Sugestão
Cecilia Meireles
Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta,
fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
Onda que se esforça,
por exercício
desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos
abraçados
e os soldados já frios.
Também como este ar da noite:
sussurrante de
silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado
destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que
mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi
que vai com inocência para a morte.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta,
fiel.
Não
como o resto dos homens.
NOVIDADES NO TEU GRUPO DE POESIAS E NO TEU SITE
LUNA&AMIGOS.
Amigos - devagarinho vamos completando a nossa proposição,
abrangência possível da nossa expressão cultural em versos, prosa, cinema, artes
em geral.
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Estrela perigosa
Clarice Lispector
Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e
silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de
coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo
vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro
nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça
aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos
por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro
erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na
proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e
olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta
dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo
alegre,
o de te esperar.
Luna´s em Quadras Rimadas
Na
semana passada tive o prazer de conhecer a MARIA ODILA e a MARIA ISABEL -
encantadoras pessoas que estão formalizando uma das surpresas: Luna´s em Quadras
Rimadas.
Faremos versos rimados a partir de um tema ou uma idéia, um
mote, já que - conforme o Aurélio - QUADRA ou QUARTETO - é a arte poética
em estrofes de 04 ( quatro versos ) .
Para facilitar os versos terão de ser rimados entre si: 1o. com
3o verso e 2o. com o 4o.
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A
lucidez perigosa
Clarice
Lispector
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula
como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como
um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o
vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior
que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também
que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu
antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e
permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de
realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama,
Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo
consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
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Convidei o renomado poeta RUBENIO MARCELO para responder pela
página recém criada sobre a poesia popular brasileira, cuja expressão
maior é o CORDEL, mas temos também as SEXTILHAS de rimas cruzadas, as Décimas,
Moirões e variantes, Sete Pés ou Sete Linhas, Martelo Agalopado,
Galope a Beira-Mar , Parcela, Quadrões , Quadrão Trocado ,
Gabinete , Toada Alagoana , Meia Quadra , Dez Pés de Queixo
Caído , Gemedeira , Ligeira.. e outras
tantas...
"Contando-se com os gêneros mais usados, com os de pouca
utilização, ou com os que se encontram completamente abandonados para o
improviso, a "Poesia Popular" possui trinta e seis modalidades, número
verdadeiramente espantoso, que vem, através dos tempos, demonstrar o grande
poder criativo dos nossos bardos matutos". ( Jornal da Poesia
).
Afinal, a chamada literatura de cordel, no Brasil, não morreu;
está completando cerca de cem anos bem vividos, e o cearense Rubenio Marcelo é
seu lídimo representante.
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Mas há
a vida
Clarice Lispector
Mas há a vida
que é para ser
intensamente
vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última
gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
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SONETOS NO
LUNA'S
O soneto - do italiano
sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som - foi criado no começo do
século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma
forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns atribuem a Jacopo (Giacomo)
Notaro, um poeta siciliano e imperial de Frederico, a invenção do soneto, que
surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, possuindo uma
oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.
O soneto é em si uma obra de
arte. Não são poucos os sonetos que se conservaram tal como foram escritos,
com a assinatura do autor, e as alusões a sonetos em forma de imagens
criando, assim, a arte pela arte.
Convidei o poeta GERALDO
RAMÓN PEREIRA - da Academia Sul-Matogrossense de Letras, sonetista renomado,
para cuidar desta nossa nova página. Geraldo vai nos ensinar a arte de
SONETEAR... daí o nome da nossa página. Leia um soneto do Geraldo que a partir
de hoje integra o Grupo Luna&Amigos.
Teimosia do
Tema
Busquei inspiração em
outro tema,
Outros fatos... Se tanto
assuntos emana
Do dia-a-dia desta vida
humana,
Por que só de nós dois
fazer poema?!...
Por que não se inspirar
na seriema,
No rosnar da feroz
suçuarana?!...
Enfim, na natureza que se
ufana
Como a vida a teimar na
piracema?!...
Busquei inspiração em
mais que isso:
Nos céus, no mar, na fé,
no tal feitiço,
No que foi, no presente,
no depois...
Em tudo inspiração
encontraria,
Só não pude escrever uma
poesia
Cujos versos não falem de
nós dois!
09-09-87 do Livro
ALBUM DE
SONETOS.
Delasnieve Daspet
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O
vestido
Adélia Prado
No
armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo
preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de
longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo
ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no
cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me
guarda.
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Estas páginas serão
mensais, assim oportunizaremos que todos participem e entendam os exercícios
propostos, sem quaisquer atropelos.
Todos os
exercícios terão e-mail próprio para participação. Para a lista virão as
páginas finalizadas.
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A chuva chove...
Cecília Meireles
A chuva chove mansamente... como um sono
Que
tranqüilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente... Que
abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...
E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo
paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que
envenene
... Num velho paço, muito longe, em terra
estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha...
Paço de imensos
corredores espectrais,
Onde murmurem, velhos órgãos, árias
mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios,
cancioneiros e missais...
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Nas mãos do grupo e dos
responsáveis - o que temos certeza será mais um dos inúmeros sucessos dos
queridos amigos e associados e uma página do site.
Delasnieve Daspet (Luna)
Luna&Amigos
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O cântico da
terra
Cora
Coralina
Eu sou a terra, eu sou a
vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o
amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a
flor.
Eu sou a fonte original de
toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta
de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu
gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua
vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da
lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe
Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que
fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo
quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de
teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua
casa.
E um dia bem distante
a
mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo
dormirás.
Plantemos a
roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da
tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes
seremos.
Juiz de Fora, 19 de junho
de 2003
Maria Thereza
Neves