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Do essencial da vida do poeta podemos mencionar o facto de ser natural de Setúbal, tendo partido muito jovem ainda para o Oriente onde permaneceu alguns anos. De regresso a Portugal entrou para a Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino. Em breve, porém, satirizava os seus membros; acusado de revolucionário veio a ser preso. Faleceu com apenas 40 anos. A sua obra é constituída por todos os géneros poéticos em curso no seu tempo, mas foi no soneto que deixou o melhor de si próprio; nas suas composições combina elementos neoclassicistas com o gosto pelo pré-romantismo. A solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, o belo-horrível, a morte, são alguns dos temas que trata, de acordo com o próprio infortúnio da sua vida.
Delasnieve Daspet
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(1765-1805)
"Magro, de olhos azuis, carão moreno", como o poeta se auto-retratou e como o pintor (Elói) o viu (Câmara Municipal de Setúbal)
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A fama do português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) não se divide apenas em "boa" e "má", isto é, entre a modelar poesia arcádica ou romântica e a malexemplar poesia fescenina: esta mesma é motivo de controvérsia, a partir do ponto em que foi renegada pelo próprio autor.
SONETO QUE RISCA O CÉU
THA©KYN
Pueril fumaça que chamusca o céu!
Sois a Força e a segurança pura,
que fere como giz e depois cura.
Flamejante vôo destino ao léu...
Esquadrilha que não fuma mas traga,
solta fumaça desenhando a rota...
Vento gentil que assopra e estraga,
cabelos ao ar; à bordo sonho em cota.
Nos flapes que balançam no ar vis ancas,
Lindas comissárias que balançam;
os corações alheios tudo bancas.
Mil milhas na distante acrobacia;
no Amor que castiga piloto e máquina?
Ou no manche em pouso banho e bacia...
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Magro, de olhos azuis, carão moreno, |
do
avesso
líria porto
se eu fosse um bebê
estaria no berço
se eu fosse normal
lá na cama estaria
mas não funciono direito
eu durmo durante o dia
e à noite
ponho-me a falar com a lua
e a fazer poemas
com as estrelas...
sou um fuso
confuso...
Apenas vi do dia a luz brilhante
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado,
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da Pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Como te amei!
Como te amei!
Te amei aos poucos
sempre mais a cada dia
Te amei acarinhando
teus temores disfarçados
O riso, as lágrimas
o homem no menino assustado
Te amei no teu tempo
numa proximidade distante
Da calmaria a tempestade
suave, tímida, provocante...
Tanto te amei não percebi
teu instante em gestos e palavras
Somente agora no meu canto silêncio
compreendi o quanto tu me amaste.
LianeNiremberg
Se Camões foi o poeta dos intelectuais, Bocage foi adoptado pelo povo
português como porta-voz das suas expectativas, ambições e reivindicações.
Ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, foi-se
sedimentando um anedotário que tinha o escritor como principal
interveniente. Por outro lado, as transgressões aos valores instituídos
também eram de imediato identificadas com o nome de Bocage. Deste modo,
foi-se tecendo uma lenda que continua ainda a ser alimentada.
A personalidade e a obra do poeta foram retratadas em dezenas de biografias,
em oito peças de teatro, canções, múltiplos poemas, bem como em dois
filmes - um
português, dirigido por Leitão
de Barros, em 1936, e um brasileiro, de Djalma Limongi, em 1998.
Os artistas plásticos também têm querido homenagear a figura deste poeta
setubalense. Entre aqueles que contribuíram com óleos, desenhos, gravuras
ou caricaturas para o imortalizar, contam-se Júlio Pomar, Lima de Freitas,
Vasco, Fernando Santos, Júlio Gil e Luciano Santos.
Em 1998, foi fundado, em Setúbal, o Centro de Estudos Bocageanos, que tem
como escopo divulgar a obra e dinamizar a investigação acerca de Bocage.
Foram realizadas por esta associação várias sessões de poesia, tendo
ainda sido publicados uma colecção de postais,
que reconstitui a prisão
do escritor, e um livro que inclui as traduções de fábulas, bem como as
de La Fontaine, por si escrupulosamente traduzidas.
| "................... onde murmura O plácido Janeiro, em cuja areia Jazia entre delícias a ternura..." |
Dúvidas
E se esta vontade
De ir embora
Não passar
Se amanhã
De manhã
Todo o sol do mundo
Não for suficiente
Para fazer
Chegar calor
Onde o frio
Tomou conta
De mim.
E se sonhar
Não for mais do que
Um sonho
E de repente faltar chão
Debaixo dos pés
Faltar horizonte
Diante dos olhos
Sentir distante demais
A boca mais próxima
A ser beijada
Sentir medo
Medo de nunca mais ter medo
E tornar-se duramente corajoso
Corajosamente
Ninguém.
E se não houver mais
Pipas nos meus céus
Quadras de amarelinhas
Por onde passarem meus pés
Uma virgem a ser cobiçada
Uma perdida a ser amada
Um lugar qualquer para ir
E não ficar.
As vezes tenho medo
A noite se faz escura
Mesmo ao meio dia.
"Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido
De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente;
Do mais e de mim ando esquecido."
"Travam-se gosto e dor; sossego e lida...
É lei da Natureza, é lei da Sorte
Que seja o mal e o bem matiz da vida!"
"Chorei debalde minha negra sina",
"em sanguíneo carácter foi marcado
pelos Destinos meu primeiro instante".
"Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro",
"contra os sentidos a razão murmura".
Teus cabelos subtis e luminosos És dos Céus o composto mais brilhante;
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura.
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.
Meu ser evaporei na lida insana
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões que me arrastava,
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim, quase imortal, a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
A existência falaz me não doirava!
Mais eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus... ò Deus! Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube!
Nos campos o vilão sem susto passa
Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
Vós, Crédulos Mortais, Alucinados
Vós, crédulos mortais, alucinados
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.
Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.
Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?
Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades
Sanhudo,
inexorável Despotismo
"Sanhudo,
inexorável Despotismo
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniquidade e do Ateísmo:
Assanhas o danado Fanatismo,
Porque te escore o trono onde te enlevas;
Por que o sol da Verdade envolva em trevas
E sepulte a Razão num denso abismo.
Da sagrada Virtude o colo pisas,
E aos satélites vis da prepotência
De crimes infernais o plano gizas,
Mas, apesar da bárbara insolência,
Reinas só no ext'rior, não tiranizas
Do livre coração a independência."
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa! tivera algum merecimento
Se um raio da Razão seguisse pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei! Oh! se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade
sonhar um segundo apenas
MariaTherezaNeves