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Entre grandes Poetisas, lançamento de mais desafios dentro da cultura, da integração dos poetas lunáticos!

19/06/2003

MariaTherezaNeves

Sugestão
Cecilia Meireles

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

NOVIDADES NO TEU GRUPO DE POESIAS E NO TEU SITE  LUNA&AMIGOS.

Amigos - devagarinho vamos completando a nossa proposição, abrangência possível da nossa expressão cultural em versos, prosa, cinema, artes em geral.

Delasnieve Daspet

Estrela perigosa
Clarice Lispector

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

Luna´s em Quadras Rimadas

Na semana passada tive o prazer de conhecer a MARIA ODILA e a MARIA ISABEL - encantadoras pessoas que estão formalizando uma das surpresas: Luna´s em Quadras Rimadas.

Faremos versos rimados a partir de um tema ou uma idéia, um mote,  já que - conforme o Aurélio - QUADRA ou QUARTETO - é a arte poética em estrofes de 04 ( quatro versos ) .

Para facilitar os versos terão de ser rimados entre si: 1o. com 3o verso e 2o. com o 4o.

A lucidez perigosa

Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

LUNA'S NA POESIA POPULAR

 
Convidei o renomado poeta RUBENIO MARCELO para responder pela página recém criada  sobre a poesia popular brasileira, cuja expressão maior é o CORDEL, mas temos também as SEXTILHAS de rimas cruzadas, as Décimas, Moirões e variantes, Sete Pés ou Sete  Linhas, Martelo Agalopado, Galope a Beira-Mar , Parcela, Quadrões , Quadrão Trocado ,  Gabinete , Toada Alagoana ,  Meia Quadra , Dez Pés de Queixo Caído ,  Gemedeira ,   Ligeira..  e  outras tantas...
 
"Contando-se com os gêneros mais usados, com os de pouca utilização, ou com os que se encontram completamente abandonados para o improviso, a "Poesia Popular" possui trinta e seis modalidades, número verdadeiramente espantoso, que vem, através dos tempos, demonstrar o grande poder criativo dos nossos bardos  matutos".  ( Jornal da Poesia ).
Afinal, a chamada literatura de cordel, no Brasil, não morreu; está completando cerca de cem anos bem vividos, e o cearense Rubenio Marcelo é seu lídimo representante. 

Mas há a vida

Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata
.

SONETOS NO LUNA'S
 
 
O soneto - do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som - foi criado no começo do século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns atribuem a Jacopo (Giacomo) Notaro, um poeta siciliano e imperial de Frederico, a invenção do soneto, que surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, possuindo uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.
 
O soneto é em si uma obra de arte. Não são poucos os sonetos que se conservaram tal como foram escritos, com a assinatura do autor, e as alusões a sonetos em forma de imagens criando, assim, a arte pela arte.
 
Convidei o poeta GERALDO RAMÓN PEREIRA - da Academia Sul-Matogrossense de Letras, sonetista renomado, para cuidar desta nossa nova página. Geraldo vai nos ensinar a arte de SONETEAR... daí o nome da nossa página. Leia um soneto do Geraldo que a partir de hoje integra o Grupo Luna&Amigos.
 
 
Teimosia do Tema
 
Busquei inspiração em outro tema,
Outros fatos... Se tanto assuntos emana
Do dia-a-dia desta vida humana,
Por que só de nós dois fazer poema?!...
 
Por que não se inspirar na seriema,
No rosnar da feroz suçuarana?!...
Enfim, na natureza que se ufana
Como a vida a teimar na piracema?!...
 
Busquei inspiração em mais que isso:
Nos céus, no mar, na fé, no tal feitiço,
No que foi, no presente, no depois...
 
Em tudo inspiração encontraria,
Só não pude escrever uma poesia
Cujos versos não falem de nós dois!
09-09-87  do Livro
ALBUM DE SONETOS.
Delasnieve Daspet

O vestido

Adélia Prado

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. 
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. 
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. 
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. 
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: 
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão. 
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Estas páginas serão mensais, assim oportunizaremos que todos participem e entendam os exercícios propostos, sem quaisquer atropelos.
Todos os exercícios terão e-mail próprio para participação. Para a lista virão as páginas finalizadas.
 

A chuva chove...

Cecília Meireles

A chuva chove mansamente... como um sono
Que tranqüilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene

... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha...
Paço de imensos corredores espectrais,

Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais...

Nas mãos do grupo e dos responsáveis - o que temos certeza será mais um dos inúmeros sucessos dos queridos amigos e associados e uma página do site.
 
Delasnieve Daspet (Luna)
Luna&Amigos

 

O cântico da terra

Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

 

Juiz de Fora, 19 de junho de 2003

Maria Thereza Neves

TT:)
 
Música: Sonata
 
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