HojeAconteceuLuna's
&
Poetas Africanos
SER FELIZ POR
INTEIRO
Delasnieve Dáspet
Assumir a felicidade
Requer coragem.
As cobranças são muitas.
Inclusive o sentimento de culpa
Dos que sofrem ao teu lado.
Por que não conquistar
O que existe de bom?
Não olhar o mundo
Com ótica míope?
Criar coragem diante da vida?
(Não se tolher)
Sorrir para o sol que ilumina.
Sorver o delicioso ar que se respira.
Beijar o solo que nos apóia.
Embevecer os olhos com as cores da aurora.
Brilhar no odor das flores de todos os dias.
Voar nas asas suaves do beija flor.
Ondular na brisa que orvalha as manhãs.
Fazer o possível na vida que se vive.
Cortar as amarras.
Queimar o cordão umbilical.
Despir-se do medo.
Criar coragem.
Sem medo de ser feliz,
Feliz por inteiro,
É o que busco aprender!
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Um
Lugar para Noémia de Sousa
Aníbal Aleluia
Com poucas composições editadas, esta artista
ocupa lugar de relevo entre os poetas
“africanos”. Deveríamos esperar que
produzisse mais para nos servir de alvo? Não: même
quand l’oiseau marche, on sent que il a des
ailes...
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O
volume da obra não interessa, só nos interessa a essência.
É esta que define o valor da arte. E, se outros meios
não tivéssemos, bastar-nos-ia simples cotejo entre a sua
obra e a de António Navarro, considerado o autor “dos
primeiros poemas verdadeiramente africanos da língua
portuguesa” (?) por um literato responsável, para
examinar o seu conteúdo e marcar-lhe o lugar merecido e
injustamente atribuído àquele.
Mais africanos que os poemas de Navarro são de vieira da
Cruz, Bessa Vítor e raros de Rui de Noronha, ao pretender
falar da poetisa africana não se devem olvidar estes três
nomes. De contrário seria cometer grande injustiça. Mas se
Gaspar Simões tivesse escrito aquilo depois de editada a
poesia de Noémia de Sousa não haveria nada que o salvasse,
tão gritante teria sido a sua injustiça.
Na arte o valor máximo é o homem. Segue-o logo o ambiente.
Mas para navarro nem um nem outro têm real interesse. Na
sua poesia de africa não há africa nem africanos. Das
terras diz francamente: “entendemo-nos pouco nas terras de
africa”, e dos negros: “Nem animais nem homens” para
atribuir a sua incompreensão da africa e dos negros ao
facto de ele ter coração ao passo que aqueles têm
batuque...
A poesia de Noémia de Sousa veio impugnar essas asserções.
Mas muito antes dela, há uns quinze anos, um poeta de
vastos recursos, Pe. Vasco Reis, pusera nos lábios dos
catrejões negros, ao verem os olhos dos brancos marejados
de lágrimas a partida de um barco para a Europa, esta frase
muito expressiva: “...o barco tem coração”. Este poema
intitulava-se “Pachiços”. Ora quem aprecia o
sentimentalismo alheio é porque tem coração...
O batuque nada diz à sensibilidade europeia do navarro.
Vamos ver se o mesmo se dá com Noémia de Sousa. Diz ela em
“samba” que lhe diz “ na sua linguagem encharcada de
ritmos / que as correntes dos navios negreiros não
morreram, não / só mudaram de nome, / mas ainda continuam,
/ continuam.” Mais em “Sangue Negro” ela confessa
haver esquecido a sua Mãi-África até aquele momento.
Quem foi que lha lembrou? Que foi preciso? “E nada mais
foi preciso que o feitiço impar / dos teus tãtãs de
guerra chamando, / dundundundun-tãtã-dundundun-tã-tã, /
nada mais que a loucura elementar / dos teus cantos
terrivelmente bárbaros, terrivelmente belos.../ para que eu
vibrasse, / - para que gritasse, - para que eu sentisse
funda, no sangue a tua voz, Mãe!”.
Isto imprime aos seus versos uma originalidade nunca
atingida pelos cultores da poesia africana. Mais do que na
poesia dum modo geral, é na poesia africana que é preciso
encontrar no artista um espírito primitivo ou seja um espírito
civilizado que em momentos de inspiração se liberta do
património emocional herdado de ascendentes milenários
confiando-o ao papel. E porque assim é, não é para
admirar que mesmo os poetas da raça africana não se
mostrem “verdadeiramente” africanos porque para isso
seria necessário despirem-se do snobismo e é este que
informa a maior parte dos valores nativos. E porque assim é,
é que a poesia da Noémia de Sousa define ainda uma atitude
intelectual heróica, pois está sujeita a uma apreciação
injusta dos seus conterrâneos.
É mal africano a viciação do senso de valores. Cá e
noutras partes pois tenho à mão uma revista onde leio esta
asserção de E. H. Duckworth: ao referir-se ao nosso
conceito de arte africana, fala de “Lack of appreciation
for art and the tendency of educated africans elavishly to
copy europeans”. Noémia de Sousa não se inquieta com
problemas metafísicos que a sua gente não tem: não segue
pisadas de “gentes estranhas com seus olhos cheios doutros
mundos”, não é snobe. E justamente por isso vê a sua Mãi-África
como é na realidade e não sob as cores com aquelas gentes
a deformam.
Ela quer confundir a sua vida com a das outras pessoas, não
pretende instalar-se em uma torre de marfim, porque sabe que
tem uma mensagem como todos os artistas mas a sua reveste-se
de especial significado pelo milenar silêncio que a
precede.
Se “os ambientes” não lhe forem adversos há de
exprimi-la porque tem méritos e é a autora dos
“primeiros poemas verdadeiramente africanos da língua
portuguesa”...
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31 de Agosto de 1950
Aníbal Aleluia
in O Brado Africano, ano XXXIII [XXXI], nº 1402,
23.09.1950 (Col. De Mês a mês; IV)
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Quando
Quando um dia
eu for teu macho
quero minha vontade
trazer
em meu corpo de pêlo nu
faminto por todo teu jeito
meu no teu
intenso querer
Quando um dia
eu for teu macho
quero minha vontade
me ter em tua fonte
minha sede beber
plantar-me
em teus gostos
nua
minha fome comer
Quando um dia
eu for teu macho
quero minha vontade
roçar em teus cheiros
alisar em teus sabores
mornos
umedecidos
encaixar em tuas formas
aquecidas
trotar tesão pelo ar
vai e vens enlouquecidos
gritos, sussurros, gemidos
sensações
vãos envolvidos
manhas do amar
doce encanto
fêmea prazer
nesse mágico dançar
Luís
D´Angola Júnior
Chefe de Redação da Muangolê Notícias
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CAUSA PERDIDA
O grito longo
da criança faminta
Subitamente
ecoou a esperança
Esquecida na
saga e cega crença
Do sonho idoso
de paz e felicidade
A liberdade
secular em duvida
A ânsia de
democracia dividida
A igualdade
assombrada na despedida
De um horizonte
incerto de chamas
Crentes homens
na paz dos fuzis
Embriagados com
o próprio sangue
Onde
Vermelho e
preto é arco Íris
Que lindo!??
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Pura Ilusão
Me iludi
Ao te amar sem
ser amado
Me entregar sem
resposta
Loucamente se
dar sem receber
Me iludi
Cegamente nas
doces palavras falsas
Ter-me
embriagado com seus beijos
E sonhar com um
castelo de areia
Me iludi
No seu sorriso
lindo e disfarçado
Nas suas piadas
quase sem graça
Nas desculpas
certas e frívolas
( hoje percebo
isso)
Me iludi
Ao viver como
tua rainha sem coroa
Te Ter como meu
Romeu sem o veneno
Desejar-te como
uma cadela sem fidelidade
Me iludi
Ao gravar seu
nome no meu coração
Ao usar óculos
de sua imagem
E vestir roupa
e cheiro de sua pele
Voce talvez não
percebeu meu bem
Que num oceano
azul de amor
Desejei apenas
uma gota de felicidade
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Poesia de um
combatente
A minha alta
patente de esperança
Perdeu-se no
escuro da ultima batalha
Na trincheira
ferido ignoraste-me
De mata à mata
procurei-te desarmado
Eu Sei,
conquistar-te foi um combate
Mas Ter-te
seria uma vitoria gloriosa
Pois
bombardearei seu coração de amor
Fustigarei seu
corpo com mel de caricias
Mutilados de
prazer na madrugada
Fardados de
suor,lagrimas e gritos
Mergulhados num
tiroteio sem pudor
sentirás a dor
do meu tiro til e certeiro
De manhã
cansados do intenso flagelo
e Capturados
pelo cupido inimigo
Estaremos
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Ausência
Rosy Beltão
Se tiver de ir... então, vá!
Mas, não se demore,
Porque fico sem ar.
Me faltam as cores, as luzes
e todos os sabores.
Ausentam-se todos os odores.
Somem os meus "calores".
Então, volta logo,
Porque meus sentidos,
Estão todos desvalidos.
Luís
D´Angola Júnior
Chefe de Redação da Muangolê Notícias
Para
ti Mãe África
Neste
dia especial para as mulheres do universo (oito de março), abro alas para
falar de você mãe África, porque és o berço da humanidade e fostes a
virgem dos exploradores brancos que mistificaram tua raça e tua sina, seus
panos (outrora brancos) pretos nunca foram trocados e demonstram a sujidade do
luto e da dor, teus olhos ( negros como café ginga ) vermelhos de tanto
chorar, escancaram o sangue derramado na obstinação de guerra, a tua boca
seca ( de tanto sofrimento ) outrora carnuda com sorriso inocente hoje
silencia porque teus filhos ignoram o porque que teu marido nativo lutou
secularmente contra opressão e a injustiça social, podados de ambições
inutilmente matam-se uns aos outros e cicatrizada pelos rumo de sua vida
ilibastes de trauma ou trombose porque seu corpo sofrido é forte e no teu
coração carregas a esperança idosa que são sonhos de liberdade,
felicidade, fé , amor e sobretudo de paz.
Ah
já não vais a tonga nem a lavra mãezinha porque teus filhos esqueceram de
plantar comida agora plantam minas e ódio para te mutilar, em vez de chuvas
para irrigar seus campos caiem bombas e mísseis , transformando o suor do
trabalho camponês em lagrimas e sangues e deixaram teus netos desamparados na
rua e sem respeito pêlos teus fios brancos de cabelo agora te chamam de África
em vez de mãe, porque não foram na escola , os mesmos colonizadores que
levaram seu marido corrompem seus filhos e os obcecam com suas riquezas, você
as vezes fica parva e dentro de sua ignorância se pergunta erroneamente:
Se antes meus netos fugiam do kuata - kuata para não irem longe
trabalhar como escravos, porque eles agora juntam dinheiro fogem daqui e vão
trabalhar lá, porque?
Você
as vezes choras com os olhos secos e gritas sem voz " que mal fiz eu
ngana nzambi ( deus ) para tanto sofrimento, tanta dor, tanto sangue, se fiz
alguma coisa de errado me diz mas não faças mais meus filhos, meus netos e
bisnetos sofrerem " estas palavras ecoam no silencio, porque sua patroa
Europa e sua madrasta América fazem ouvidos de mercador e vista grossa e se
divertem com o desespero desta pobre senhora que os tornou rica, como quem diz
" ela que se vira ".
Hoje
é seu dia mãe , tenta reunir e unir seus filhos e os trazer a luz da verdade
, conta os seus sonhos de amor, de paz, de liberdade, felicidade, mostra-os
neste dia que somos ricos que se nos entender-mos não vamos pedir esmola nas
ingratas da América, Europa, Ásia para podermos comer, mostra aos teus
filhos que em vez plantar-mos minas o nosso chão é rico e da tudo que a
gente quiser plantar, as nossas florestas não podem ser palco de guerra,
porque nossa fauna e flora são inigualáveis no mundo, o dinheiro que teus
netos compram armas para nos matar-mos , você me contou que serviria para
comprar-mos, enxadas, catanas, maquinarias, cimento, sementes e fazer de o
povo estar orgulhoso de ter teu sangue nas veias mãe, os litros de sangue
derramados futilmente doaríamos para nossos irmãos que precisassem, com o
nosso ouro , petróleo, cobre, diamante, ferro, fosfato, zinco, etc., etc.,
construiríamos escolas, faculdades, hospitais, jango para nos reunir e
debater as nossas makas ( problemas), ensinávamos também lá e a volta da
fogueira a tradição que o avô deixou na sua biblioteca oral e aprender
tambem as inumeras linguas maternas que herdamos de nossos ancestrais.
As
nossas águas fluviais irrigavam nossos campos agrícolas sim mãe, as tuas
costas não têm so tranças bonitas que tua neta natureza te fez, tem
cascatas lindas e um mar fértil em peixe que dividiríamos entre suas filhas
mais pobres do continente casadas com homens pobres, porque elas são puras e
so tem respeito e amor no coração, dinheiro não importa você os educou
assim, as tuas ancas são lugares turísticos muito apreciadas que teus
bisnetos de certeza adorariam e se encantavam ao conhecer e fariam ciúmes
dos olhares maliciosos e com má intenções daqueles que so te deram filhos
mulatos.
Ah
mãe África como você é tão bela e ao mesmo tempo tão sofrida, mulher
negra sonhadora, gostosa de se ver, linda de norte a sul e do leste ao mar,
como queria me perder nas tuas curvas !!!! e com seus beijos me embriagar de
tanta felicidade, soltando gemidos dóceis de prazer, os teus seios parecem
maboque sempre duros e saborosos amamentando teus netos , não queria falar
mas com todo respeito olha ,tua pureza ainda enfeitiça o branco que não tira
olhos de ti e continua te explorando economicamente, esse teu corpo cansado
com as vicissitudes da vida ainda arranca aplausos a assobios pelas
passarelas, a tua ginga com esta bunda empinada será a herança das tuas
netas, as tuas pernas longas e coxas bem formadas tem ganhado fama e prestigio
pelo mundo.
Mamãe eu seria capaz de me apaixonar todos os dias por ti, sou teu fã
mantém esta esperança viva em seu rosto que um dia tudo vai melhorar, que um
dia tudo que você me falaste salivando de tanto cansaço acima como seu sonho
um dia ira se realizar podes crer.
Mãe Africa você é o amor mais importante da minha vida, te cuida.
Vagabundo
by-Caio Lucas
Sou amante vagabundo,
um sem hora para amar,
não que sou caso perdido,
prefiro ser bandido,
louco desvairado,
amante certeiro
e não de amor dado.
Não tenho nada de informal,
quero é ficar,
sou do amor nada sério,
escrevo dentro de corpos,
sou a coisa maluca da paixão,
um errado que ama ao contrário,
tente, me conserte se capaz.
Me hospede sem medo,
garanto fazer bagunça no peito,
não cumpro os tratos feito,
minha idade tem ver com séculos,
sou meio vinte e quase cem,
sou o mais velho vagabundo do amor,
ainda assim o moleque romântico.
Quero som de romance e de rock pesado,
sou um perfeito bagulho de orgulho,
preciso de tratamento, de razão,
não quero ser jogado e sim achado,
coloque no seu peito este eu louco e vagal,
não me leve a sério, sou assim como quero.
Autores Africanos,link :
http://pintopc.home.cern.ch/pintopc/Meus_Links.html
Mulher
Rosa Pena
Cansei de ser
sensata
comedida,
controlada.
Que seja só por um dia,
quero ser a personagem de um thriller!
Vontade de infringir!
Fugir!
Sentir frenesi!
Quero hoje me lançar..
Amanhã, ora amanhã
Volto pras prendas do lar.
Henrique
Abranches (Angola)
"Ao Bater da Chuva"
A porta fechada é uma
obsessão.
As vozes caladas em
torno de nós,
as pausas alongadas em
silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade
do tempo interrompido
dentro da casa que
arrombaram ontem,
no coração da aldeia
do Mazozo.
A chuva cai em bátegas
doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
As mulheres já
choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou
o coro.
Esvaem-se agora em
surdina muda,
que agudiza o bater da
chuva.
Os homens dizem de
quando em quando
um nome obstinado.
Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.
A chuva matraqueia
ainda e sempre
na porta fechada como
uma obsessão.
Como ela nos lembra o
som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som
da metralha,
que dia após dia
desce o morro da
Calomboloca
e bate naquela porta
fechada,
obsecada de protecção!
A gente conhece o som
da metralha
quando ela vem no fim
do dia.
Quando ela vem,
silencia a aldeia,
então, em sobressalto,
o povo diz:
- Foram fuzilados...
E ninguém sabe do
Infeliz,
aquele rapaz que
levaram ontem...
************
Vivo da poesia.
Por vezes,
torno-me ela própria.
E sigo sempre olhando o
horizonte.
Que o horizonte é improvável,
inatingível,
misterioso.
O horizonte é o destino
meu.
É o destino
da
poesia.
Lina.
nos Cadernos
"Diálogo" alguns autores desconhecidos do grande
público tiveram a oportunidade de ver trabalhos seus publicados.
Tal é o caso de Adriano Alcantara:
A utopia dos olhos escancarados
*******************************
" Se num momento de loucura
acaso arriscares acima do tédio
e afoito sozinho dobrares
a agreste solidão da esquina dos dias,
poderás então entrever
por entre as brumas do tempo
a imensa multidão e o verde prazer
das tuas mais urgentes utopias.
Se depois com ardor escreveres
- ridícula como o poeta a dizia -
uma simples carta de amor
cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor
sinceros significados tão prementes
que a ouro fiquem bordados
no seio nu das palavras inexistentes,
imune farás tombar do muro os pecados
com que este presente impune
procura sarcástico esconder-nos o futuro.
Se porem impossível te for
a sangria das palavras a sério
e ao cansaço sem outra saída
com fúria não conseguires opor
a beleza dum punho bem apertado,
arrepia caminho e não ouses.
Nunca ouses monstro malfadado
dobrar a esquina deste tempo
de cobardias prenhe e silêncios cheio.
Porque só o amor mata a hipocrisia
e reconhece os homens iguais
porque para além deste dia
só de olhos escancarados se sonha a utopia."
*********
Meu Grito
Angela Lara
Hoje me deu vontade de gritar
bem alto
minha saudade
minhas mil fases de desilusão
Só hoje eu queria te falar sobre tudo
...por onde andei
...o que senti
o tanto que me esvaziei
Queria poder dizer
olhando dentro dos teus olhos
o quanto eu morri por dentro
o quanto eu te chamei
e você, em nenhum momento
pensou um minuto no meu sentimento
como se tudo fosse uma brincadeira
como se não valesse a pena
Você sabe que compreendo tudo
você sempre soube
Mas hoje
especialmente hoje
preciso desabafar
quero gritar minhas inverdades
sujar esta compreensão milenar
e ao mesmo tempo
te mostrar mais uma vez
que não me encontrei em nenhum abraço
que nenhum olhar me disse nada
que nenhuma boca me provou coisa nenhuma
que nenhum coração me mereceu
que nenhum contato real me fêz sentir viva
que nenhuma palavra atingiu minha alma
e nenhuma promessa
foi tão verdadeira quanto a tua
Porque na verdade
nada e nem ninguém me interessa
Porque na verdade
morro de saudade do teu carinho...
Costa
Andrade (An)
"Mãe-Terra"
Terra vermelha do Lépi és minha mãe
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das
espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha
negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em
gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos
muxitos
e ás
mulembas velhas
a
superfície larga do barro
do
corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
*************
Todos temos defeitos
Porque os não tens (!?!?), não
te aponto defeitos.
Pra ti, já chega ser boa
pessoa.
Então, porque vivemos
contrafeitos?
A ti, não te dói nada que a
mim doa?
Dia após dia, recebo
alfinetadas.
Instala-se a
incompatibilidade.
Nós somos duas almas
separadas
que vivem juntas, com
dificuldade.
Insistes nessa tua convicção.
Achas que ser amigo é dar
apoio,
tapa nas costas e aperto de mão.
Mas, deves separar trigo de
joio.
Pra mim, homem amigo é quem
ajuda
na tarefa diária que me pesa.
Nem escrava, nem criada. Vivo
muda
pra quem o meu trabalho
menospreza.
Na derrocada daquele pedestal
em que te coloquei anos a fio,
em nós, vejo um casal quase
normal,
que nada construiu. Só há
vazio.
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26/04/2003
Laura B.
Martins
Mário
António, Angola
Uma Negra Convertida
Minha avó negra, de
panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de
panos escuros
que nunca mais
deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha
tradição
dos cazumbis, dos
quimbandas...
Não xinguilas, no
obito.
Tuas mãos de dedos
encarquilhados,
tuas mãos calosas da
enxada,
tuas mãos que preparam
mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas
- ,
tuas mãos, ora
tranquilas,
desfilam as contas
gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o
brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes
que te segredam
saudades da tua velha
sanzala,
da cubata onde
nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras
do quimbanda,
dos sonhos de
alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se
pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
*****************
Acróstico 020 - Incrédulo
Incrédulo és, pois, que não
aceitas
Nunca este meu amor que te
ofereço
Com provas que são feitas de
palavras
Reais e não com luxos de alto
preço
É aceitável esta tua cega
desconfiança
Depois de tantas que vieram em
assaltos
Ultrajantes ao amor, mas não
sou dessas.
Leva ao amor uma dose de fé que
eu te fio
Os bons sentimentos como áureas
peças
Francisco Libânio
HELIODORO
BAPTISTA
(Moçambique)
Como um cão
Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.
Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal te'nue.
Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memo'ria
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.
(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)
Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.
Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança.
(Ontem já foi passado
e o minuto que vem
já é futuro).
*********
Amor Sem Fronteira
Mônica F.Camargo
O amor que não tem fronteira
Consegue alcançar estrelas
Montanhas é capaz de mover
Barreiras faz desaparecer
Chega sem muito avisar
Nem indaga se pode ficar
Sente-se livre podendo voar
Até consegue às vezes voltar
Nada o impede que sonhe
E mil castelos possa erguer
Nas venturas que deixa viver
Secretos sonhos faz acontecer
Com encanto seu esplendor seduz
Divino poema ao coração conduz
E alma inebriada pela sedução
Se rende ao fascínio da emoção
Carinhos e beijos enternecem
Amor destemido se faz sentido
Insistindo adiante pode amar
E ao êxtase sublime alcançar
Amor
Sem Fronteira
Aliada
Me faz por Inteira
"O
HÚMUS DO HOMEM NOVO
A Cláudio, meu filho
Não quero que vejas
nem sintas
a dor que me amargura;
Não quero que vejas
nem virtas
as lágrimas do meu pranto.
Deixa que eu chore
as mágoas e as desilusões;
deixa que eu deambule;
deixa que eu pise
a calidez do chão desta terra
e o regue até com o meu suor;
deixa que me toste
sob este sol inóspito
que me dardeja o lombo sempre arqueado...
Este penar
é o resgate da esperança
que em ti alço!
Este penar
é a certeza do amanhã que vislumbro
na tua ainda incipiente idade!
Não quero que vejas
nem sintas
o meu tormento
ele é o húmus do Homem Novo."
*************
TRAJETÓRIA
(Marineide Miranda)
Nunca vamos conseguir esquecer o prazer
De um grande amor vivido...
Nem nos mudarmos em outros...
Tivemos um modo de sentir pleno
É quase como viver uma vida em alguns instantes...
Esta vida vivida continua em nossa memória
Gravada como em um disquete eterno...
Que podemos modificar... Mas ele continua ali
Desafiando outros perigos... Outras procuras...
Podemos mudar o inverno para o verão
Mandamos a primavera para o inverno...
O outono transformamos em amor...
O amor em qualquer coisa semelhante à amizade
O acaso, destino é ceticamente... Nada!
Uma sorte brincar com formas, conteúdos, palavras,
Sem regras, sem idas, sem voltas, sem esperanças vãs...
Suspiro! ...
Pois
não acredito em amor com hora marcada para acabar...
Acredito em amor que se estende, amolda-se, elastece.
Para chegar em algum lugar... Mesmo que jamais cheguemos!
Não gosto de amor migalha... Esse tipo de amor não existe...
E se alguém acredita em sua existência...
Deve sentir um calafrio na alma sempre que pensa em amar...
Nenhum ser humano deve desporjar-se dos sonhos,
Jogar palavras pelos ares e não se sentir infeliz...
O amor tem que colocar paisagens em nossos olhos
Lindas, coloridas, esplendorosas, não asfixiantes...
Amar é um prodigioso alucinógeno,
É uma poderosa válvula de escape.
Para que vivamos como seres humanos sinceros com a gente mesmo,
Sentindo o prazer de não matarmos o já vivido, o existido...
Que continua aqui se não o despejarmos como a um inquilino...
A quem não queremos mais morando em nossos corações.
Extermina-lo seria matarmos o vivido, o dado, o recebido, o sentido...
Sentir e viver... Quase a mesma coisa...
Mas se a memória quiser que os matemos...
Matemos o amor e os sonhos e teremos o esquecimento...
Transmutamos o que massacramos para virarmos outros...
Viveremos outros perigos de mudanças...
Sofreremos o estio no inverno,
A falta de flores em plena primavera...
Conseguiremos transformar o amor em dor...
E acharemos que o acaso... É o caso... É o destino...
O amor morrer! Será?!?!?
RUY
DUARTE de CARVALHO
(Santarém, Portugal, 1941-)
Radicado em Angola
CHAGAS
DE SALITRE
Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roidos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.
Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.
Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.
Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.
Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.
(Chão de oferta, 1972)
***********
É O SONHO QUE ME
LEVA!
Maria Petronilho
JÁ ME VOLATILIZEI
NO ÉTER ETÉREO.
PAIRO COMO ORVALHO
PELAS ROSA CRAVOS E ERVAS
ME DISPERSO.
QUE NÃO ME FALEM
DE BARREIRAS
NEM DA INCONVENIÊNCIA
DE ME ACHAR DISPERSA
EM SUSPENSAS GOTÍCULAS
DE BREVIDADE.
NÃO CONHEÇO PAREDES
NEM TELHADOS.
PAIRO INDISTINTA
ONDE A NUVEM ME SEMEIA
LARANJEIRA, CEREJEIRA
NÃO CONHEÇO AS CORES
MAS OS AROMAS ESPALHADOS
QUE A VIDA ESPELHA.
NO AR VAMOS
DO AR SOMOS
ESTAMOS TÃO LONGE
DA REALIDADE CRUA
E AINDA TÃO PERTO
DA TERRA NEGRA!
HOJE E SEMPRE
É O SONHO QUE ME LEVA!
Na revista Lua Nova, número 4, página 20, de Mia
Couto:
GOVERNADO PELOS MORTOS (fala com um descamponês)
"... - Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmo se
tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser
vivos. Só para poderem pedir a alguém.
- E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos
retirados?
- Foram. Nós só ficamos com o descampado.
- E agora ?
- Agora somos descamponeses.
- E bichos, ainda há aqui bichos ?
- Agora, aqui, só há inorganismos. Só mais lá, no mato,
é
que ainda abundam.
- Nós ainda ontem vimos flamingos...
- Esses se inflamam no crespúculo: são os inflamingos.
- E outras aves da região. Pode falar delas ?
- Antes de haver deserto, a avestruz pousava em árvore,
voava
de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, há nomes que eu
acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser
consertado. A
flor é que levaria o título de beija-pássaros.
..."
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JOSÉ CRAVEIRINHA
(MOÇAMBIQUE)
A BOCA
Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.
Alva dentadura
antónima do riso
às escâncaras desde a cilada.
Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.
(Babalaze das Hienas, 1997)
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MARIA
ALEXANDRE DÁSKALOS
(ANGOLA)
No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval.
(Do tempo suspenso, 1998)
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MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
(ANGOLA)
No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval.
(Do tempo suspenso, 1998)
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Parem!
Pensem!
MariaTherezaNeves
Parem
!
Pensem
!
nas mãos calejadas
que tocaram a terra
floresceram cores
plantaram esperança
!
Nas Raízes
que escavaram
f
u
n
d
o
Nas 4
estações
so-pran-do ventos
sorrindo sois
Enfeitando
pomares
desabrochando Primaveras
!
refloresçam o planeta
esqueçam as guerras
paralisem o medo
arrisquem no sonho
na PAZ-Esperança!
na terra-coração
no HomemEmoção!
Juiz de Fora, 26 de abril de 2003
Maria Thereza Neves
Música: Sonata
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