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Aconteceu Luna's
Especial
Artur da Távola

(03.01.1936 - 09.05.2008)
APRESENTAÇÃO
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Existem mãos que se calam, letras que apagam, caem no
esquecimento!
As de Artur da Távola jamais calarão, a sua escrita em tantos
campos eternizarão.
Poeta, Cronista, Político,divulgador da música clássica em rádios,
Tvs.
Apresentava o programa dominical "Esta Bossa Sempre Nova" e
"Mestres da Música", apresentou também e produziu "Vida e Obra de
Rachmaninoff" às quintas-feiras.
Na rádio Senado, Távola veiculou o "Música do Brasil" e "Crônica
Musical".
Na rádio Cultura FM ele apresentou o "Música Clássica com Artur da
Távola" aos domingos.
Távola também foi responsável pelo elogiado programa "Quem Tem
Medo da Música Clássica?", na TV Senado, onde ele comentava a
obra, o contexto histórico e a vida de uma série de compositores
eruditos.
Paulo Alberto Monteiro de Barros,cassado pelo regime militar, ele
viveu na Bolívia e no Chile entre 1964 e 1968.
No retorno ao Brasil assumiu o pseudônimo de Artur da Távola.
Maio/2008
Maria Thereza Neves |
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Poetas Luna&Amigos:
Carvalho Branco/Francisco Coimbra/Marly Caldas/Gustavo
Dourado/Angela Lara/Celito Mederiros/Elane Tomich/Elio Candido
de Oliveira/Clara Costa/ABiittar/Sonia Salete/Ilse
Soares/Lourdinha Biagionir/Samuel C. da Costa/Marga Carvalho/Theca
Angel/Marisa Cajado/Maria Thereza Neves |
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Artur da
Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, (Rio
de Janeiro, 3 de janeiro de 1936 — Rio de Janeiro, 9 de maio
de 2008) foi um político e jornalista brasileiro. |
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A ARTUR DA TÁVOLA,
nossas homenagens!
Carvalho Branco
Almas existem que ao terreno descem
A nos dar lição, ser um mensageiro
De Luzes Divinas, que não arrefecem...
São como aquele humilde candeeiro,
Que ao final do túnel, tudo clareia...
Cavaleiro da távola redonda
Cada, não mais com a espada guerreia,
Mas sim com a palavra que nos ronda...
Arthur da Távola cumpriu missão,
Foi, da nossa Cultura, baluarte:
Regeu com alma, mente e coração!
Retornou em paz ao plano de cima...
Deixando saudade, agora vai, parte...
Deixa-nos, de lembrança, obra-prima!...
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Iniciou sua
vida política em 1960, no PTN, pelo estado da Guanabara. Dois anos
depois, ele se elegeu deputado constituinte pelo PTB. Cassado pela
ditadura militar, viveu na Bolívia e no Chile entre 1964 e 1968.
Tornou-se um dos fundadores do Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB) e líder da bancada tucana na assembléia
constituinte de 1988, ano em que concorreu, sem sucesso, à
prefeitura do Rio de Janeiro, sendo posteriormente presidente do
PSDB entre 1995 e 1997. Exerceu mandatos de deputado federal de
1987 a 1995 e senador de 1995 até 2003. |
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EM MEMÓRIA
A ARTUR DA TÁVOLA
Francisco Coimbra
quando se cala uma voz
das que se fez ouvir
com sua escrita
fica um silêncio
preenchendo o vazio…
vou deixar poema triste
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Como jornalista, atuou como
redator e editor em diversas revistas, notavelmente na Bloch
Editores e foi colunista dos jornais O Globo e O Dia, sendo
também diretor da Rádio Roquete Pinto. Tornou-se especialmente
notável por apresentar o programa "Quem tem medo de música
clássica?", na TV Senado.
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VOCÊ É MINHA INSPIRAÇÃO
Marly Caldas
A vida inspira o poeta
Numa cena diária
Numa frase
Numa música
Numa imagem
Mas eu me inspiro em você
Você é minha inspiração
Quando chega
Quando me olha
Quando se vai
E então eu poeto
O poema brota
Cresce
Eu o rego
E ele mais bonito fica
Então eu o recolho
E o envio para você
Com todo meu amor...
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ATO DE CONTRIÇÃO
Artur da Távola
Ah, como somos comedidos!
Acomodamo-nos, vãos,
nos limites do concebido.
Somos bem educados, cultos,
e ruge tanta fome
nos apetites fora do concedido.
Ah, como somos sob medida!
sub metidos, hirtos, bem vestidos,
robôs impecáveis, ilusão de vida.
Ah, somos como os subvertidos,
introvertida soma de extrovertidos
por pompa, tinta, arroto ou brilhantina.
Filhos do instante, do entanto e do porém,
somos através, como os vidros,
mas opacos e pervertidos, sempre aquém.
Traçamos sinas e abstrações,
terçamos ódio finos, dissuadidos,
lãs de olvido e alucinações.
Sovamos os sidos, os vividos,
somos eiva, disfarce, diluição.
Somos somas a subtrações. |
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CORDEL PARA ARTUR DA TÁVOLA
Gustavo Dourado
Artur da Távola se foi:
O seu exemplo ficou...
Cronista primordial:
Sua arte eternizou...
Foi-se Paulo ao além:
Sua alma transmutou...
Jornalista e político:
Poeta e Senador...
Foi destaque literário:
Consagrado escritor...
Ativista cultural:
Luminoso criador...
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SONETO INASCIDO
Artur da Távola
O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.
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Angela Lara
Ah! grande poeta,
tão cedo partistes
e tão valiosa fora
tua passagem por
este grande mundo
que hoje torna-se
tristemente pequeno
com esta falta de ti!!! |
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RETRATO
Artur da Távola
A dolorosa
e lenta
refeição do velho.
Sopas e papas insepultas
voracidade morta
lassa obrigação de alimentar.
Saliva é cuspe
o cuspe é baba
na dócil refeição do velho.
A lentidão exasperante
de quem come para não morrer
e morrerá porém. Só
A dolorosa
e benta
refeição do velho.
A carne insulta-lhe
a indecisão do dente,
dor e cansaço no deglutir.
Tudo é torpor ou gole
na fome sem sabor
da refeição do velho.
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A ESTRELA DE SEMPRE
Celito Medeiros
Um dia calou-se alguém
Ele se foi, ela apenas a estrela...
Talvez se calasse sem contê-la
Eu abri também minha janela!
Olhei melhor e mais um pouco...
Lá estava Artur, a grande estrela!
Por que dantes não as pode vê-la?
Por que eu agora pude percebê-la?
Um dia será possível eu revê-la!
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AUTISMO
Artur da Távola
O tédio que não revelo
resvala e vala na taquicardia
do sorriso emoliente
em minha ativa participação.
A morte, amiga de infância,
palpita vida na força do meu viver.
Sou segredos, dons, acasos e órfão,
silenciados em músicas e pickles.
Meu menino, a cirurgia, aquele cão, o não,
a morte do pai e minha irmã
moram anônimos
no quarto e sala da alma.
Falo o que calo
sinto o que guardo
sob outro eu igual ao mim
bem melhor, porém.
Mas autista.
O sexo implícito, o tesão abissal,
a gula mamada,
a timidez flatulenta,
jazem no fundo do meu mar.
Escafandro-me, debalde.
Calo constatações,
blasono brilhos
suicido sonhos,
calafrio-me a colher náuseas
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LIMBO/ELANE TOMICH - MANHÃS/ARTUR DA TÁVOLA
PARCERIA
LIMBO
Elane Tomich
Não, lá não tem telefone!
A estrada acaba em reta,
a música é de gramofone,
saída pequena e incerta
onde o adeus se aperta
num silêncio de renome.
Há mais janelas que portas.
Do mundo, imprecisa notícia,
assunto vago, não importa...
Há uma bruma propícia,
que encoberta o passado
trazendo idéias tortas
a um tempo pré-datado.
Não há caixa de correio.
Num espelho emoldurado,
futuro partido ao meio.
Um pouco dele é presente,
o resto é pura vigília
de flores de buganvília.
Ali a mentira não agita
aquilo que à carne grita
num resto de terra aderente
Na casa desta charada
onde sorriu-me o sorriso
um anjo de asa quebrada
sem um pingo de juízo,
conduziu-me em travessia
à chegada da saída,
onde o medo se esvazia!
Não sei se é o que esqueço
dentro da minha saudade!
Algo em mim sabe o endereço
da minha perplexidade
Canta a ave do sono, insone,
a brisa sopra reticente,
desculpe! Esqueci meu nome,
mas acho que era Gente.
&
MANHÃS
Artur da Távola
Manhãs indefinidas,
O Cisne de Tuonela
Vagueia na alma.
O vento está enigmático.
Manhãs sem sol,
Nem definição de vida,
Esparsas lembranças,
Atiçam o burlar deveres.
Manhãs molengas,
Somos todos interioridade,
Lembranças do ignoto
Sem alegria ou tristeza.
Manhãs brumosas
O céu indefinido.
Nenhuma cor predomina
Na alma estapafúrdia.
Manhãs ganhoperdidas
Na falta de vontade
E um torpor com algo de delícia
Pacifica a imposição do poema
Manhãs serenas
Nem preguiça nem ações
Espaço da alma em preparo,
Sem recados, alusões ou deveres.
Manhãs sorrateiras,
O bem e o mal em silêncio.
Uma dor que alivia
O susto de existir.
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"Não me refiro
ao olhar apaixonado. Falo de alguém. Falo do olhar que paralisa o
outro e não se pode desligar. Que se apavora de adivinhar-se
possivelmente feliz e se descobre em profundidade e espanto no
poço do outro, no fundo do qual mora uma certeza nunca antes
confirmada." - Artur da Távola |
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NOSSOS OLHOS NOSSAS LÁGRIMAS
Elio Candido de Oliveira
Nossos olhos, nossas vidas
As lagrimas, que lagrimas
Nascem de nossos olhos
De nosso corações,
De nossa alma.
Que a derramamos por alguém
Pelos sentimentos,
De amor, pela falta, pela distância
Emoção, que temos quando alguém
se vai
A derramamos por alegrias incontidas
Das lagrimas, dos olhos, do coração
a nossa emoção
Nossa alma, nosso espírito as lagrimas
nos alivia
Comove, termina o sufoco, ou desaba
sentimentos.
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"Sentir é não
ter necessidade de explicar o que se está sentindo. É olhar e
perceber. É mais calar do que falar. Ou quando falar, jamais
explicar: apenas afirmar." - Artur da Távola
"Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e
penetrante dos sentimentos. Não importa o tempo, a ausência, os
adiantamentos, a distância, as impossibilidades." - Artur da
Távola |
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UM ADEUS...UMA SAUDADE
Clara da Costa
Melancólica,
assim estava ela
na volta pra casa
depois daquele triste adeus...
Nas ruas, muitos rostos
que não via,
através das lágrimas
que teimavam em cair...
Pára...olha para trás...
Titubeia...quer voltar...
Não volta...vai pra casa.
A mesma casa que ontem
ainda tinha a presença dele...
Hoje, resta seu perfume
ainda nos lençóis onde
vibravam entrelaçados
na penumbra do quarto...
Um adeus,sem volta...
Uma saudade, eterna...
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"Ver, com
coração e olhos livres, o que ou quem nos foi amor, traz
indizível sensação de bem." - Artur da Távola
"Compreender é perdoar por antecipação. Gostar não é apenas
durante, é, sobre tudo, depois." - Artur da Távola |
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ESPERANDO...
ABittar
Era pra partir
Sem dizer adeus
Sem olhar pra trás
E nada mais
Era pra ir
Sem levar nada
Pra não lembrar de nada
Não sentir saudade
Do que ficou
Era pra seguir
Essa longa estrada
Que nunca vai dar em nada
Mas que a gente segue
Sem saber porque
Seguimos em frente
Sem pararmos nunca pra morrer
Era pra ir, mas não fui.
Não parti não segui
Ainda estou na estrada
Esperando quem sabe
O trem que vem
Pra nos buscar
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"É preciso saber dar a devida dimensão
de tudo em vez de ser dimensionado pelo que acontece." - Artur da
Távola |
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LA SOLITUDINE
Sonia Salete
Grito pras estrelas
Até ficar sem ar...
O vento só me traz de volta
O eco do meu próprio falar...!
A distância é o tempo
Que me separa do teu olhar...
Quanto não daria
Para contigo poder estar...
Guardado estás amor
Nas paredes do meu coração
E pra sempre vou cantar
Esta terna emoção!
Nas corredeiras da vida
Num dia cinzento te perdi...
Rolando por entre as pedras,
Nunca mais te vi...
Somente em meu peito
Fica esta difícil saudades
Que arrebenta e estraçalha
Com a minha sanidade!
Mês espaços são vazios
Preste bem atenção:
Só você tem a possibilidade
De encantar meu coração...
Dentro desta distância-solidão!
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"Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e
ao depois." - Artur da Távola
"A grandeza do amor está na impossibilidade de sua
catalogação, cristalização, definição, congelamento em
fórmulas, formas e fôrmas. Ele é tão amplo, misterioso e
profundo que sempre está além de onde o colocamos. Sempre
surpreende. Sempre é mais. É outro. Aparece diferente. Aumenta
na hora de acabar. Diminui na hora de existir. De vez em
quando, coincide. Enfada, se permanece. Assusta, se ameaça
partir. Cansa na constância. Desanima na inconstância. Cresce,
porém na constância. Vive de um estranhamento. Mas é carregado
de afinidade." - Artur da Távola |
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SAUDADE
Ilze Soares
Palavra curta, mas tão intensa,
que só existe na língua portuguesa...
Quando aparece, me faz chorar,
aperta o peito, parece me sufocar.
Saudade...
Quisera nunca a experimentar!
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"Freqüentemente sou compreendido por quem não me conhece e
incompreendido por quem me conhece." - Artur da Távola |
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"QUEM NÃO TE ADIVINHA NÃO TE MERECE"
(*)
Lourdinha Biagioni®
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Muitos são bons de fazer conta. Alguns fazem métrica e rima
com perfeição. Artur da Távola oferecia sábios recados a cada
coração. Colocava música e poesia no viver...
Demonstrava "Afinidade" com os sentimentos. Escrevia para uma
"mulher apaixonada" ou "para a mulher que perdeu seu amor".
Para quem não tem namorado", sobre "amar bonito", sobre "Ser
tímido" e "ser diferente.
É simples abordar um ponto de vista mas importa comentar a
partir de um ponto de visão, o principio de toda compreensão.
Artur da Távola era um mestre neste sentido. Comunicava-se,
assim, de um modo pessoal com o leitor. Parecia saber do peso
da ausência e da leveza do presente.
Compartilhava o valor da espera e da contemplação: "Amor
platônico", "Amor maduro". Da atenção e da aceitação. O
precioso entendimento de que a vida é passagem e encantamento,
do "Saber ser livre" e buscar o 'novo'.
Amava o outono. Apreciava as flores. Sua "Ode aos Gatos é um
tratado de percepção e sensibilidade.
Seu livro "Cada um no meu lugar" traz frases inesquecíveis,
como o autor.
"Há algo que permanece em tudo que se separa. Esse algo é o
que dói, mesmo quando a separação é, ou foi, o melhor
caminho."
Artur da Távola (*) |
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AMOR MADURO
Artur da Távola
O amor maduro não é menor em
intensidade.
Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações: Presenteia com a verdade do
sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as ausências significantes.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da
boca
e do cheiro do outro - está a compreensão antecipada, a
adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do
muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e
criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo. |
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BRANCAS MEMÓRIAS
Samuel C. da Costa
Se não foram árvores...
... que plantei!
Que planta é essa que nasceu?
Em meio ao deserto...
Aonde nada floresce!
Que planta é essa?
Que brotou no fundo da desesperança?
Planta seca!
De plástico!
Sintética!
Inexata!
Como só ela sabe ser!
Que planta é essa?
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CURSO NOTURNO
Artur da Távola
Cansaço e caderno encardido
na luz errada, fio à mostra.
Dorida sala de aula.
Paredes cansadas de palavrão
Bancos melados ouvem
o professor ofegante
que idealiza salários
e um Brasil melhor
no guarda pó amargurado.
Lá fora, a rua é fragor
e antes das dez já deu vontade de trepar.
O pai ferroviário não desconfia
enquanto a mãe
passa a roupa da formatura
desde o primeiro ano.
O texto é difícil.
O tédio desaprende a atenção
e desprepara o saber.
As guerras púnicas são bocejo.
A fome fermentada em azia,
coadjuva o esforço de vir a ser.
Disputas perdidas de antemão
relegam a vida a planos secundários.
Resta o sonho do impossível
e a idealização do turno da manhã
com professores e louras alegres.
Tudo é Natal no turno da manhã.
Um sono e três assaltos
matemática entre fumaça
de ônibus humilhados
e geografia pelos trens da Central.
O desdentado grosseiro coça o saco.
Artistas abundam e desbundam
na capa dos cadernos.
Ninguém fala de Brahms
nem canta hinos a Manuel Bandeira.
O viado da turma já está ferido de morte.
Metade confia na vida e tudo é mérito.
A filha do pastor com medo da menstruação.
A caspa insulta alguns paletós.
Há gosto de sebo no pão dormido
e o espinhento toca bronha com dois dedos
disfarçando pelo bolso furado da calça.
O esforçado troca o direito ao jantar
por arroto de quibe ou pastel.
O rádio berra o rap
e a moça mastiga a goma da desesperança
num chiclete sem fim |
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POETA SUPREMO
Marga Carvalho
Tu és Poeta supremo,
Dentre todos o Maior!
Criador da Poesia.
Tua criação é dela
a expressão exata,
Ela é Tua parceira inata.
Tu sonhaste Tua obra
Com tintas multicor,
Ao dar vida ao Teu sonho
O fizeste com esplendor!
Observando Teu mundo
Posso Te contemplar
Te ver, Te sentir, Te tocar.
Teu amor me absorve,
Posso até flutuar!
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"O amor é
só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão,
racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom pode
durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.
O amor é grande, mas não são dois. Tem que saber se aquele
amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso
convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que
carrega o ônus da onipotência.
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.
Um bom Amor aos que já têm! Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!" - Artur da Távola |
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OUTRO ENREDO!
Theca Angel
Um perfume no ar
O brilho do luar
E acodem as lembranças!
Não existe saudade,
resta incólume a esperança.
Não tem jeito!
Queria levar comigo,
o que ainda restava,
do amores que foram tão bonitos...
Só não conseguia deixar,
que o tropel das imagens,
batessem fundo no peito!
Há uma incrível verdade
em todo caso perfeito,
aberto ou em segredo,
ele fala mais alto!
Agora vou, mais eu volto
e não carrego na alma
nenhuma inverdade...
Deixo nela o lugar
a preencher devagar
pela felicidade!
Não bato mais a porta,
acertarei a minha rota.
Não me desvio dos espinhos!
Sei que farei o impossível,
sei que farei minha parte,
deixando sempre a cada passo
minha marca
da forma mais acertada...
Por mais que tentem fingir
por mais que tentem não querer
por mais que tentem esquecer
sentirão que por aqui,
eu passei!
Nas minhas mãos transporto
amor, carinho,esperança,
tantos receios, incertezas,
minhas ilusões inteiras.
Um álbum preenchido
por infindáveis lembranças.
Eu não tenho mais medo!
Este é meu enredo!
Vivências, paixões,
loucuras, desejos,
ternuras e doçuras,
sonhos sem fim ...
Sigo então assim,
transbordando de meu coração
a infinita beleza da verdade...
Nada eu ainda perdi.
Há um horizonte em meu olhar.
Em meu peito habita
um coração que quer pulsar
Dou o passo adiante
Para não mais me voltar
para não mais retornar
ao mesmo lugar.
Persigo o fugidio desejo
de me superar...
Não tem mesmo jeito
este momento é o melhor
que qualquer outro enredo!
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RESPOSTA À SUA CARTA
(Crônica de Artur da Távola)
A você que me escreveu na suposição de que sou melhor do que
sou porque escrevo textos com os quais tem afinidade profunda,
desejo dizer-lhe o seguinte:
Não exija muito de mim. Nem me creia melhor do que sou.
Conhecer é "desilusionar" (embora possa ser, também, perdoar).
Por enquanto (e talvez para sempre), sou apenas um garimpeiro
do Absoluto. Não me peça para definir.
Nem pergunte por que o escrevo com letra maiúscula. Quer a
verdade? É por medo. Já sentiu medo e esperança ao mesmo
tempo?
A gente tem mais medo (e mais esperança) daquilo que não
conhece.
No fundo, é porque mais se teme a própria fantasia do que a
realidade.
Esta, a gente enfrenta, a realidade. Já a fantasia, o
imaginário, enquanto perduram, assustam muito.
A vida é um grande garimpo feito brincadeira pelo homem sério.
Garimpamos a terra em busca da verdade do homem. A da Justiça.
Garimpamos o Absoluto em busca do ouro da Verdade. Desta, só
nos foi dado ter intuições, percepções, lampejos. A Verdade é
a Infinitude. Porque a Infinitude é a Perfeição. Já nossa
mente é finita como a vida, logo imperfeita.
A vida não é a Verdade. É mero espaço de tempo inserido entre
Ela. Que está antes e depois. É flash que espocou no meio da
Verdade e fulgura por breve tempo. A Verdade está no antes e
no depois da vida. Durante esta, a Verdade aparece, existe,
pode até salvar os homens: mas como o ouro do garimpo, sempre
em pedaços.
O jeito é garimpar. Quem lhe pode garantir que a Verdade não
nasça da trama íntima de nossos erros e os da própria
natureza?
Não exija muito de mim.
Não jogue na minha cara as verdades do mundo. Estas eu sei. E
o que doem, embora continuem encantando a minha esperança.
Não cobre do garimpeiro o ouro. Cobre-lhe a procura. A honesta
procura. Por mais que saiba e por melhor que seja, o homem é
apenas um garimpeiro e esperança de poucas respostas. |
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AO MESTRE ARTUR DA TÁVOLA
Marisa Cajado
Cai a tarde
Já vai indo
Leva talvez a dor
De um coração incompreendido.
Lutou tanto pelo nosso mundo,
Para acordar o coração adormecido.
De quantos vagam, como moribundo
Sem o remédio para o ser ferido.
Perde a Terra o amigo querido.
Perdem os amigos, um Mestre condutor.
Perde a mídia, um homem destemido
A informar, formar, com sabedoria e amor.
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"Qualquer
pessoa vacila diante da carga de responsabilidade implícita no ato
de ser livre." - Artur da Távola |
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TRISTEZA
Maria Thereza Neves
fotografei um sonho
seco de palavras
engolindo saudades
vidraças embaçadas, inundadas
acordei no tapete da melodia
o dia chovia na poesia
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PAPO DISPERSIVO SOBRE A PAIXÃO
(Crônica de Artur da Távola)
As pessoas amam bem mais a expectativa do amor possível, que o
amor propriamente dito. Daí a intensidade dos impulsos bloqueados,
os que estão impedidos de expansão e movimento na direção do
objeto amado.
Os "grandes amores" da literatura são grandes, não por serem
amores, mas por serem impossíveis.
Já os grandes amores da vida real só quem sente é que sabe. A
impossibilidade de dimensionar um impulso afetivo carrega de
energia a fantasia. E esta se encarrega de dar dimensão ao que o
exercício da relação, talvez, tirasse.
Na paixão impossível só estão as projeções do que idealizamos,
pretendemos ou não conseguimos viver em nosso cotidiano. Daí ser
fácil entender sua força, sua obsessiva presença na cabeça dos
enamorados.
É por isso, aliás, que só é musa quem é inatingível.
Case-se com a sua musa e acordará com uma jararaca...
Case-se com quem ama e será feliz.
Quer se ver livre de uma paixão colossal? Vá viver com a pessoa
objeto da paixão (observem, por favor, que não estou usando a
palavra amor). Aliás, já está nos clássicos e, mesmo, antes
destes, nos antigos: "A conquista enobrece e a posse avilta". Ou,
como dizia Goethe: "Nas batalhas da paixão, ganha aquele que
foge".
Quantas vezes as relações humanas terminam ou se interrompem sem
terem esgotado o potencial de possibilidades adivinhadas,
intuídas, sentidas. Aí, o que não se esgotou clama por vir à tona
e, muitas vezes, ameaça ocupar (e às vezes ocupa, efetivamente)
todo o "ego".
Não é por outra razão que o apaixonado é o maior dos egoístas.
Ao dedicar tudo ao objeto da paixão, está é alimentando a própria
necessidade, seja de sofrimento, de idealização, de felicidade ou
fantasia.
Entupido de impossibilidades, ele clama. E a isso muitos chamam
amor.
Mas amor é coisa muito diversa...
Amor não clama nem reclama: amor dá. |
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Edição: Maria Thereza
Neves
Música: Black Rose (parte)
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