Aconteceu Luna's
&
Octavio Paz

APRESENTAÇÃO

Octavio Paz, ensaísta e poeta mexicano, nasceu na capital de seu país em 1914. Passou sua infância nos Estados Unidos, acompanhando sua família, e sua vida adulta entre a França e a Índia, por fazer parte do quadro de diplomatas mexicanos. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.

Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocquerville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.

Em torno de sua obra encontram-se influências diversas como do marxismo, surrealismo, existencialismo, Budismo, Hinduismo e do modernismo franco e anglo americano.

Em 1990 obteve o prêmio Nobel de Literatura. Morre na Cidade do México, em abril de 1998.

Muitos dos poemas de Paz são baseados em pinturas de Joan Miro, Marcel Duchamp, Antonio Tapies, Robert Rauschenberg e Roberto Matta. Em Salamandra, de 1962, Octavio Paz usa inovações advindas do cubismo francês. Sua escrita, freqüentemente, lida com oposições, paixão e razão, sociedade e indivíduo, trabalho e sentido: " A imagem poética é o encontro de realidades opostas", como ele mesmo escreveu em A Dupla Chama

Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Juntamente com Pablo Neruda e o extraordinário César Vallejo, Octavio Paz é um dos grandes poetas Latino Americanos cuja obra teve um forte impacto internacional. Suas antologias de poemas, em espanhol e em inglês, foram publicadas em 1988.

Foi ele mesmo quem escreveu a respeito, em O Labirinto da Solidão: "A morte é um espelho que reflete as gesticulações vãs da vida. Toda esta matizada fusão de atos, omissões, arrependimentos e tentativas — obras e sobras — que é cada vida, encontra na morte, senão o sentido ou a explicação, o fim. Diante dela nossa vida se desenha e imobiliza. Antes de desmoronar e fundir-se ao nada, é esculpida e toma forma imutável: já não nos modificaremos, a não ser para desaparecer. Nossa morte ilumina a nossa vida. Se a nossa morte carece de sentido, também a nossa vida não o teve".

Ele escreveu: "A supressão da dualidade criação-destruição, melhor dizendo, sua fusão num movimento que as abraça sem suprimi-las é mais que uma visão filosófica da natureza. Heráclito, os estóicos, Lucrécio e muitos outros pensavam da mesma forma. Ninguém, porém, havia aplicado com o rigor de Sade essa idéia ao mundo das sensações. Prazer e dor também são nomes, não menos enganosos que os outros. Essa frase é uma mera variante da moral estóica; nas mãos de Sade é uma chave que abrirá portas condenadas há muitos séculos. Por um lado, meu prazer se alimenta da dor alheia; por outro, não contentes com gozar diante dos padecimentos dos outros, meus sentidos exasperados também querer sofrer. A mudança de signo (o bem é mal, a criação é destruição) se opera com maior precisão no mundo sensual – o prazer é dor e a dor, prazer."

Isso é verdadeiro e também terrível. No ensaio que escreveu em 1986, Cárceres da razão, Paz foi além: "o prazer é o agente que guia e move os atos e pensamentos dos homens e das mulheres; o prazer é intrinsecamente destruidor." E no poema mais antigo, O prisioneiro, escrito em Paris em 1947, Paz intuiu o resumo de tudo num verso genial: "O sonho é explosivo. Estala. Volta a ser sol."

Junho/2008
Maria Thereza Neves

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Poetas & Octavio Paz: Delasnieve Daspet/Otávio Coral/Tarcísio R. Costa/Lisieux/Nelim Monti /José Roberto Abib/Tereza da Praia/Luli Coutinho/Fernanda Guimarães/Eliane Duarte/ Naidaterra/ Sunny Lóra/Solange Daniel/Luiza Helena G. Viglioni Terra/Marise Ribeiro/Regina Romeiro /Marisa Cajado/Regina Reis/Zena Maciel/Sonia Nogueira/Carvalho Branco/Andre Luiz Aquino/João das Flores/ABittar/Maria Petronilho /Maria Thereza Neves

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ASSIM COMO AS FOLHAS QUE TREMEM...
Delasnieve Daspet

Assim como o sol que se curva a cada manhã;
Assim como as folhas que tremem
Com a brisa refrescante;
Assim como um pássaro a céu aberto,
Numa ânsia que toma,
Assim, no meu silêncio, este lamento.

Escrevo no pó da estrada
A profunda dor de minha mágoa.
E na aridez de minha saudade,
Com o canto preso na garganta,
Sou a lágrima triste
Que pinga sobre tua lembrança!

Assim sou, assim sigo
Um mero reflexo na janela...
Esta mentira é tão real que dá pena,
Sem perceber, sou eu mesma, quem vaga,
Na multidão que não passa...


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Biografia simplificada

Octavio Paz nasceu na Cidade do México em 1914. Cursou estudos de direito na Universidade Nacional Autônoma do México e estudos especializados de literatura, no México, Estados Unidos, Paris e Japão.

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FORA DO TEMPO
Otávio Coral

No jardim infértil

Na folha seca

Na flor sem aroma

Não pousa o pássaro



Há toda uma espera

Para amadurecer a hora


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Fez parte da geração de Taller, que, mais que uma revista, foi um dos movimentos literários mais importantes do México.

Em 1937 foi para a Espanha onde fez amizade com vários intelectuais republicanos.

Em 1945 ingressou no serviço de diplomacia mexicano. Residiu em Paris, participando do movimento surrealista, a partir do seu encontro com André Breton, quando experimentou a escrita automática, e logo depois no Japão e na Índia. Em 1976 fundou a revista Plural e anos mais tarde a revista Vuelta.

Publicou mais de vinte livros de poesia e inumeráveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933.

Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Juntamente com Pablo Neruda e o extraordinário César Vallejo, Octavio Paz é um dos grandes poetas Latino Americanos cuja obra teve um forte impacto internacional. Suas antologias de poemas, em espanhol e em inglês, foram publicadas em 1988.

Em torno de sua obra encontram-se influências diversas como do marxismo, surrealismo, existencialismo, Budismo, Hinduismo e do modernismo franco e anglo americano.

Muitos dos poemas de Paz são baseados em pinturas de Joan Miro, Marcel Duchamp, Antonio Tapies, Robert Rauschenberg e Roberto Matta. Em Salamandra, de 1962, Octavio Paz usa inovações advindas do cubismo francês. Sua escrita, freqüentemente, lida com oposições, paixão e razão, sociedade e indivíduo, trabalho e sentido: " A imagem poética é o encontro de realidades opostas", como ele mesmo escreveu em A Dupla Chama.

Em 1990 obteve o prêmio Nobel de Literatura. Morre na Cidade do México, em abril de 1998.

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O POETA
Tarcísio R. Costa

A mente do poeta parece conturbada
Por dúvidas trazidas do seu passado,
Sempre fala de um coração sofredor,
Ninguém jamais pôde avaliar
Do poeta, a sua realidade.

Dia fala das estrelas, dia fala de amor,
Reclama constantemente da saudade,
É um ser que mostra o seu interior,
É grande a sua sensibilidade.

O amor é a sua verdade,
Ele fita o horizonte como se lá estivesse,
Parece ver lá a origem da sua saudade.

Na poesia, os seus verso
Um viver de felicidade.
Parece conversar com as estrelas,
As flores são suas companheiras,
Visita-as, sempre que sente saudade,
Para relembrar o seu amor.

Ser poeta parece complicado,
Ele mistura tudo, ora fala de amor,
Ora se perde no mundo da desilusão.
Quando a saudade lhe aperta o coração,
Lágrimas cristalinas rolam frias
Pela sua face de dor.


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"CONVERSAR"
Octavio Paz

*(Tradução de Luís Alves da Costa)
Está incluído no livro "Árvore Adentro" (Vega, 1ª ed., Lisboa 1994), versão lusitana do último livro de poesia do escritor mexicano ("Arbol Adentro", Poemas 1976-1998).

E num poema leio:
conversar é divino.
Os deuses, contudo, não falam:
fazem, desfazem mundos,
enquanto falam os homens.
Que os deuses, sem palavras,
jogam terríveis jogos.

O espírito desce,
e desata as línguas,
palavras, porém não fala:
fala lume. A linguagem
pelo deus acendida,
é uma profecia
de chamas e um cair
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é bem filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: e as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem,
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.
 

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CIDADE ALUCINADA
Lisieux

São Paulo
mal acorda
e já sufoca
agride
agarra
arranha
ruge...

é
sol
e cruz.

Mas quando a noite vem
atrai
enlaça
afaga
e me
seduz...

é sal
e
luz
.
.
.

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ARCOS
A Silvina Ocampo
Octavio Paz


Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

1947
(Trad. Haroldo de Campos)


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HISTÓRIA DE AMOR
Nelim Monti

Entre montanhas de sentimentos,
o amor como água cristalina,
escorre e faz brotar espuma.
É uma cachoeira movendo a
roda da vida,
refletida em prismas de raios
de luz.
"História de amor"
que transcende, junta tempo
e espaço, cores, formas e tamanhos.
Com o amor conseguimos
ver pessoas, coisas,
paisagens com brilho especial,
para que aos poucos
se materializem.
Deparamos com cenários
diversificados que nos
impulsiona,
Quando atinge o ápice,
o auge, tudo se transforma.
É um vulcão a derramar lavas
incandescentes a queimar.
O amor vai navegando, vivendo,
crescendo, esparramando;
um mundo cheio de
estrelas com brilho reluzente,
a felicidade à torná-las
cadentes,
vislumbra diante de nós.

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DESTINO DO POETA
Octavio Paz

Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.

Deixa que eu me perca entre palavras,

deixa que eu seja o ar entre esses lábios,

um sopro erramundo sem contornos,

breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


(Trad. Haroldo de Campos)


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DOR DE AMAR
José Roberto Abib

Há mil almas em minhas mãos

Há talvez que se encontrar

Alguns pensamentos vãos,

Entretanto vã seria a dor

Se o amor não existisse

Interpondo-se, protetor,

Frente ao vento frio do entardecer,

Às mazelas de vidas sem essência.

À própria alma mal conheço

Uma vez que ainda preciso

Buscar razões vezes sem fim

Antes mesmo que a insensatez

Aos meus ais venha acolher

E eu me esqueça de te amar!

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ESCRITO COM TINTA VERDE
Octavio Paz

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

(Trad. Haroldo de Campos)

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MAIO DAS MINHAS CONTRADIÇÕES
Tereza da Praia

Nascimento e morte...
Encontro e desencontro.
Ganhos e Perdas
Olho o meu norte.

Maio...
Nasci no mês de maio
Em maio, fiz-me mulher.
tornei-me mãe, em maio
Realizei meu querer.

Em maio, encontrei o amor.
Dei-me por companheira.
Enviuvei-me em maio
Em maio, do luto eu saio.

Em maio renasço guerreira,
Pronta pra qualquer embate
Em maio ascendo a fogueira,
De uma paixão escarlate.

Maio...
Não sei se rio ou se choro
se lamento ou comemoro
Já fiz a minha escolha bonita
Em maio, faço a celebração da vida.

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O RIO (Fragmento)
Octavio Paz

A metade do poema sobressalta-me sempre um grande desamparo, tudo me abandona, não há nada a meu lado, nem sequer esses olhos que por detrás contemplam o que escrevo, não há atrás nem adiante, a pena se rebela, não há começo nem fim, tampouco muro que saltar, é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível, torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino cego.

Não, deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras uma espiga, um repuxo de sóis, e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba em onda e a onda rompa o dique, esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um bosque de palavras enlaçadas.

Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem ninguém exceto o sangue, nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema, sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo.

(Trad. Haroldo de Campos)

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IMAGINADO!
Luli Coutinho

Tantas insônias iluminadas
O gozo lento criando torpor
Jaz vertido por tanto amor

Pedir ao mundo que se finde
Emergir o meu corpo ao mar
Exaltar em silêncio a esfinge

Talvez pra não ter os sonhos
Que não dizem nada ao sono
E querer na manhã acordar

Perpetuar os abraços fortes
Dançando o balé dos corpos
Rodeados de luz feito astros

Nos beijos o amor dividido
Virarmos pássaros coloridos
Fazer florestas ficarem azuis

Seres da minha imaginação
Violetas na cor entrelaçadas
Sermos sombras abraçadas.

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IRMANDADE
Octavio Paz

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

(Trad. Antônio Moura)

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ACALANTO PARA A DOR
Fernanda Guimarães

Hoje guardo os poemas que te fiz
Recolho as rimas, as palavras loucas
Os versos amarrotados, amontôo

Hoje desejo o inexprimível
Acariciar o nada, sentir o vazio
Alhear-me de qualquer lamento

Hoje prefiro a imprecisão, o disfarce
Asfixiem os tolos suspiros e
Ou qualquer voz que fale de saudade

Hoje embrulho a ilusão, a espera
Engaveto os delírios e quimeras
Lavo-me dos cheiros das promessas

Hoje não me falem de poesia
Emudeçam o sol, vigiem a lua
Silêncio! Minha dor quer apenas dormir...

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VENTO, ÁGUA, PEDRA
Octavio Paz

A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

(Trad. Antônio Moura)

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COMO ESTOU?
Eliana Duarte

Bem...
Ando vazia, coração despedaçado,
estraçalhado...
Olhos marejados, lágrimas teimam em cair
a todo momento...
Lábios ávidos, ressecados,
desejando ardentemente teus beijos...
Meu corpo pede, minha pele suplica teus toques.
Penso, fantasio, imagino ter-te comigo a todo instante...
Passo as noites em claro...
se adormeço os sonhos logo transformam-se em pesadelos...
Minha cama sempre vazia.
Quanta agonia...
Que achas?
Será que estou bem?
Saudades de ti amor meu.


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ANTES DO COMEÇO
Octavio Paz

Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.

(Trad. Antônio Moura)

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DIREÇÕES OPOSTAS
Naidaterra

Passamos...
Por mais juntos que um dia
estivemos, sempre houve entre
nós um galho seco que balançava
insistentemente... temor...
Sentindo o vento a fragilidade
do momento, bastou somente um
solavanco e os senões da vida
nos separaram... o adeus...
Sorrateiramente,
tristes e melancólicas nossas almas
cruelmente foram arrastadas
em direções opostas...


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UM DESPERTAR
Octavio Paz

Estava emparedado dentro de um sonho,
Seus muros não tinham consistência
Nem peso: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas e as horas
Fixo e acumulado pesar.
O tempo dessas horas não era tempo.

Saltei por uma fenda: às quatro
Deste mundo. O quarto era meu quarto
E em cada coisa estava meu fantasma.
Eu não estava. Olhei pela janela:
Sob a luz elétrica nem uma viva alma.
Reflexos na vela, neve suja,
Casas e carros adormecidos, a insônia
De uma lâmpada, o carvalho que fala solitário,
O vento e suas navalhas, a escritura
Das constelações, ilegíveis.

Em si mesmas as coisas se abismavam
E meus olhos de carne as viam
Oprimidas de estar, realidades
Despojadas de seus nomes. Meus dois olhos
Eram almas penadas pelo mundo.
Na rua vazia a presença
Passava sem passar, desvanecida
Em suas formas, fixa em suas mudanças,
E em volta casas, carvalhos, neve, tempo.
Vida e morte fluíam confundidas.

Olhar desabitado, a presença
Com os olhos de nada me fitava:
Véu de reflexos sobre precipícios.
Olhei para dentro: o quarto era meu quarto
E eu não estava. A ele nada falta
- sempre fiel a si, jamais o mesmo -
ainda que nós já não estejamos... Fora
contudo indecisas, claridades:
a Alba entre confusos telhados.
E as constelações que se apagavam.

(Trad. Antônio Moura)

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UM AMOR ESPECIAL
Sunny Lóra

Plantei um pé de alecrim
Era verdinho, bonito...
Foi pra mim que plantei.
Fiquei triste porque não me quis..
A plantinha só acendeu
uma luzinha verde.. uma só!

Dei pra ela luz de lua cheia,
um pouco de sol e água
e com borrifos de saudade,
cantei canções de ninar, baixinho.
Pra ele eu dizia... Vem, alecrim!
Cresce e traz-me de volta
o cheiro da alegria e bem-estar!

Ele me respondeu, bem tímido,
- Ah, eu te quero bem sim...
estou aqui do teu lado!
Tu que não me vês inteiro...
Tem raízes escondidas, olha só!
Cheira meu chuvisco, meio embaçado...

Então, dei sombra ao alecrim.
Amanhã tem sol... Amanhã!


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ÁRVORE ADENTRO
Octavio Paz

Cresceu em minha fronte uma árvore.
Cresceu para dentro.
Suas raízes são veias,
nervos suas ramas,
Sua confusa folhagem pensamentos.
Teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são laranjas de sangue,
são granadas de luz.
Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, em minha fronte,
a árvore fala.
Aproxima-te. Ouves?

(Trad. Antônio Moura)

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MAGIA
Solange Daniel

É noite, ilumina no ar a magia
Sombras em sintonia
uma só melodia!

Chegada a hora da viagem
corpos selvagens
ganham plumagens!

partem ao infinito
na rota em que permito
perseguindo sonhos, não ditos!

Retornam ao raiar do dia
na primeira aragem
trazendo amor bendito!

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ENTRE PARTIR E FICAR
Octavio Paz

Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.

A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.

Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.

Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa

(Trad. Antônio Moura)

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TEMPESTADE
Luiza Helena G. Viglioni Terra

No horizonte o clarão forte
iluminava o céu escuro.
Pingos grossos começam a cair.
Encantada olhava os traços
disformes que
deslizavam lentamente
pela vidraça da
janela .
O vento zunia
forte balançando
os galhos das árvores
de um lado para
o outro, repercutindo
no ar um conjunto de
sons inebriantes.
Embora a tempestade forte,
os brilhos intensos
dos relâmpagos
clareavam o quarto sombrio.
Encostada na cadeira
antiga de balanço,
um vulto feminino
com dedos ágeis dedilhava
as cordas do
violão cuja melodia
fluía no ar
numa harmonia sem par.
No embalo da noite,
mergulhada em seus pensamentos,
sussurrava apenas uma palavra.
Saudades...

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EPITÁFIO SOBRE NENHUMA PEDRA
Octavio Paz

Mixcoac foi meu povoado: três sílabas noturnas,
um véu de sombra sobre um rosto solar.
Vinho Nossa Senhora, a Empoeirada Mãe.
Vinho que foi comido. Eu andava pelo mundo.
Minha casa foram minhas palavras, minha casa o ar.

(Trad. Antônio Moura)

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ENCANTADOR DE SERPENTES
Marise Ribeiro

Já tentei lacrar meu peito,
mas quando menos suspeito,
ele usa artimanhas irregulares,
consegue a chave enfim
e volta a gritar em mim...

Mudei seu nome, seu significado,
mas caio no pecado
de me iludir novamente;
e ele, sempre latente,
aflora ainda mais resistente...

Presenteei-o com maldades,
joguei-o em leviandades,
cultivei doenças, indiferenças,
ausência de crenças...
... inutilmente!

Criei venenosas serpentes,
para cuspir palavras impolutas...
Ele bravamente luta,
transpõe barreiras sorrateiras,
a tudo resiste... é astuto!

Deixar o coração de luto,
também não deu certo:
o mais que pôde o coração sangrou,
mas ele outra vez entrou
e o cicatrizou.

Apaguei minhas velas,
ele se acostumou ao escuro...
Tornei-o impuro, cerquei-me de procelas,
ele navegou e atravessou todas elas...

Destruí meu corpo,
entreguei-me à bebida,
caí na vida, cheguei à sarjeta...
Piedosamente, ele deu-me a mão,
entoou uma canção,
arrancou-me desta veste preta...
... e, mais uma vez, fraquejei de emoção!

Ah, o amor!... Que poder é este que ele tem
de me chegar nas horas que a ele convém,
ainda que eu queira seguir na solidão?...


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ISTO E ISTO E ISTO
Octavio Paz

O surrealismo tem sido a maçã de fogo na árvore da sintaxe.

O surrealismo tem sido a camélia de cinza entre os peitos da adolescente possuída pelo espectro de Orestes.

O surrealismo tem sido o prato de lentilhas que o olhar do filho pródigo transforma em festim fumegante de rei canibal.

O surrealismo tem sido o bálsamo de Ferrabrás que apaga os sinais do pecado original e o umbigo da linguagem.

O surrealismo tem sido a cusparada na hóstia e o cravo de dinamite no confessionário e o abre-te sésamo das caixas de segurança e das grades dos manicômios.

O surrealismo tem sido a chama ébria que guia os passos do sonâmbulo que caminha na ponta dos pés sobre o fio de sombra que traça a folha da guilhotina no pescoço dos justiçados.

O surrealismo tem sido o prego ardente na fronte do geômetra e o vento forte que à meia-noite levanta o lençol das virgens.

O surrealismo tem sido o pão selvagem que paralisa o ventre da Companhia de Jesus até que a obriga a vomitar todos os seus gatos e seus diabos encarcerados.

O surrealismo tem sido o punhado de sal que dissolve as velhas moedinhas do realismo socialista.

O surrealismo tem sido a coroa de papelão do crítico sem cabeça e a víbora que desliza entre as pernas da mulher do crítico.

O surrealismo tem sido a lepra do ocidente cristão e o açoite de nove cordas que desenha o caminho de saída para outras terras e outras línguas e outras almas sobre o lombo do nacionalismo embrutecido e embrutecedor.

O surrealismo tem sido o discurso da criança soterrada em cada homem e a aspersão de sílabas de leite de leoas sobre os ossos calcinados de Giordano Bruno

O surrealismo tem sido as botas de sete léguas dos foragidos das prisões da razão dialética e a tocha de Pulgarcito que corta os nós da trepadeira venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século XX.

O surrealismo tem sido isto e isto e isto

(Trad. Antônio Moura)

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OU A "INÊS É MORTA"
Regina Romeiro

É de se ficar admirado
Com o vai e vem sem lógica
Dos seres humanos
Nestas tais metrópoles
Esta urbanidade toda
É coisa desumana
Pois não leva a nada
Esse bate volta essa relação sem fala
Sem amor sem toque
Essa ginga toda vale uma gincana
Passa a perna empurra
Puxa o tal tapete que não vale um figo
Pra contar pra filho
A história é essa pra subir na vida
Pai e mãe labutam
Pra legar pra filho
Não negar presente se achar decente
Todo aprumado achar o pai valente
Sobe tanto o pai sobe tanto a mãe
Com distancias grandes
Criam-se os espaços para os desenlaces
Ora veja só que constatação
E ficam surpresos quando jovem ainda
O menino vira lá pelas esquinas
Sem saber pra onde quem são os amigos
Onde corre o trilho onde empina pipa
Já sem carretel perdem se os papéis
O fio da meada não se acha mais
Nesse desencontro nesse bate e volta
É volver em tempo ou a "Inês é morta".


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FRENTE AO MAR
Octavio Paz

1

Chove no mar.
Ao mar o que é do mar
e que as herdades sequem.

2

A onda não tem forma?
Num instante se esculpe,
no outro se desmorona
à que emerge, redonda.
Seu movimento é forma.

3

As ondas se retiram
- ancas, espáduas, nucas -
logo voltam as ondas
- peitos, bocas, espumas.

4

Morre de sede o mar.
Se retorce, sozinho,
em sua cama de rochas.
Morre de sede de ar.

(Trad. Haroldo de Campos)

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SEMPRE
Marisa Cajado

Sempre...
Que a tristeza chegar
E anuviar o teu dia de paz
Sempre...
Que o ruir dos teus sonhos
Tomar o lugar
Dos caminhos risonhos
Sempre...
Que a dor for presente
E o momento mordaz
Se fizer solidão
Sempre que os desencantos
Se tornarem tomentos
Em teu coração

Lembra...
Não há nada que dure sempre
Pois a noite sombria sempre
É parto de alvorada
Sempre...
Haverá pela frente sempre
Canto do eternamente sempre
A luzir em tua estrada

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De SEMENTES PARA UM HINO (1950-1954)
Octavio Paz

O dia abre sua mão
Três nuvens
E estas poucas palavras

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ATÉ QUANDO, MEU DEUS?
Regina Reis

Como é difícil viver neste país!
Não era pra ser assim.
Tantas belezas, tantas riquezas,
Mas tantas injustiças também, por quê?
Uns vivendo nababescamente
Outros mendigando para viver.
Uns têm até para o desperdício
E outros... Só vivem porque existe o lixo...
Até quando, Meu Deus!
Será que um dia vai acontecer
Do ser humano se transformar
E o brasileiro fraternalmente renascer...

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PEDRA NATIVA (Fragmento)
Octavio Paz

Como as pedras do Princípio
Como o princípio da Pedra
Como no Princípio pedra contra pedra
Os fastos da noite:
O poema ainda sem rosto
O bosque ainda sem árvores
Os cantos ainda sem nome

Mas a luz irrompe com passos de leopardo
E a palavra se levanta ondula cai
E é uma extensa ferida e puro silêncio sem mácula

(Trad. Haroldo de Campos)

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PÁSSARO DA ALEGRIA
Zena Maciel

Limpo a poeira da alma
Quebro a arca de segredos
Solto as amarras do medo
Deixo o pensamento voar
Cubro a dor com véu do luar
A lâmpada da tristeza
tento apagar
Os nós da solidão vou desatar
Jogo-me nos braços do tempo
Rasgo os velhos ressentimentos
Entrego-me às asas do encantamento
E o pássaro da alegria
saio a procurar
Em uma utopia quero morar
A boca da fantasia beijar
O coração deixo navegar
No mar dos sonhos impossíveis
ancorar
No porto da felicidade atracar
E uma nova vida celebrar
Com a loucura dos deuses
me encantar!
Lágrimas magoadas
nunca mais chorar!
A primavera nos meus dias
acabo de eternizar!

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"O homem é um ser que se criou a si próprio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si próprio". - Octavio Paz

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EU Existo SEM VOCÊ
Sonia Nogueira

Mas a saudade ficará latente
O pensamento vivo das palavras
Ficarão cativas eternamente
Como um silvo agudo nas estradas

Anunciando que o eco não acaba
A rota segue, o caminho, a jornada
Vai registrando cada tema na caaba
Contemplação na direção alicerçada

Feito prece cada página é oração
Como tatuagem firmada na pele
Não apagará a mensagem da ação
Em cada conta no rosário se repete

Toques de amor enviados dia a dia
Cravados no meu peito em melodia

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"A solidão é o fundo último da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura um outro". - Octavio Paz

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PARA SENTIR FELICIDADE
Carvalho Branco

Para sentir felicidade,
basta-me teu carinho,
tua ternura, teu desejo...
bastam-me teu amor e sinceridade...
Basta-me, quando em teus braços me aninho,
Sentir,de teu corpo, o calor
e, de tua boca, o beijo...
Basta-me amar-te com fervor
e ter a certeza de que, inseparáveis,
em nossas almas imortais,
somos, do mundo, a água e os sais
e o ar... essências impregnáveis
nas terras em que pisamos...
E isso só é possível, porque nos amamos...
Somos, unidos, os quatro elementos da Natureza...
Somos, da Humanidade, a fortaleza...
Somos, unidos, como o mais puro cristal,
A multiplicar o bem, transmutando o mal...
Para sermos felizes,
basta que a Iniciados e Aprendizes
possamos nos chegar e, de mãos dadas,
em correntes de amor assim formadas,
a Sagrada e Grande Família dos Dedicados
possa o Grande Portal dourado ultrapassar...
Seres etéreos, alados,
Corpos sutis de desencarnados,
almas irmãs a conviver e amar,
a semear amor-felicidade
pelo que restar da velha humanidade,
pelo novo mundo da Fraternidade!...

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"A palavra quando é criação desnuda. A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser. A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se". - Octavio Paz

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MENINAS SÃO TÃO MULHERES
Andre Luiz Aquino

Perdida num oceano profundo
Tu és ilha que flutuas
Enquanto eu me afundo
Em tuas costas nuas

E o nosso desejo não é delicado
Quando és vista por este lado
Porque mutuamente partilhamos
Desse mesmo pecado

Vou te devorando pelo avesso
De forma extraordinária
Como se fosse um menino travesso
Em nossa loucura em direção contrária

A maré me devolveu pra praia
E aqui deitado nessa cama de areia
Somos os dois da mesma laia
Virei um náufrago e você uma sereia

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"O amor é uma tentativa de penetrar no íntimo de outro ser humano, mas só pode ter sucesso se a rendição for mútua". - Octavio Paz

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UM POEMA DE VERDADE
João das Flores

Um poema de verdade reluz como um diamante
E espalha cores nunca imaginadas
Arranca da alma musicas límpidas
Que fazem bailar o coração

Faz borbulhar o cérebro como o vinho
Faz arrancar do peito a luz
Chicoteia o tropel da esperança
Para a caminhada do sonho

Um poema de verdade
É rito na celebração da dor
E se dilacerando de felicidade
É lira nas canções de amor

Um poema de verdade
É feito de ostracismo e glória
E mesmo abraçado por grilhões
É dele o testemunho da história

Acorda a noite embriagada
E traz clarão ao dia
Incendeia a aurora preguiçosa
Para a cumplicidade da alegria

Um poema de verdade grita!
Ele anseia a sua imortalidade
Mesmo corroído pelas traças
Quer vida para cantar a eternidade!

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"O mundo muda quando dois se olham e se reconhecem... Amar, é despir-se de nomes". - Octavio Paz

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AS MARCAS DEIXADAS...
ABittar

As marcas deixadas na areia
O rastro minhas pegadas
Gravada na úmida areia
Que o mar voltará a beijar
Ele as apagará quando voltar
Mas, em minha memória.
Já estão eternizadas
Desde o momento
Em que olhei pra trás
E vi você pisando
Sobre minhas pegadas
Repetindo os passos
Que eu dei.
Depois o que aconteceu
Foi depois
Foi

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"As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo... do medo da mudança". - Octavio Paz

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SOLTO POEMA
Maria Petronilho

Sobre o branco do papel
a pluma breve pousou
sangue azul
espaço a espaço derramou
e mesmo que não querendo
uma letra depois outra
fez-se livre
fez-se leve
tal melodia
o poema
foi nascendo
em instantes se elevou
ecoa na nossa alma
vivo sangue
ave eterna
... que jamais desalentou.

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DOIS CORPOS
Octavio Paz

Dois corpos frente a frente
são às vezes duas ondas
e a noite um oceano.

Dois corpos frente a frente

são às vezes duas pedras
e a noite no deserto.

Dois corpos frente a frente

são raízes às vezes
nas noites enlaçados.

Dois corpos frente a frente

são às vezes navalhas
e a noite, um relâmpago.

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RIOS, SANGUES DE OUTONOS...
(Poema inspirado em Octávio Paz)
Maria Thereza Neves

Sou sangue, rios de palavras
morrendo aos poucos, navegando no vazio...
Sou as tardes explodindo versos em sóis...
Sou arvores crescendo dentro de mim
fazendo-me floresta, mares, estrelas...
amor e dor, humana ainda sou...

Sou letras coladas , sílabas , pausas,
sons da alma, expressando sentimentos
repetindo, gritando pensamentos vãos...
folhas mortas esparramando outonos
dispersos no ar, enigma do universo
rios de sangue, das veias sempre a escorrer...

e nada mais...

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Edição: Maria Thereza Neves
Música: Tango Serenata de Schubert (parte)

Junho  de 2008

 

 
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