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BONECOS DE PANO
Delasnieve Dapet
Eis-me, de novo, matutando sobre a vida...
Vejo tanta banalidade:
Se desdobram para ver qual o pior,
O governo, políticos, povo, sociedade.
De repente é como se nada valesse a pena.
Questiono se a própria vida
Vale algo?
São tantos os desmandos que
Acho que nada vale absolutamente nada!
O homem estendido no chão, ensangüentado,
a árvore cortada pela raiz,
dobrados em si,
como bonecos de pano,
me dá a exata noção da nossa precariedade!
Uma bala perdida;
Um carro desgovernado;
Adolescentes bêbados;
Governo sem rota, sem prumo;
Ladrões saindo pela ladrão...
Corram.... a policia vem chegando!
Fatos assim
Nos mostram no dia a dia
A nossa não serventia.
E como bonecos de pano,
somos jogados, ceifados,
quando alguém supõe que já não servimos.
A nossa revelia nascemos.
Não temos escolha.
Num momento supremos somos gerados,
crescemos e morremos como árvores
que tombam cortadas, jogadas, queimadas.
Eis-nos no limbo, ao léu.
No céu aberto em exíguo espaço
Reclamando nossos momentos tão curtos,
Que acabam em espasmos,
No surdo barulho da morte...
Descartados sem o menor cuidado,
Sem piedade,
Sem ninguém,
Amassado, amorfo...
Morto - já não vota nem escolhe,
Pobre humano!

O AMOR DO NOSSO DIA...
Adelmario Sampaio
do céu de amores mais belos
meu dia traz esse anelo
da vida vivida no instante
de paz do instante que quero
teu dia traz o sorriso
que invade meu dia de luz
eterno momento de vida
que vida à vida seduz
teu dia é mesmo meu dia
fecundo começo de glória
eterno de amor que germina
mais vida pra vida da história

DANÇA DO UNIVERSO EM
PRECE...
Adriana Luz Ruella
Se você não pode dançar com o corpo
Dance com o espírito...
Dance com a alma...
Dance com os olhos...
Dance com os pensamentos...
Porque dançar é celebrar a vida...
E celebrar a vida é a melhor forma de prece...
Prece em agradecimento por aqui estar
Por daqui fazer parte...
Parte do Todo
do Universo
que é Único
e que se transforma em partes
Para estar aqui e ali...
Inclusive em mim
que sou partícula
e estou em você...
...que está no Todo
do Universo
que é único...
Dance comigo...
Em pensamento
Em alma
Em espírito...
Agora
Ou no momento que desejar...
Mas dance...
Porque eu estou dançando por...
E com você
Que está em meu coração...
E no meu Todo...
Que é meu Universo...
E que é Único
em mim....
Que faço parte do Todo...
Assim como você...
Amém...

SÓ POR HOJE
Aldo Cordeiro
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Hoje, não
quero ler nada sobre a Espanha. Não quero. Não preciso que
ninguém me diga que o nosso tempo tem um pé na sombra da
história, que no coração dos seres humanos cabem o amor e a
bondade e o ódio e toda maldade que se possa imaginar. Diga
que é mentira que somos piores que os demais animais. Ou, pra
não ser tão severo, que existem seres humanos onde cabe o
inferno em seu alma, enquanto outros acreditam na paz e na
verdade.
Não quero saber quem colocou as bombas. Que interesses e
sentimentos construíram o plano. Não me digam que isso lembra
Hiroxima, o Vietnam, as crianças do Iraque, as torres de Nova
Iorque, as atrocidades contra judeus na Segunda Guerra, os
massacres de soldados israelenses contra os palestinos, a
barbaridade do colonialismo que jogou a África num buraco sem
fim, o massacre dos índios de todos os continentes, os homens
e mulheres que se explodem contra civis, os muros de ontem e
de hoje, a insanidade, o medo, o desamor, a desesperança.
Não quero ajudar a Imprensa a vender mais porque publica as
melhores fotos da nova barbárie, nem quero ver (re) eleitos os
militaristas de hoje, com promessas de vencer o mal, como se
suas armas e sua arrogância fossem o bem, não quero ouvir
fundamentalistas afirmando suas verdades obtusas.
Estou cansado de ler sobre as trevas. Hoje, prefiro a
alienação de uma flor, o canto de um pássaro, a doçura de uma
melodia tocando baixinho, enquanto eu tento dormir.
Só por hoje, prefiro não ler nada. Quero apenas sonhar. No
mundo dos meus sonhos não se fabricam armas, não se destroem
sonhos, não se planta o medo, não se cultiva o ódio.
No mundo dos meus sonhos, a única guerra possível é do meu
time de futebol ganhando do seu. E nós dois saindo juntos do
Estádio, sem rancores, brincando e tentando adivinhar o
próximo jogo, andando pelas ruas, sem medo, seguindo o curso
de nossas vidas, sem medo do futuro...sem vergonha do
presente. |

CELEBRAÇÃO I
Angela Lara
Vim pra celebrar esta morte
que me ronda diariamente.
Seja bem vinda, já que a sorte,
não passou de um breve instante...
Vim pra celebrar esta dor
que insiste em me acompanhar.
Já não me doem as feridas,
elas estão, aonde devem ficar...
Vim pra celebrar o engano
das tentativas inúteis de felicidade.
Me despeço... hoje, dos sonhos
das paixões e das vaidades...

RISO
Ângela Maria Crespo
Rio do presente que sempre me é imposto.
Rio dos males que não tenho como esconder,
Rio do bem que quase ninguém sabe o composto
Rio de quem tira da dor seu maior prazer.
Rio do riso sem gosto, sem qualquer virtude,
Rio do exagero que nos confunde a vida.
Rio do amor que é o que mais ilude.
Rio de tudo que nos compele a lida.
Mas não pensem que me sinto satisfeita,
Pois tudo me deixa inerte e contrafeita,
Será que nesta vida nenhum bem esta por vir?
No meu coração quase não existe ternura,
Tudo que passo sempre me traz tortura,
Pelo esforço imenso que faço para rir.

FRAGMENTOS DE UM POETA
Arlete Maria
Aporta na alma a indefinição poética
escrever o amor?
escrever a dor?
dois sentimentos pareados,
perambulantes no coração amado...
nos olhos bailam passado,
as mãos escrevem o presente
que o futuro pressente...
o sorriso desenhado
nos lábios carnudos
escondem os fragmentos de vida
em letras manuscrita
em tela manchada...

EU SEMPRE PISO NA MERDA
assis
Uma linha pode terminar
Uma amizade
Ou um amor
Quando a porta esta aberta
(O poema)
Algo nos faz lembrar
Outra pessoa
Então falamos com o coração
Coisas que parecem absurdas
Que confundem a alma
Sem querer
A vida é assim
Por detrás de um abraço
De um beijo ardente
Os olhos podem esconder
Uma grande magoa
É desta ausência
Que tudo se passa
(A poesia)

MUNDO ROTO
by Baby®
De repente nos vem a vontade de blasfemar
Maldizer o amor e a própria vida...
A vontade de lutar por uma participação
Que seja com a poesia, com a canção,
Ou até mesmo com palavras de revolta...
De repente se compreende
Que a dor é da maioria,
De uma coletividade
Cobertos com suas mantas luxuosas
Estão os donos da sociedade...
De fora, se perdem, gritos de protestos
De fome, e até mesmo de perdão.
Existem seres humanos inúteis, amores inúteis,
vidas inúteis...
A tristeza é uma simples companheira
No fundo do abismo...
A beleza se foi há muito,
Para dar lugar à inveja e ao ódio.
E como e porque se preocupar
Com a criação e a beleza,
Se o que se vê é a guerra,
A miséria e a fome?
A vontade de falar, cantar, gritar,
Continua e continuará,
Enquanto houver correntes aprisionando o mundo,
Homens que anseiam por liberdade e igualdade,
Jovens se perdendo em ilusões doces e vulgares...
Na noite, a mentira sai a passear errante pelo mundo,
Evitando onde choram homens-poeta e crianças,
Por mil momentos saudosos, de mil sonhos desfeitos,
De mil ilusões mutiladas...
E aí nasce a verdade, cruel e tardia,
Mas necessária.
O mundo nunca perdoa os fracos,
É preciso saber fingir também com os olhos,
Dar com u'a mão e roubar com a outra...
É abrigar no coração,
Desejos e sonhos de vingança,
Ilusões precárias e desfeitas,
Ausência de esperança de dias melhores,
Da paz tão ansiosamente esperada...

DELÍRIOS POÉTICOS
Belvedere
Havia um quê
na história
que nunca consegui
decifrar.
Um tanto de lenda,
um tanto de mito,
aquela mania
de misturar
o real e o imaginário....
No final
consegui apenas
salvar as borboletas,
que levemente
voavam sobre
minha cabeça...
Não me peçam
coerência
nessas questões...
Sou poeta!

POESIA NOSSA DE TODOS OS
DIAS
Carvalho Branco
Poesia nossa que estás na alma
de cada ser, mesmo em botão...
Bendita sejas, pois trazes calma
ao corpo, mente e coração...
Dir-me-ás, tu, transloucada amiga,
que o coração do corpo é parte;
responder-te, espero que consiga,
com tal pergunta, não com arte:
Onde reside tua emoção?
Na cabeça, no tronco ou membros?
Dirás, então, "No coração!"
Busco lembranças, meus relembros
e já aflita, contendo a ânsia,
volto ao passado, retorno ao ontem,
chegando aos dias de minha infância...
Em meu pensar, que se defrontem,
ao sabor do vento, hoje e outrora:
raios de sol se pondo, som plangente...
raios de sol, nascendo a aurora!...
Vejo-me eu, lápis da mão pendente,
a escrever na lousa ou no papel...
a reinventar histórias... fantasia...
fadas, duendes, Rapunzel!
A rabiscar meus versos... poesia!...
Aos borbotões, da profundeza
de meu ser, jorra-me a palavra
em profusão: rio... correnteza...
só idéias de minha lavra...
só para matar a sede e a fome
do escrever: dizer e contar...
sendo que a tudo isso se some
a grã vontade de versejar...
Se as praças são do nosso povo
assim como os céus são do condor,
com tal constatação eu me comovo:
é meu e teu todo e qualquer dia,
com fé, esperança, paz e amor,
porque todos os dias são de poesia!...

RENASCER
Cláudia Azevedo
Existem ainda muitos passos
Tantos caminhos por que passar
Tantos rabiscos, esboços e traços
Obras iniciadas para findar
Existem ainda amanheceres
Que tranqüilos esperam por meu olhar
Há tantas cores e infinitos prazeres
Há flores no chão e pássaros no ar
Existem ainda tantas fronteiras
À minha espera nada é tão certo
Há tantas pontes, muros, ladeiras
E um lindo horizonte após o deserto
Existe algo maior e muito mais forte
Pulsa e me impele a força da vida
A cada manhã renasce minha sorte
E cresce a esperança outrora perdida!

EXISTÊNCIA
Cleusa Bechelani
Ajude-me a exercer a não resistência.
Entrego a ti os pincéis
Entrego a ti a tela
Entrego a ti as pétalas
do meu sorriso
Entrego a ti a água de minhas lágrimas
Existência
Permita que eu exerça o entendimento
com o meu coração
Ajude-me a exercer a lei do perdão
Existência
Me entrego a ti
Acolhe-me
Colhe minhas flores
Deixe florescer cada vez mais
Existência
Permita-me estar sob a lei da graça,
do amor, da luz e da verdade absoluta.
EU SOU UM PORTA FECHADA AO MAL
EU SOU UMA PORTA ABERTA AO AMOR

SEM PRECONCEITO....
Dayse Maria Moraes.
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Nasci branca.
Certa porém, de que lá entre os meus antepassados, um bom e
forte tom negro deve ter tinturado e misturado-se pelos galhos
de minha árvore genealógica, justificando talvez, uma certa
bravura do meu sangue, em determinados momentos circulatórios
do cotidiano.
Desde menina, apreciei a leitura, os estudos e a história mais
tarde, como a referência cabal de toda a humanidade...
E, nesta existência firme de mulher questionadora, detive na
consciência, por vezes até de forma cênica e teatral, a
interpretação dos fatos históricos numa correlação direta com
o meu dia a dia e conseqüente atualidade.
Acompanhei entre escritos nos livros, notícias em jornais e
revistas, noticiários na mídia, recentes e passadas, toda a
odisséia de lutas travadas pelos Negros face aos preconceitos
e atitudes discrimitanórias sofridas, altamente e
aviltantemente no passado, praticados pela sociedade
escravagista, e que perduraram e ainda perduram no presente,
nas sombras da sociedade, mesmo depois da Lei Áurea.
Muitas lutas raciais, Líderes,idosos e crianças...dor e
desrespeito...
Quero deter-me aqui neste texto, especificamente ao
preconceito racial, entre Negros e Brancos, que diminui
qualquer homem aos olhos de Deus, independentemente da sua
cor.
Das lutas vieram as conquistas, o novo século, a evolução, e
hoje, depois do acúmulo de tantas vitórias, eu sinto um certo
pudor por ter defendido ferozmente qualquer luta contra o
preconceito racial no Brasil ...
O Negro conquistou o seu espaço na sociedade brasileira.
Respeito e dignidade. Justiça, quando leis foram criadas para
coibir e punir o racismo. Artigos e suas prescrições,
penalidades...digamos assim inafiançáveis...
E agora, surpreendo-me ao ver que este mesmo Negro forte e
lutador, aceita, nos moldes desta mesma sociedade que por
tanto tempo o oprimiu, o tornou omisso, insignificante, o
valoroso "prêmio" de ter vagas reservadas em Concursos e
Universidades Públicos vagas somente para os
negros...Procedimento idêntico concedido aos deficientes com
toda justiça, porque estes com certeza, sofrem pelas
dificuldades enfrentadas nas ações mais simples, devido às
suas deficiências. Comparativamente, a cor da pele é então um
fator de deficiência?
O Ser Negro...
Um ser forte e lutador...
Aceitar esta situação é assumir o racismo como uma realidade
nacional...
Publicamente assumir que somos uma Nação de preconceituosos, e
jogar no lixo a dignidade, e anos e anos de luta e bravura...
A diferença do Negro é somente na pele...
Ele é um homem ou mulher tão capaz quanto qualquer outro, tem
seu lugar na vida e na sociedade conquistado pelo direito mais
simples, aquele que é dado pela mera condição humana, não
precisando portanto de qualquer regalia.
Tem condições intelectuais para disputar qualquer cargo e
qualquer posição no mesmo nível e com os mesmos
conhecimentos...
Não voltemos ao passado Negros e Brancos...
Assumir Nacionalmente o Preconceito racial , numa atitude
dissimulada e culturalmente pobre, em pleno século XXI, às
portas de um novo Milênio é uma vergonha...
***********************
Negro onde está a tua honra?
Negro, onde está a tua honra?
Se te agride o preconceito,
me responde, se é direito,
o paternalismo que te aponta?
A justiça te ampara,
no limite dos artigos,
se o racismo é o perigo,
quando ao branco desmascara.
Tantos tempos vens lutando,
desde a antiga escravidão,
quando o branco sem razão,
tua vida foi tomando.
Conquistastes tantos feitos,
uma honrada posição.
É agora é a oposição,
que te aponta com defeitos?
Se o preconceito te fere,
por que aceitas regalias?
Mostre força e vença os dias,
diferenças... só na pele... |

JANELAS DA ALMA
Débora Cristina Denadai
As portas do coração fechadas.
É preciso abrir as janelas da alma,
é preciso trazer a alma lavada,
buscar no azul a tranqüilidade e a calma
que o coração, fechado, tirou.
Abrir as janelas da alma,
avistar a estrada que se abre adiante,
olhar para a vida com os olhos da alma,
deixar um pouco de lado o coração amante.
Abrir as janelas da alma
para que não nos pereça o ânimo, a alegria...
Abrir as janelas da alma
deixar entrar a vida que se pensou perdida um dia.
Abrir as janelas da alma,
reler com olhos novos os livros antigos.
Abrir as janelas da alma,
rever com olhos novos os velhos amigos.
Abrir as janelas da alma
para não achar que a dor é exclusividade nossa,
ter olhos para enxergar além da dor,
além da decepção, a leveza que, quem sabe, possa
abrir a estrada em direção à paz.
Abrir as janelas da alma,
lavar os olhos com gratidão,
limpar a poeira do passado com calma,
sem peso, sem culpa, sem ansiedade.
Saber que nada sabemos,
que o que somos é só o que temos.
Abrir as janelas da alma
e libertar o coração.

ATLAS
Dreyf
hoje, sobre os ombros,
pesam-me, o dia inteiro,
todos os anos vividos.

SOBRE POESIA
Elane Tomich
__?!
__...acontece,
que o ar em torno
de mim é fluida poesia
que respiro e entorno.
Pois que respiro a prece
total, energia
da palavra que sentencia
meu ardor , minha vontade
de uma saudade
que não houve,
de um querer
que não me coube.
Meu sonho sonoro
escorre e resvala
em semitonado coro
pelas faltas e valas
do desejo oscilante,
frases vacilantes
de não ditas falas.
Ah! As oscilações da alma!
Ah! O suplício que acalma,
no doce engano
de tudo querer dizer
da vida e ser...
...ai... Num só plano!...

S.O.S.POUPÉES
Eliza Teixeira de Andrade
Localizada à rue de Rivoli,
Naturalmente em Paris,
Clínica conceituada
Que restaura bonecas
Das guerras resgatadas.
Falava o anúncio:
"Quanto maior a extensão
"Da sua mutilação,
"Maior o nosso desafio
"E a sua satisfação.
"Também obtemos
"Resultados excelentes
"Com as bonecas vindas
"De países mais distantes..."
Que jaziam esquecidas
Ao lado das suas donas,
Mortas noutros tipos de guerra:
A guerra do frio
A guerra da fome
A guerra das drogas
A guerra do medo
Que geram o conflito:
Viver ou morrer?
E o anúncio continua:
"À guisa de advertência,
"Informamos, outrossim,
"Que refazemos troncos
"Braços, pernas e joelhos
"E pintamos suas faces descoradas
"Com Carmim.
"Recolocamos lindos cabelos
"Pretos, amarelos vermelhos,
"Dentes e olhos perfeitos.
"Redesenhamos seus lábios,
"Mas - ninguém vai reparar!
"Não conseguimos retirar
"Das suas fisionomias
"O aparvalhado olhar
"E a recusa em sorrir..."

ÔNIBUS LOTADO
Eustáquio Braga (THACKYN)
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Sinto-me como
um ônibus lotado cheio de passageiros e com destino, mas é
incerta a chegada. Tenho o itinerário gravado. O roteiro
traçado e as paradas planejadas. Todavia, os acidentes de
percurso são uma constante. Mudam-se a cada instante. A
rotatividade é grande. Entra gente e sai gente. Sobe e desce
paga e recebe. Sou também o trocador. Fico na roleta na
espreita. O vale transporte é bem mais prático. Entra dinheiro
e falta troco. O calor é infernal e até vivemos um inferno
astral, mas tudo é natural nesse mundo irreal. Sobe um homem
claro de cabelos longos cacheados. Ela olha de relance. Tua
visão estava no raio de alcance. E no ritmo do balanço do
carro foi inevitável um esbarro. Corpos se tocam vejo nos
olhares inibidos dos dois. Naquele momento tentam se
disfarçar, mas é natural em ônibus se esbarrar. Todavia, as
coisas começam a esquentar. Vejo o toque sutil daquele jovem
febril, ela talvez tenha retribuído sem pensar ou sentir. Ele
se aproxima para mais perto. Acho que já estava nervoso. Creio
que o amasso estava gostoso. Não pude perceber se ela gostava
ou recriminava. Também dali não se afastava. Ele esperto se
findou ereto. Ela se pôs em corpo reto. Deixaram apenas o
ônibus balançar e mexer pelos dois. No relar sem se
comprometer não convém intrometer. Mesmo porque alguém
primeiro terá que descer e, ambas irão se despedir sem nenhuma
palavra trocar, apenas o desejo ficará. A excitação estará no
ar e não se pode atenuar, esta louca vontade de transar. Mas o
que vale é a imaginação esse fetiche de lotação. Tal qual
roteiro de Nelson Rodrigues. São inúmeros casos e contos de
amor e desejo que são desejados, mesmo que desajeitados em um
simples ônibus lotado. Para alguns assédio, mas para outros
taras e "voierismo" se é que tal palavra existe ou cabe nessa
situação. São coisas que acontecem em lotação. O prazer dos
corpos não escolhe cara, nessas horas ou minutos de tara. Vejo
homens e mulheres que se deliciam, outras ficam encabuladas,
outras talvez se sintam ultrajadas. Porém, tudo acontece
quando as vezes falta espaço. Em outras ocasiões pessoas
doentes saem à procura, nesse tipo de coisa talvez obscura.
Creio que existam também mulheres que tenham tal fetiche, pois
não somente o homem seja um animal carnal. Acho que somos
todos e passivos e erros ou desvio de conduta. Para o
analistas talvez seja um distúrbio sexual. Voltando para o
ônibus cheio que me sinto. E, isto não tem nada a ver com essa
estória. Digo que me sinto de tal forma devido à pressão no
trabalho e nas lutas. O relógio já não marca as horas que
necessito. Estou à procura de abrigo ou talvez de descanso. E
assim não consigo trabalhar, apenas fazer contos. E segue o
ônibus lotado de minha vida sem destino e vários
itinerários... |

CIDADES E PESSOAS
Fatima Dannemann©
O quanto você conhece uma cidade?
O quanto você conhece uma pessoa?
Ninguém conhece uma cidade
apenas por seus pontos turísticos.
Ninguém conhece ninguém
apenas com roupas de festas.
Despida a maquiagem, a cidade se abre para seus becos.
Quando troca a roupa de festa, a pessoa mostra suas imperfeições.
Uma cidade se conhece por seus becos.
Um ser humano se conhece por seus segredos.
Quando ele e a cidade despem as máscaras.
Quando um lenço de papel retira a maquiagem
e revela a verdadeira face. Os becos.
Becos humanos são furos na alma.
Mas a alma da cidade está nos becos.
Ah, e nas feiras.
E seres humanos por suas roupas diárias.
Ah, e por seu estômago.
Feiras e mesas revelam gostos, e traem os rostos.
Gulosos não escondem defeitos...
No canto da boca, a baba que escorre,
No meio do rosto, olhos que brilham de desejo.
E em meio a festa, seres humanos mostram segredos.
O sangue que corre nas veias esconde-se por traz dos vestidos,
do terno e gravata, do sapato de salto Luiz quinze.
E os becos??? Os becos são as veias da cidade.
Veias da alma. Lá está o lado que as roupas de festas
escondem. Provisoriamente.
O quanto você conhece de sua cidade?
O quanto você conhece de seus amigos?
O quanto você conhece de você mesmo?
Quais são seus becos, seus medos, seus defeitos, suas manias???

O ENIGMA DA PALAVRA
©Fernanda Guimarães
A palavra em mim é quase sempre
Um mistério de olhares e silêncios.
Por mais que a aflição das minhas mãos
Tirem-na do exílio ou façam-na alada,
Há um hiato que a transcende.
A minha palavra é muitas vezes
Um estar só, um desabitar-me,
Um discurso impronunciável de emoções e segredos.
Como explicar a intenção da curva de cada letra,
Enquanto florescem inconscientes desejos
Que se encobrem nos véus dos meus dedos?
A palavra em mim está além do expresso
Da pretensa linha reta do dizível
Ou da rasura proposital da razão,
Quando sangra a página em branco.
É que em mim, há a palavra intocada, inacabada
Pulsando viva na tessitura de minhas mãos
Em suores de uma permanente ausência
Suspirando em calafrios, uma saudade, uma falta.
E tanto a busco, em seus imprevistos códigos
Percorrendo os abismos do seu desvendar
Que vou me conjugando em inquietudes
Refletindo-me no espelho da escrita.

MULTIDÃO
Francisco Libânio
Todos os olhos estão perdidos. Se há amor
Ele está densamente ocupado com o dia-a-dia
Se há medo, ele está a flor da pele e se arma
Se há fantasias, elas estão escondidas e mortas
Se há razão, ela morre no primeiro não
Se há tensão, ela pode eclodir no primeiro olhar
E eu, com meu pensar, meu amor e minha dúvida
Fico sem saber se a multidão me acusa,
Se ela me absolve ou se ela me protege
Embora tenha a certeza quase absoluta
De que ela me ignora de forma solene
Tal qual eu também lhe dou as costas

E AGORA, MARIA?
Gustavo Dourado
E agora, Maria?
Acabou a festa,
A bolsa caiu,
Apagaram-se as luzes...
Esquentou a Poesia...
Depois esfriou
O povo sofreu
De bolso vazio...
E agora, Maria?
Onde anda você?
És inominável?
Musa que zomba,
Que vê a novela,
Que dança e samba...
Que des.faz o ver.só,
Protesta, declama
Ama e reclama...
Clama por amor...
Você onde anda?
Maria, e agora?
Está sem carro
Perdeu o concurso
Não veio o consórcio
O sócio sumiu,
O táxi atrasou
Perdeu o juízo
Dói o dente siso
E tudo parou...
Já não pode andar
Não há mais sorriso,
O bicho pegou...
Nada aconteceu
A vida passou,
O tempo correu,
O sonho desveio
Virou pesadelo...
E agora?
Quer parar de fumar,
Sorver a cerveja,
Água de beber
Ver a natureza...
Quer sobreviver
Ao caos e a dor...
Veio a tempestade,
E tudo morreu
E tudo acabou...
E agora, Maria?
Maria, e agora?
A palavra indócil,
Desejo febril,
O eco do fuzil,
A bala perdida,
O jogo de azar,
O azar no jogo,
O cheque sem fundo,
O jugo, o logro,
O juro, o lucro
O desfalque no erário
O lote invadido,
O empréstimo bancário,
O imposto de renda,
A contravenção,
O vil peculato,
A corrupção,
Seqüestro - relâmpago
O medo, o pavor...
O descontentamento,
A desilusão
A promessa vã
E agora, Maria...?
O cartão de(s)crédito,
Nota promissória,
Medida provisória,
O livro de ouro,
O bingo, a sorte...
A morte do amor...
E agora, Maria?
A fome que assola
Criança sem escola,
O homem sem-terra,
Sem-teto, na esmola...
E agora?
Juro sobre juro,
Ágio, extorsão,
Água poluída,
A conta vencida...
O computadoido,
Internet, ilusão...
Seu sonho - e agora?
Virou devaneio
O mar que não veio
E agora, Maria?
Quer abrir a porta,
Não há chave,
A chave sumiu...
Quer ir par a Marte?
Só há deusa morte...
Quer rever o mar,
O mar soçobrou...
Maria, e agora?
Pare...Pense...
Reflita - Dance,
Grite, gema,
Durma, Sonhe,
Acorda Maria...
Resista....
Você não desiste...
Maria, você é forte...
E agora, Maria?
Num canto do muro,
Sozinha, no escuro,
Sem cosmogonia...
Feito bicho-grilo,
Fugindo a galope...
És bicho - do - mato,
Na grande cidade,
Na alma , a saudade...
Para onde ir?
Maria , e agora?
E agora , Maria ?
O que queres de mim?

ela era jovem
e
era
margarida
ela se deu
a seu homem
ela era
margarida
ela era professora
cozinheira
pajem babá e mãe
ela era
margarida
em sendo obreira
ela era
margarida
entre abelhas centro mel
alimentava as crias
ela era aguerrida
sendo apenas
margarida
uma flor simplicidade
repetindo-se
re-florescia brancos
tal qual mandala viva
não mais jovem
cabelos brancos
fazia acontecer e acontecia
ainda
Margarida
========
helena armond
Março 14---15---ou 16
com certeza 04

POESIAS NOSSAS DE CADA DIA
Iracema Zanetti
Poesia brota na alma do poeta,
como nascentes de um caudaloso rio.
Brota a cada respirar,
a cada batida de seu coração,
ao sentir o perfume das flores,
ao gorjear dos pássaros,
ao cantar das fontes,
ao sonido do mar,
Poeta faz poesia, ao amanhecer
antes de o sol nascer!
Poeta faz poesia,
ao sol se pôr,
ao surgir da noite,
da lua e das estrelas!
Poeta ama declamar poemas
à sua musa,
sob às águas das cachoeiras ou mesmo
ao olhar um simples riozinho
que se torna importante
ao sentir o deslizar de suas águas,
em curso tão pequeno!
Agradecido, e choroso,
pelo presente recebido
das mãos da natureza!
Poeta adora beijar à amada musa
a qualquer hora,
mas sempre arruma
um motivo, para que isso aconteça!
Sorri, e a beija, ao ver uma
criança dormindo, rindo, brincando
ou fazendo manha!
Poeta declama poesias ao fazer amor
e as retém na memória,
para mais tarde
rabiscá-las em qualquer papel
que surgir à sua frente,
oferecendo-as à sua amada
que vibra emocionadamente!
O coração e a alma do poeta,
sente brotar poesias em ínfimos detalhes
que somente sua alma vêem!
Poeta que é poeta,
jamais escreverá um poema
através de pensamentos.
Poeta não pensa,
vive o momento!
Seus olhos brilham de emoção
ante à grandiosidade da vida,
e da natureza, ao senti-las
como um todo em seu corpo,
no ar que respira,
e no sangue que corre em suas veias!!!!

CHORA ALMA
Janete Cerqueira
Hoje farei os versos mais tristes...
Deixarei minha alma chorar
Deixarei o sangue da dor rolar
Chora alma
na luminosidade do dia
na escuridão da noite sem lua
Que minha alma chore
Que inunde o mundo
que meu sofrer é urgência
de quem já se foi
O tempo é de cuidados
É tempo de chorar
e sobretudo de vigília
O inimigo esta solto e se disfarça
mas como usa botas,
fica fácil
distinguir-lhe o tacão grosso
e lustroso
que pisa as forças claras da verdade,
e esmaga os verdes que dão vida ao chão.
O tempo é de mentira.
A sombra já desceu
Me protejo da violência
que amarra a liberdade
Em pleno vôo
escondo a rosa
espanto a mariposa colorida
É perigosa esta tua alma que nunca chora

OLHO
Júlia Sousa
Olho através da vidraça
e sinto o mundo a palpitar lá fora.
Estranhos desejos apoderam-se de mim,
fantasias sem fim,
sonhos nunca antes vividos,
e a nostalgia destes membros entorpecidos.
Sinto inveja dos passantes,
dos sorrisos espontâneos,
das conversas simples mas com encanto,
dos planos segredados quase num murmúrio pelos jovens adolescentes.
Sinto o tempo a passar por mim.
Talvez devesse desaparecer por uns tempos.
Preciso reencontrar tantas coisas que perdi.
Já nem me lembro da cor,
da forma,
do odor.
Lembro que eram coisas boas,
outras más,
outras assim assim,
mas no seu conjunto,
todas eram valiosas para mim.

O TEMPO É SEM TEMPO
Katarina Madeira
O tempo é sem tempo
na noite encantada
no brilho das estrelas
na candura da Lua
O tempo é sem tempo
no desabrochar das flores
no chilrear dos pássaros
no aroma da Natureza
O tempo é sem tempo
quando intensamente inalo
o cheiro a terra molhada
quando rodopio descalça
querendo apanhar a chuva
O tempo é sem tempo
quando olho o infinito
e me perco nos sonhos
de um coração feliz
que sorrindo imagina
estar numa estrela cadente
O tempo é sem tempo
quando ternamente te olho
esquecendo que o mundo gira lá fora
absorvendo o momento
O tempo é sem tempo
quando de alegria me visto
quando te mimo e acarinho
na felicidade do amor
O tempo....
O tempo... É sem tempo!

OBSERVANDO
Lenine Carvalho
À margem
Da vida,
Observo meus erros...
Interminável desfile,
Das coisas que
Não deram certo.
A vida me observa,
À margem...
Multiplicado em equívocos,
Perdido,
Entre tentativas impossíveis.
À margem da vida,
Observo,
A vida me observar...

REFLEXÃO POLÍTICA
Letícia Marques
Seria a pior herança
A intenção da exploração?
A colonização
Baseada na predação
Instalou-se na mente da multidão
Enfraquecendo o povo
Sendo ferramenta da escravidão...
Sancionou o latifúndio
É agente da desunião
Alimenta a corrupção
Nutre a devassidão...
O imperialismo ora presente
O ignorante não sente
É ele que mata tanta gente,
Ludibria,
Mente...
Faltam a cultura,
O saber,
O querer
Mudar o viver...
Elementos para lutar
Fazer crer
Que sem o comprometimento
Com o homem
Não há como crescer...

POETARES
Liane Niremberg
Tem gente a poetar leveza
cantando alegria sem fim...
Outras gentes poetando tristeza
afastam-na de dentro de si...
Tem gente a mergulhar em linhas
num protesto imenso de dor...
Poemas a chorarem lágrimas
por tantas vidas ceifadas...
Tem gente a poetar do homem
o egoísmo tão frio...
Escassez de amor fraterno
a sobrar em tanta miséria...
Outros poetares expressam
o mágico momento vivido
Do amor então encontrado
até numa esquina de linhas...
Entrelinhado eterno é
o amor ofertado por Deus
Instantes orações e preces
que a alma bem reconhece...
São tantos os poetares
entre emoções e sentires...
Que fico a pensar cá comigo:
poesia maior é a vida!

PODERIA SER SIMPLESMENTE UMA RUA...
(MAS NÃO!)
©Linda Maria
Ah! Poesia!
Esta asa indomável
Esta ânsia, esta agonia
- sempre e sempre-
E sempre tardia.
Ah! Poesia...
Esta volúpia insana
Esta dor
-sempre e sempre-
E sempre tirana
Ah! Poesia...
Esta, sempre.
E sempre plena
analgesia
FALEI TAMBÉM DE FLORES...
líria porto
para se arredar as nuvens
precisa-se beber azul
quanto mais azul melhor
e depois pedir ao sol
um pouco mais de calor
da lua buscar a lua
por si só lua é boa...
e depois de sapatilha
dançar na praça na rua
a maior riqueza a saúde
a liberdade a alegria
e isso só é possível
se há emprego para todos
salário bom moradia
se há comida na mesa
escola pátria justiça...

CENÁRIO BRASILEIRO
Lisieux
Não, não deixes a rubra mancha
sobre o chão...
que ela não conte a história da omissão
da covardia
dos olhares desviados
do apressado cidadão...
Não deixes o vermelho esconder o azul
das máscaras transeuntes
sorrisos amarelos
cabeças sem anelos
olhares brown - terra?
não...
asfalto, lotação.
Limpa, limpa, a marca da opressão...
retira com sabão a mancha da prepotência
tira das vistas limpas
a sujeira do abandono
garante a abstinência dos sentidos.
Mas quando olhares o pássaro no céu
espreme os olhos contra a luz.
E derrama, ao menos uma lágrima
de arrependimento.
E na Espanha:
(lisieux)
"rojas faiscas nel cielo
cabezas sin ningún sueño
cuerpos en la calle,
muertos."
Triste, triste mundo!

A ESCOLHA
LOUrdinha Biagioni
A escolha, na dividida,
Perde o equilíbrio,
Compromete o caminho,
Pesa no rumo da vida.
Num sonho calado,
Coração e máscara se partem,
Verdades clareiam, afloram,
Tomado um partido, antes não decifrado.
Vidro partido, mesmo colado,
Mostra marca: emenda sem emenda,
Outro equívoco repetido
Silêncio, nem sempre consentimento,
Aguarda e se guarda na balança,
Com desconfiança, aposta-se na esperança.
POETAS
Luiz Carlos (Umvelhomenino)
Mentes a vasquejar
Nos mares do infinito...
Cada mente um amar,
Cada alma um conflito.
Em todos, desejos constantes
De buscar insólitas sensações.
Um grupo de almas delirantes
A dardejar emoções...
Todos ilustres sonhadores
A decantar paixões,
Exultando amores
Acalentando ilusões...

NA MANSIDÃO DA ALMA DOS POETAS
Márcia Possar
Ah!...
Quando li pela primeira vez um verso teu,
você estava em frente ao espelho
tentava, se divisava,
sem nenhuma esperança,
sem gostar do que avistava...
Ah! Poetas...
Muito mais que homens. Pequenos anjos descobridores de seus
próprios deuses, que andam por aí semeando asas, que guardam
tesouros e que se lêem pelas mesmas cartilhas.
Dos teus olhos, fontes inesgotáveis de pérolas, madrigais, sinais
e encantamentos, nascem todos os sonhos.
Diretrizes de caminhos iguais, que às vezes adormecem e tentam em
vão sossegar os fascínios dos desejos de pedaços de seios e
pernas, em beijos molhados, que se mordem nos instintos.
Ah! Poetas...
Que por conhecerem todos os segredos atiram-se sem medo. Passeiam
por entre todos os portais das emoções, sentimentos e paixões.
Seres que volitam entre dores e prazeres. Que precisam das
ausências para poder se tocar e se descobrir, que precisam das
prisões para poder viver em liberdade. Contradição pura por
estradas de doce tortura.
Ninguém duvida de que os poetas todos se reconhecem pelo
pressentimento de um verso lido, acometidos pela intuição de algo
sentido, pelo mesmo desejo de encontrar o lugar certo para guardar
cada uma de suas incertezas.
Nasceram em forma de sementes caídas em corações maviosos de almas
volitantes.
... Ah! Poetas...

A POESIA E O POETA
Maria Ester Torinho
A poesia faz-se em dois níveis,
dois planos, dois mundos:
matéria prima: emoção,
elevada ao quadrado do sentimento;
pequeno pote de mel,
multiplicado por lances profundos
de amargura e fel;
no plano da exposição,
esforço contínuo de transposição,
poesia é transpiração,
matéria prima de lápis, caneta, papel;
fonemas, letras, rabiscos, adendos.
E o poeta clama e conclama
pelo auxílio da palavra;
mas a palavra, rebelde,
a língua lhe trava.
E enquanto o poeta anota e rabisca
e transmuta em verbo o sentimento,
e inunda de poesia a terra e o firmamento,
mal consegue conter a faísca,
a fogueira viva que o queima por dentro.

NOTICIÁRIO
Maria Ivone
Diante da TV
Prato de miojo na mão
A chamada do jornal
Prende minha atenção:
“Série de reportagens
sobre a fome no País”.
Que nojo!
Da comida em minha mão
Do governo que eu não quis
Da própria população
Que absurdamente parece feliz
Ou simplesmente se conforma
Por não saber reagir.
Há conserto pra isso tudo?
Tudo isso tem conserto?
Um concerto, quem sabe, talvez.
Quantos milagres a música já fez?
O poder transformador da arte
Como fonte de salvação
Por que não?
A quem interessa manter
Inculta a população?
Politizar? Nem pensar
Ficaria impossível manobrar.
Se a urna é a única arma
Quem a sabe manejar?
Quem tem tal habilidade?
Quem tem bola de cristal?
Quem tem porte?
Há tempos não se aprende
Há tempos não se exercita
O ofício de escolher
O poder de discernir
O podre do nobre poder.
Comícios, panfletos, jornais
Programas banais, artifícios
Marqueteiros de plantão
Tornam o escolher mais difícil.
Destino cruel: decidir
Resolver o xis da questão
No simples apertar de um botão
Quatro anos de surpresas, decepções.
Maldição!
A cena é chocante demais
O prato me cai das mãos

UMA ROSA PARA CADA...
Maria Petronilho
Asilo no seu coração
As lágrimas de meus olhos
Salgadas de compaixão
Recolho do seu aroma
Bálsamo para os que vão
No seu coração de amor
Debalde tento olvidar
A feroz devastação
Homens, mulheres, crianças
Em instantes estropiados
Ante a nossa assombração!
PERIGEU
maria rosa s. martins
o reflexo da chuva
floreia o quebranto
dos sentidos,
o abstrato perfuma
a perenidade
da lisonja
e uma dose violenta
escorre pela alameda.
...
recolho os trapos
que me servirão para nada.
POR UM MOMENTO, APENAS...
Maria Teresa Albani (Maytê)
|
Quero um pedacinho de tempo
para poder descansar esse peso do mundo que estou sentindo
em meus ombros... Um tempo onde não me perguntem nada, nem
me peçam nada, apenas me permitam o direito de dar vazão ao
pranto que venho engolindo com o café da manhã de todos os
dias, enquanto visto a máscara de "olhem como sou valente e
forte"...
Quero ser a criança que pode chorar livremente sob o
beneplácito da manha, até que me ponham no colo,
restabelecendo assim o equilíbrio de que necessito para
dormir em paz.
Quero ser menina novamente e me esconder no vão da escada
para que todos me procurem e se preocupem comigo (ainda que,
ao me encontrarem, me ponham de castigo pela
traquinagem...).
Quero ser a adolescente despertando para o primeiro amor e
poder vislumbrar no horizonte o barco que vem me tirar daqui
e me levar para longe da escuridão e do frio...
Quero ser a mulher que teme o amanhã, que se angustia com
aquilo que não ousou e se amedronta com o que há ainda por
realizar...
Quero ser a aventureira em busca dos sonhos, sem ter que
vê-los pintados com as cores do desânimo ou coloridos com as
cores do impossível, e quero poder brincar, eu mesma, com
meus sonhos como se fossem massinha de modelar ilusões...
Lambuzar neles meus dedos até decidir quando precisam se
desfazer...
Quero ser amiga, também, nas horas em que tudo pareça ter se
perdido e encontrar apenas um ombro onde possa repousar meu
cansaço, um ombro que seja tão somente silencioso... e
impregnado de compreensão.
Quero deixar que me invada toda a dor do mundo neste
instante, porque ela é minha, é real e é única, e que, como
tal, seja aceita e compreendida... mesmo que eu não a aceite
e não saiba lidar com ela...
E quero poder dizer isto - deste jeito: "ESTOU DOENDO, SIM"
- sem assustar ninguém, causando uma revolução tão grande
que meu mundo pareça ainda mais desabitado...
Daqui a pouco tudo vai parecer diferente e novo, eu sei. Vou
secar os olhos e vou à luta outra vez e da dor hei de
ressurgir mais fortalecida... porque sou noventa e nove por
cento feita de matéria que dificilmente se desintegra...
Então, por favor... por um momento apenas... neste meu
pequeno momento mais que humano, neste meu miserável um por
cento de fragilidade, me deixem ser igual a todo mundo... e
simplesmente chorar....
|

POESIANOSSA
Marineide Miranda
Sentimentos vibrando na ponta dos dedos
Na ponta da língua...
Na cabeça a girar...
Coração alegre ou triste
Compondo em versos melodias no ar!
Ser poeta é sentir a alma nua
É desnudar sentimentos no tempo
Vivendo em eterna roleta-russa
De amores, dores, sorrisos, emoções...
Tudo que existe de verdadeiro no peito!
Ser poeta é ser música, lágrimas, amor
Ter alma dócil, doce, ágil e sensível
Para falar do que viu, sofreu, amou
Sentiu, nasceu, morreu...
Renasceu, reviveu, recomeçou, viveu!

SENHORA POESIA
Mellíss
Senhora Poesia,
que nos permite estar além de nós,
que faz da nossa voz uma outra voz
e nos empresta corações tão diferentes !
Senhora Triste,
chorai o pranto intenso do cansaço,
olhai a tentativa em cada passo
do órfão pequenino ao indigente ...
Senhora Bela,
tocai as esperanças dos caminhos
feridas pelas setas dos espinhos,
regadas pelas lágrimas vertidas ...
Senhora Minha,
fazei de nós um poço de ternura,
de onde jorre a emoção mais pura
para que em vós venha beber a Vida.

RITUAL
Letra a letra forma-se a palavra;
Palavra a palavra forma-se a frase.
Um poema que saia da minha lavra
Pode ter falta de ponto, ou de crase.
O que está escrito vem da Inspiração,
Esta sutil ligação do real ao espiritual.
Todavia, confesso, dá-me satisfação
Pertencer à Poesia e ater-me ao Ritual.
Assim sendo, rendo minha homenagem
A todos quanto eu devo os poemas.
Em cada página vê-se ainda uma imagem
Como realce para todos os temas.
Agradeço, sobretudo, Àquele que tudo fez
Para que a minha Musa voltasse de vez!
Moacir et Selena

VIDA DE POETA
Myriam Peres
Que bom que é ser poeta
Pra viver abestalhado
Olhando só para o céu
Para ver todo estrelado...
Olha as flores com carinho
Percebe logo os odores
Das aves fuça seus ninhos
Pra descrever seus amores...
Vive procurando os mares
Suas ondas e verdes ares
Com as as espumas flutuando
Nas cristas e nos cantares...
Olha as velhinhas e percebe
As rugas dos desencantos
Os cabelos embranquecidos
Os olhos que choram tanto...
Vive no mundo da lua
Como pra ver suas cores
As fases do amor profundo
As luzes sem dissabores...
Com os namorados deduz
Se o amor que os seduz
É verdadeiro ou ilusão
Pois fareja os sentimentos
Transforma tudo em canção...
Diz horrores à traição
Só vive declamando paixão
Rima amor sem aflição
Comenta com pura emoção
As coisas do coração...
Os poetas não vivem, flutuam
Não escutam palavras, só burburinhos
Não disfarçam os descaminhos
Só pensam nos tais carinhos...
Vivem, se isto é viver
Sonham em ver acontecer
Acordam de madrugada
Só pra sentir a saudade
De tudo e de todo nada.

FUTURO NECROLÓGIO
Nelim Monti
Notícias em jornais, T.V, revistas...
Do lodo.
Lodo de tantos anos que resiste ao tempo.
Mal estar geral em todos os pontos.
Nervos tensos, sensação de pânico.
Momentos difíceis para o homem viver.
Cercado de armadilhas, abismos.
O povo como uma grande boiada, cercada.
Orçamentos que estouram, enchentes, bombas
explodem, aviões que caem, carros bombas
que acabam com vidas.
O céu escurece...
Falta o ar.
Um tempo sem novos caminhos
Sem futuro.
Medo...Todos têm medo, muito medo.
Sensação de inutilidade...
Nada adianta, nem mesmo súplicas, poesias
apelando, manifestos de paz.
O ódio, a ganância pelo poder militar
do mundo, são germes instalados, trabalhados
e aliados constantes da besta que transmutada
em homem transcende a loucura.
Viver na inocência dos simples,a espera
das coisas que têm que acontecer.
Para o homem nada mais resta
Além da sua vida inconstante, insegura.
Os sonhos...!!!!
Muito menos ainda.

PRECE
Nin@
Ensina-me AR...
Tu que vês as nuvens fluírem, as aves partirem, as sereias
seduzirem e fugirem...
Como se deixa de amar aquele com quem se quer ficar!?
Ensina-me TERRA...
Areia... rocha em pó transformada, como ser paciente
e esperar na alquímica e imposta solidão...
tornar-me eu na sua amada!
Aguardar que o sim desejado substitua o não... adivinhado!
Ensina-me ÁGUA
A purificar a minha aura... outrora luminosa e azul...
e hoje tão cinzenta e sombria...
Ensina-me a acreditar que não há impossíveis...
A afastar esta tristeza... a não desistir da alegria!
Ensina-me FOGO
Como posso apagar quem me queima o meu olhar?
Diz-me como com o poeta cantar que
«O amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente»!
Se em mim arde, vê-se, dói e só "ele" não sente...
Será que o poeta mente?
Terra, Fogo, Água, Ar...
Ensinem-me ao que estava escrito aceitar!
Ou então... ensinem-me a revolta e por meu amor lutar!
SIÁ DONA POESIA!
OlgaMatos
Seguro firme as crinas da brisa,
monto às antigas, há muito tempo!
Chuvas e coriscos não me intimidam,
desço das nuvens e deixo choverem!
Quando o verso vem corcoveando,
manhento como criança rebelde
dou-lhe um doce e ele sai cantando,
cor da esperança ,com sabor de mel!
Quando saem acanhados , esquivos,
chutando pedrinhas, fazendo beicinho
ponho de castigo ou os passo a limpo!
Se algum relincha descompassado
por que ouviu lá longe um chamado
desato o laço pois saudade mata
TENTATIVAS
Otávio Coral
há um instante crítico
um momento breve
em que a penumbra leve
envolve o poeta reflexivo
deixando-o absorto
diante das incertezas das sombras
da magnitude do silêncio
da magia da solitude
e dos versos que pairam no ar

EU, TU E A POESIA
Paola Caumo
Que estranha
relação se instala
em nós, sujeitos e verbos
da palavra e do sentimento.
Unidades distintas e unas,
Mundo dos sentidos,
Calabouço de versos,
Existência que se descortina
Em nuances simbólicas,
Signos paradoxais,
Estações venais,
Possibilidades infindas
Mas no cerne de tudo
- amor e medo.
Fontes inesgotáveis
de expressão,
fuga e controle da razão,
estamos sempre no lume,
com a chama da vida
deslizando por nossas mãos.
E se nos dizemos
atores em cena,
Ela (a vida) é nosso palco,
nosso diretor, nosso figurino,
Mãe dos versos e reversos,
nosso apelo ao sublime,
pelo grito profano
de nosso desejo insano -
DE APENAS SER

MANIFESTO
P@ulo Monti
E enquanto vamos tapando nossas bocas
Com feijão e arroz,
Vão subindo o pão e o leite.
E enquanto vamos tomando suor com cansaço,
Vão sucumbindo todas as éticas, as profissionais, principalmente.
E enquanto vamos subindo as escadas,
Vão descendo nossas carcaças altivas.
E enquanto os relógios esmagam nossas cabeças vazias,
Vão calando as canções sem o ranger de idéias.
E enquanto comemos o pó das filas cotidianas,
Vão apodrecendo bilhões de neurônios.
E enquanto lutamos nas camas amores verticais,
Vão acabando nossos sonhos marginais.
E enquanto escrevemos na noite como se fôramos
Vermes costurando na cova fresca,
Vão calando nossas vozes que gritam no silêncio de nossos olhos
televisores.
Viva o pileque que tomamos nesse botequim de palavras!
- A seguir: um enforcamento em praça reservada.

O TRUQUE DA FANTASIA
Priscila de Loureiro Coelho
Eis algo bem divertido
Que todos deviam fazer
Basta ser descontraído
E gostar de escrever
O segredo é se soltar
Abrir o seu coração
Deixe o pensamento voar
Em toda e qualquer direção
Passeie pelo infinito
Pelo passado e o presente
Pinte um futuro bonito
E verá como se sente
Verá então as pessoas
Mergulharem em fantasia
Ela traz só coisas boas
Um mundo de alegria
Nos momentos que passamos
Silenciosos a sonhar
É certo que desfrutamos
Um prazer bem singular
Não é preciso talento
Nem muita vivacidade
Apenas um pouco de tempo
E muita espontaneidade!
Viver incansável procura
Busca ousada e atroz
De coisas que sejam bem puras
E que estejam dentro de nós
Tudo isso é criação
O inatingível encontrado
Quem voa na imaginação
Toca o horizonte encantado
Por isso a todos convido
Vamos comigo explorar
O que um coração atrevido
É capaz de encontrar...

EM BUSCA DA ETERNIDADE
®Rick Steindorfer
Quando irrompe um pensamento
em meio a uma concentração
busco sofrear o sentimento
e acalmar o meu coração.
Quero a paz em todos os momentos
e para isso sempre me exercito
vivo com certo comedimento
e jamais minha mente excito.
Aspiro calma, paz e igualdade
expiro todas as preocupações
tenho com Deus terna lealdade
e lhe entrego todas as emoções.
O que pode haver de bom nisso
pode você me perguntar
é que com a vida jamais sou omisso
e para a eternidade, sei que vou voltar.
A VERDADEIRA LOUCURA
Roberto Passos do Amaral Pereira
Pelo buraco da fechadura
A loucura possui outras formas, outras texturas
Não são minhas , não são tuas
A pele nua da verdade
Maldade da consciência
Que se assenta na alma
e tira a calma dos homens de bem.

CALMARIA
Rosy Beltrão
Depois do vento rajar sem parar
Depois de ver as ondas turbulentas
O céu escuro, nuvens negras
O som do mar a bater fortemente
Nas pedras, no píer ou na praia
Tudo se desfaz... parece magia.
O dia amanhece, esquálido
meio pálido até.
O vento torna-se uma brisa leve
que levanta aos poucos os meus cabelos
sem força...só um breve refrescar.
Não se vê nem um veleiro de velas alçadas.
Ele vem de mansinho, chega devagar
e, no meu divagar ,ainda em transe,
pelo simples e imenso sabor
de ver a calmaria que está o mar.
O sol brilha e os coqueiros ao longo
da praia ficam mais verdes
e transeuntes começam a chegar...
Alguns com a tralha toda para pescar
outros, equipados para um banho de mar
e eu... fico a admirar
vejo o céu azul
o mar refletindo o sol
e, mais claro do que nunca
e um breve e silencioso murmurar
de ondas curtas, pequenas
e quase sem espuma.
É...hoje, quem diria,
É dia de calmaria!

POESIA: COÁGULO DAS COUSAS
ETERNAS!
®Rubenio Marcelo
A poesia é um círio de eterna luz
que brota nas manhãs em périplos azuis
e guia-nos ao reino angelical das fábulas...
Ela vem com o sol-nascente das parábolas,
trazendo a ardentia de amores vesanos
e todos os alfanjes desses desenganos,
cortando a emergência das leis científicas.
A poesia faz integrações pacíficas
em dobres transcendentes de mil clarinetes,
ostentando nas praças e nos minaretes
as flâmulas heróicas da grã liberdade.
E a chama poética – taça de verdade –,
tecendo oferendas para plenilúnios,
suplanta os grilhões, quebra os infortúnios,
buscando, assim, fermata em alegorias...
No êxtase do verbo, grãos de poesias
alavancam o espírito (buscam o essencial
na commedia dell’arte sobrenatural)
e lançam seus jograis ao elã das noites...
A poesia é o vento em sutis açoites,
polinizando nossos seres-flamboyants.
É a solidão das cercas de avelãs
nas madrugadas de geadas e outonos...
É o inflamável afã de sonhos/abandonos
guardados no silêncio dos desamanhãs.
A poesia segue com as procissões,
levando seus archotes, semeando preces;
e vem com as pavanas em ditosas messes
ou com os ritornelos das melancolias...
Ela traz os enigmas das vãs travessias
e as epifanias dos anjos e mitos...
Seus soldados-clarins, reais-infinitos,
afastam basiliscos, faunos e dragões...
Oh, a poesia é o coágulo das sublimações
e a languidez do pranto que nos aterra...
Ante a expectação e o sinal de guerra,
é o Santo Graal dos nossos corações!

POESIA
Sulla
Poesia é tudo a exprimir o amor
Poesia é o que sai da boca do poeta
do coração da mãe, das notas do cantor
Poesia é saudade reprimida
Poesia é felicidade em ter a vida
Poesia é fé em nossa língua
Poesia é um mar de alegria
Poesia é a tristeza de um olhar apaixonado
Poesia é o amor à própria vida
Poesia é a inspiração que constrói no mundo
Poesia é o que sai do coração que sonha
Poesia é uma lagrima escorrer dos olhos
Poesia é a saudade - a doer - tamanha
Poesia narra a história de uma nação
Poesia é a música que beija nossos ouvidos
Poesia é harmonia entre paz e guerras
Poesia é o clamor silencioso a viajar o mundo
Poesia é o que o mundo aplaude ou vaia em alaridos
que dá nova roupagem ao amor e à nossa terra.

SÍLABAS QUE CHORAM
Susana Mendes
É mais uma vez o verso latejando no coração do poeta,
clama ele num sentido apelo em suas letras,
com o coração em prantos...
Choram suas sílabas em súplicas,
pela luz no universo...
E nuvens negras num céu tempestuoso
vão se espalhando,
diluindo e confundindo seu poema...
Almas grotescas camuflam dentre sombras
por um poderio ilusório e vil...
Neste esgaivar-se em rubro sangue
da vida humana,
ecos da violência ribombam num estampido
e fere aos ouvidos,
lançando ao chão e fenecendo corpos e dignidades
como em um abatedouro ...
Senhores porque travam assim lutas, batalhas ,
que são vencidas às gargalhadas,
enquanto em lágrimas roga o homem,
a mãe, a criança , até a própria natureza?
Há que haver urgências do grito,
que seja até num panfleto,
no folhetim,
na boca do povo, o berro,
num jornal o alarido popularizado
mostrando a dor no mundo...
Que do poeta flua o verso
consagrando mais uma vez em sua poesia
a magia do amor entre os seres,
da união entre os países,
e as famílias que sobrevivem do abandono...
É de clemências que o nosso momento urge,
é de reflexão que tantas mentes embotadas necessitam.
Soluços esparsos sangram em terras diversas,
com maldades diversas...
E o homem prostra-se ajoelhado
humilhado,
mãos erguidas numa sensível súplica,
clamando então Àquele, ao Pai maior,
que o ampare e o proteja,
pois que aqui na terra ,
o poder é dele, homem,
assim ele faz a lei

FLUXO UNIVERSAL
Tahyane©
Dar e receber
um fluxo universal
um movimento constante,
Uma lei imutável
Ter consciência e a certeza
desta Lei é que faz a diferença.
Não basta saber, tem que interiorizar
pois ela é real, não há como mudá-la.
Nossa vida é um jardim,
nós somos dela jardineiros
as sementes que plantarmos
serão a nossa colheita
mesmo aquelas que inconscientemente
deixemos cair germinarão
Um dia de um ponto qualquer
olharemos para trás e nessa hora
veremos, como numa paisagem,
a imagem do nosso jardim!

TERRORISMO
Vanderley Caixe
Corpos destroçados,
imagens de crianças em pedaços ,
velhas mulheres arrancadas e embaladas,
operárias, trabalhadoras com corpos entaladas,
nas ferragens.
Foi a bomba maldita,
maldita bomba,
sem endereço certo.
Matou milhares,
não pediu carteira de identidade,
nem classe social,
se eram civis ou militares.
Era a resposta doida,
animal,
de tanto mal,
de tanta maldade,
da desigualdade,
da dor,
do inferno sem cor,
do Vietnã,
da Indochina,
do BustTão.
do Afeganistão.
Do ódio acumulado,
do Iraque, das iraquianas meninas,
das crianças, das velhas michimas.
Uma explosão de dor,
uma dor todos os dias no coração.
As elites criminosas indignadas,
inocentes nos trilhos de ferro,
mortas, espalhadas.
Paz!
Paz!
Não a paz das elites criminosas.

VIDA
Vyrena
É escorregar pelo tempo...
Atravessar estações
Por veredas diversas...
Por vezes sombrias...
Por outras...plenas de claridade!
É andar por pedregulhos...
Por espinhosos caminhos.
É atravessar jardins
Perfumados de rosas.
É deixar no trajeto...marcas
Que a outros irão orientar.
Deixar rastros de felicidade...
Para alguém... feliz...
um dia tornar!
É viver lindos sonhos
Para depois recordar.
É aceitar as derrotas
E as vitórias festejar.
É sofrer com a dor
Que o sofrimento nos traz!
É chorar sonhos perdidos...
As vitórias recordar.
É lembrar de amores
Que nos fizeram sonhar!
É o desbotar do sorriso.
É a nostalgia no olhar.
É olhar com saudade
O que ficou para trás!
É envelhecer...
Quando o momento chegar!
É esperar pelo fim.
É saber aceitar!

Benze teu filho em águas impuras
alimente-o com leite fraco
amaro muitas químicas
do iogurte de morango artificial
tanta cor coalhou
sirva os legumes
agrotóxico temperado
cozinhe a carne harmonizada
e o ovo quase sem sabor
abra mais uma lata
se sirva de nada
Espanto!
lamente por todos os próximos
onze (des)gostos
que o futuro prova
Zeca Pestana
"olho cáustico"

SOU POESIA
Neli Neto
Sou Poesia...
Sou ser humano, vivente
Pois penso, falo, logo existo.
Sou a vida que pulsa e acelera
Corações desnutridos
Da seiva de um amor.
Sou raiva, sou ciúme,
O clamor de um furor.
Sou o tempo inexpugnável
Que corrói suas entranhas;
Sou a idade que se mostra
Sem se preocupar com seu peso,
Mas com emoções que lhe brotam
Melhorando o seu vigor.
Sou a paixão bem crescente,
Sou o amor envolvente,
Sou o tesão, desejo e prazer.
O risco de ganhar ou perder
Não importa,
Pois o importante é viver.
Sou a criança que chega
Trazendo alegria total;
Sou adolescente incoerente,
Rebelde, inconseqüente;
Sou anciã decadente,
Com um fio de vida, ainda latente,
Que me dá forças para gritar.
Pois sou um ser nu,
Sem fronteiras...
Chego e entro,
Em qualquer lugar.
Sou a leveza de um sonho
Perdido, solto no ar.
Sou a eterna busca constante
De um porto para encostar.
Sou lembrança, cadeira vazia
Saudade de uma presença
Ausente...,
Partida num certo dia.
Sou a explosão de sentidos
Liberação de emoção.
Sou bailarina no tempo...
Danço palavras ao vento,
Imagens de um sentimento,
Sensibilidade de um ser.
Sou filosofia, sou palavrão
Sou ironia, devassidão.
Sou revolta...
Rebelião de sentidos,
Alienação, confusão.
Sou melodia, sou paz,
Sou o despertar de uma voz.
Sou equilíbrio, a procura,
O pensamento, a razão.
A consciência que grita,
Por um espaço na mídia;
Mostrando sua presença
Em qualquer situação.
Sou a delinqüente que rouba
Corações despedaçados,
Abrindo suas celas fechadas
Tormentos de um passado;
Chegando bem fundo nas sombras
Levando luz, amor, calor.
Sou liberdade no pensar...
Levo minha fala aos lugares,
Surdos por conveniência,
E os obrigo a me escutar.
Sou o olhar perdido no horizonte
Em busca de um ponto distante
Da unificação dos povos.
Do sorriso resplandecente,
Pela dor da perda superada.
Do fim da miséria, da fome,
Da violência indiscriminada,
Do grito abafado da guerra,
Das vidas encarceradas.
Sou uma semente de amor
Lançada ao mundo em gotas
Na busca de um futuro melhor.
Da fé esquecida, a devoção
Do postar as mãos em oração.
No desejo de ver sempre crescer
A união, a felicidade, o amor,
A humildade e a gratidão.
Como uma peninha no vento
Levada sem direção
Vou espalhando gotas de luz
Como um anjo guardião.
São dias e noites a fio
Tendo o sol e a lua de cúmplices
Junto ao brilho da natureza
Nos animais e nas flores.
Semeadura de paz.
Nos ditames de um grande amor
Estou de mãos dadas com Deus
Sou a voz em coro dos homens
Em busca de solução.
Sou um grito de esperança
E o encontro do perdão.

Nós poetas, através de nossos
escritos,
procuramos levar sonhos às pessoas
nossas realidades interiores com muita
convicção,
sem fugir por completo da
racionalidade
que nos acorrenta ao cotidiano.
De certa maneira, colaboramos com
todos
os seres viventes da terra não
deixando
que o mundo fique vazio, em completa
escuridão
e sem sentimentos que os ajudem, dando
forças,
para enfrentar aos problemas em
questão.
Levamos a todos a luz para iluminar os
seus dias
com muito amor no coração.
E pelo Dia da Poesia eis aqui nosso
presente,
a todos os poetas componentes do
Luna's
bem como seus Amigos e Leitores.
Neli
Neto
março/2004
Música: Luzes da Ribalta

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