funcionarem. Daniela passaria o primeiro ano de sua vida numa tenda de oxigênio, tinha má circulação nas pernas, chorava sem parar em virtude das dores que sentia. Devido à paralisia cerebral nunca conseguiu andar ou articular um movimento e era irreversivelmente cega.

Nelson escreveu para Walter Clark a primeira novela brasileira de todos os tempos: "A morte sem espelho". Apesar do grande elenco — Fernanda Montenegro, Fernando Tôrres, Sérgio Brito (que também respondida pela direção), Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava na TV), música de Vinícius de Moraes — não foi autorizada a sua apresentação às oito e meia da noite. Foi empurrada para o horário das vinte e três e trinta. Walter Clark apelou, sem sucesso, até para D. Helder Câmara. Conseguiu, finalmente, autorização para o horário das dez horas, que não compensava financeiramente. Nelson foi convidado a encerrá-la rapidamente.

Ficou claro nesse episódio que o problema era o nome do autor. Na sua novela seguinte, "Sonho de Amor", em 1964, seu nome apareceu mas ela foi anunciada como 'uma adaptação de "O Tronco do Ipê"', de José de Alencar". Sua última novela para a TV foi "O Desconhecido", com direção de Fernando Tôrres e Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos Alberto, Joana Fomm e outros mais, que só foi liberada graças ao poder de convencimento de Walter Clark.

Depois de ser renegada por muitas atrizes, "Toda nudez será castigada" estréia no dia 21 de junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas são aplaudidos em cena aberta, os ingressos são avidamente disputados e fica em cartaz por seis meses no Teatro Serrador e em excursão pelo Brasil. Após três anos de apresentações no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, a peça é proibida em Natal - RN.Em 1966 o autor muda-se, a convite de Walter Clark, para a TV Globo. Em situação financeira apertada — como sempre — aceitou até aparecer como "tradutor" dos romances de Harold Robins, publicados pela Editora Guanabara. Foi uma forma de receber mais algum dinheiro. A TV Globo era a "lanterna" na preferência dos telespectadores naquela época. No programa "Noite de gala" o autor apresentava o quadro "A cabra vadia", onde entrevistava pessoas. O primeiro foi João Havelange, presidente da CBD - Confederação Brasileira de Desportos.

Nessa época é chamado por Carlos Lacerda, ocasião em que é informado da criação da Editora Nova Fronteira. Lacerda, que o malhou por tanto tempo, pediu-lhe um romance e deu-lhe um cheque de dois milhões de cruzeiros. Era algo em torno de novecentos dólares, mas para quem estava pendurado, foi ótimo. Ele escreveu "O Casamento". Quando Lacerda leu o livro, ficou assustadíssimo Era um carnaval de incestos e perversões às vésperas de um casamento. Vendeu-o para Alfredo Machado, da Editora Eldorado. O livro vendeu 8.000 exemplares nas primeiras duas semanas de setembro de 1966, empatando com as vendas do novo romance de Jorge Amado, "Dona Flor e seus dois maridos". A morte de seu irmão, Mário Filho, impediu por algum tempo que ele fizesse a divulgação da obra. Quando reanimou, o livro teve sua venda proibida pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva. Sua venda foi liberada novamente em fevereiro de 1967.

Indignado com o apoio dado pelo jornal "O Globo" à proibição da venda de seu romance, Nelson começa a estudar sua mudança para o "Correio da Manhã". Avisa que não pode deixar a TV Globo e, para sua alegria, é informado que não precisaria deixar nem o jornal "O Globo". O que o "Correio" queria dele eram as suas "Memórias". A estréia ocorreu em 18 de fevereiro de 1967 em grande estilo. Fez um sucesso enorme.

Paulinho Rodrigues, irmão do autor, morava com a família num prédio em Laranjeiras. Chovia a cântaros, dias antes, e Nelson disse a Cláudio Mello e Souza no Maracanã, assistindo o time do Santos ganhar do Milan: "Esse é um mau tempo de quinto ato do "Rigoletto'". Cláudio sabia que o "Rigoletto" não tinha quinto ato e que acabava no terceiro ato, como a maioria das óperas. Mas entendeu o que o autor queria dizer. No dia 21 de fevereiro de 1967 o prédio onde seu irmão morava desabou devido às chuvas. Morreram Paulinho, a esposa, filhos e mais alguns parentes que lá se encontravam para festejar o aniversário da cunhada do escritor. Em dezembro desse mesmo ano a viúva de seu irmão Mário se suicida.

Raphael de Almeida Magalhães, que já atuara como advogado de Nelson, é eleito governador do Estado da Guanabara. A pedido de Otto, e por insistência do biografado, finalmente libera "Álbum de Família", que estava interditada desde 1946. Só em julho de 1967 foi levada à cena e, apesar do carrossel de incestos, foi aplaudida no final. Já não tinha o impacto de tempos atrás.

Ele volta ao jornal "O Globo" passa a publicar "À sombra das chuteiras imortais" e "As confissões" (já que não podia usar "Memórias"), cada uma patrocinada por um banco. Como recebia uma comissão por esses patrocínios (mais que o dobro de seu salário), estabilizou sua situação financeira. A primeira "Confissão" foi publicada em 04 de dezembro de 1967.

Uma de suas manias era implicar com os pessoas conhecidas e com amigos. Era do seu estilo alimentar-se periodicamente de certas obsessões. Como dizia Cláudio Mello e Souza, Nelson era a "flor de obsessão". Ora Otto, ora Alceu de Amoroso Lima, ora D. Helder, ora Hélio Pellegrino, ora Cláudio Mello e Souza e quem mais estivesse por perto.

1970 marca o início dos anos duros da ditadura militar no Brasil. Nelson, conhecido e admirado pelos militares, luta para tirar da prisão Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Com mais de 57 anos, ele se sentia desgastado, sem espaço — seu apartamento vivia lotado de enfermeiras por causa de sua filha, enfim, era chegada a hora de se separar de Lúcia, o que ocorreu sem traumas.

Logo em seguida vai morar com Helena Maria, que era 35 anos mais nova que ele, e que trabalhava com ele no jornal. Em 1972 começa nova luta: seu filho, Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. "Prancha" (seu codinome) foi apanhado em 30 de março de 1972. Dois anos antes, quando seu filho já vivia na clandestinidade, Nelson consegue com o presidente da República, Gal. Medici, que ele saísse do país. Nelsinho não aceita o privilégio. O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso, face a seu prestígio e contatos com os militares, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos. Após a prisão de Nelsinho, começa a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta.

Nelson escreve "Anti-Nelson Rodrigues" no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e é levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para casa e voltam a viver juntos. Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante "O bigode do meu tio", em Vila Isabel, de propriedade de Joffre.

O autor escreveu sua grande e última peça — "A Serpente" — em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com treze companheiros, os últimos presos políticos cariocas, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário do autor, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional mas não pode ver seu pai: estava inconsciente no hospital Pró-Cardiaco.

Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo. No fim da tarde daquele dia ele faria treze pontos na loteria esportiva, num "bolo" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza cumpriu o seu pedido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só".

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POROS CORPOS DANÇAM
Maria Thereza Neves

na respiração
os poros corpos dançam
as incertezas e inquietações
expressando mistérios do sentir
ecos no amplo espaço-alma
viajam, desfilam sensações
amoldam em perfumes e cores
soltam a natureza em movimento
profundezas-extensões
naus-espumas ondas
coreografias,evocação de uma razão do ser
entre o homem e a mulher
marcos vivos,vícios e caminhos sinuosos
a obra dança nasce
na evolução
na fusão dos corpos
nos orgasmos que brotam