HojeAconteceuLunas!

&

Hilda Hilst

 

Por sugestão do Plínio Sgarbi  vim a conhecer Hilda Hilst !

Amei de paixão esta jovem de 72 anos!
Esta POETA /Dramaturga  de primeira grandeza
e fiz este Acontecer entre Poetas Lunas !
Optei por mais links e falas de poetas
 para melhor conhecimento  desta  mulher guerreira!
JF/ 15  /fevereiro/2003
Maria Thereza Neves
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nasceu em Jaú, São Paulo, aos 21 de Abril de 1930. Em 1948, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), formando-se em 1952. Em 1966, mudou-se para a Casa do Sol, uma chácara próxima a Campinas (SP), onde ainda reside. Ali dedica todo seu tempo à criação literária.

Poeta, dramaturga e ficcionista, Hilda Hilst escreve há quase cinqüenta anos, tendo sido agraciada com os mais importantes prêmios literários do país. Participa, desde 1982, do Programa do Artista Residente, da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.

Seu arquivo pessoal foi comprado pelo Centro de Documentação Alexandre Eulálio, Instituto de Estudos de linguagem, IEL, UNICAMP, em 1995, estando aberto a pesquisadores do mundo inteiro.

Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, italiano e alemão. Em março de 1997, seus textos Com os meus olhos de cão e A obscena senhora D foram publicados pela Ed. Gallimard, tradução de Maryvonne Lapouge, que também traduziu Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.



 
 
 
 
 "Com As Aves da Noite pretendi ouvir o que foi dito na Cela da Fome, em AUSCHWITZ. Foi muito difícil. Se os meus personagens parecem demasiadamente poéticos é porque acredito que só em situações extremas é que a poesia pode eclodir VIVA, EM VERDADE. Só em situações extremas é que interrogamos esse GRANDE OBSCURO que é Deus, com voracidade, desespero e poesia."

Hilda Hilst

semillas de la inmensidad
               Plínio Sgarbi

semillas de la inmensidad
en las palmas de nuestras manos
plantando simplemente
deseos seres mentes
sueños pasión

y... de las raíces hincadas
por las razones
de los vientos verdad presente
a los medios
desatinados
cómplices recelos
expresos delirios
vidas que sienten
cosechas ideales destinos
fusión de cuerpos y corazones
a los fines vuelos placeres crecientes

Rosa Desfolhada

delasnieve daspet
 
 
Quero voar.
Quero sair de mim.
Quero não me preocupar
Com o mundo que me cerca.
 
Quero ter coragem.
Coragem de rasgar.
De quebrar.
De reiniciar.
De encher de vozes o vazio.
De dobrar em laços as recordações.
 
Quero derrubar as sombras.
Do profano ao sagrado,
Santificar o profano!
 
Quero não me preocupar
Com a vida.
Quero amanhã
Sonhar  como hoje.
Quero não fazer o que é preciso.
 
Quero apenas voar.
Como as borboletas.
Como uma rosa,
Desfolhada,
Com pétalas voando,
Voando - com a força
Do meu querer,
Pequeno beija-flor!

 

EU TENHO UM SONHO

Moacir et Selena  

 

Eu tenho um Sonho...

Pode ser, talvez, bisonho.

De não ver ninguém tristonho,

Sem nenhum destino medonho.

 

Eu tenho um Sonho, talvez...

De ver o mundo sorrir outra vez.

Sem distinção da cor da tez.

Sem orgulho, sem altivez.

 

Eu tenho um Sonho, ainda...

De ver a Natureza linda

Inundar-se de Luz infinda

Na espera da Paz bemvinda.

 

Eu tenho um Sonho, real...

De compor o soneto ideal,

De ver a amizade leal,

De aguardar o suspiro final.

 

Eu tenho um Sonho, sim...

De cheirar rosa, jasmim,

Nas Tuas mãos em mim.

Do Teu Amor sem fim. 

Poema de Carlos Drummond de Andrade

para Hilda Hilst

 

Abro a folha da manhã

Por entre espécies grã-finas

Emerge de musselinas

Hilda, estrela Aldebarã.

 

Tanto vestido enfeitado

Cobre e recobre de vez

Sua preclara nudez

Me sinto mui perturbado.

 

Hilda girando boates

Hilda fazendo chacrinha

Hilda dos outros, não minha

Coração que tanto bates.

 

Mas chega o Natal

e chama a ordem Hilda.

Não vez que nesses teus giroflês

Esqueces quem tanto te ama?

 

Então Hilda, que é sab(ilda)

Manda sua arma secreta:

um beijo em morse ao poeta.

Mas não me tapeias, Hilda.

 

Esclareçamos o assunto.

Nada de beijo postal

No Distrito Federal

o beijo é na boca e junto.

 

Onda

Rosa Pena

Difícil está de entender o mundo...mais difícil está, deu me entender.

 Particularmente, sinto-me uma pessoa honesta e generosa.
Adoro alegrias compartilhadas, mas tristezas, isoladas.
Tenho algumas características que por vezes incomodam,
para alguns quase um defeito.
Uma delas é de tentar não sucumbir a depressão.
Sinto quando ela vai chegando de mansinho e busco no cotidiano,
situações que me lembrem um sorriso.
E me seguro nelas.
Mas tenho outra característica, que maltrata a mim própria.
Vou do riso ao pranto, rapidamente.
Hoje em 60 minutos, chorei, sorri e novamente chorei.
Se sentir que machuquei alguém, a ferida dói mais em mim.
É Rosa Pena, fecha o micro e dá um tempo..
Amanhã, quem sabe, teu choro secou... teu riso voltou.
Depois, tudo recomeça... como uma onda.

ANJO ALEIJADO

Sonia Pallone

"...Escrevo-te em desordem bem sei.
Mas é como vivo... Entre achados e perdidos.
Ao escrever lido com o impossível...
Com o mistério da natureza.
 E de Deus.
Quem não sabe o que é essa força poderosa
 nunca poderá entender.
Não tenho medo do fracasso,
ele pode até  me aniqüilar.
Dar-me a glória de cair.
Sou um anjo aleijado que se esquiva desajeitado...
Um anjo que caiu do céu para o inferno
E hoje vive trapaceando o mal..."O
Ode à Vênus Plena
(LHenrique Mignone)



Que importa se o vítreo cromo em sua frieza refletiva,
No presente, não mais te apresente, como no passado,
Com o brilho com que te vias durante distante juventude?
Mira que teus olhos, não mais em deslumbre, mas reflexiva,
Brilham intensamente por este amor vivido, não sonhado,
E os meus, quando os encontram, também brilham amiúde.

Se em teu peito o coração bate em suave ritmo compassado
E se acelera progressivo, não mais como antes, de repente,
Creia-me, assim o prefiro, por senti-lo e sabe-lo constante,
Não mais como mero devaneio, mas porque hás encontrado
O homem amado que acolhes em teu seio, que ocupa tua mente
Não só agora, mas eternamente, por toda vida, a cada instante.

Se tuas curvas, hoje mais suaves, quase que beleza retilínea,
Não mais têm o frescor juvenil que te dá saudade,
Tua rubra  rosa hoje exala o perfume que me inebria,
Como o bom vinho, que se faz melhor com a idade,
Pois tens o sabor e o sumo da fruta madura que me sacia.
 

Foz

no fim
teu rio
afluo


Alagado

às margens
de você
palafito-me

Eclipse

de esconde-esconde
brincam...
o sol, a lua e eu.


Ânsia

Espera-me!
Sou um sonho...
que ainda vais ter.


Árido

as águas deste mundo
não saciam minha sede:
preciso da tua chuva!


O (ap)ego

servir ou servir-se,
na relação de dois,
eis a questão.


Tento

Entregar-te minha alma
pra te dizer em gestos
o amor com que te amo

Talvez

todo dia
espero o dia
que não seja...um dia


Faxina

sob o tapete da saudade,
na sala do meu coração,
escondo lembranças.


Boicote

cheia
o sol deita
a lua levanta


Minimidade

Separas as gotas do mar?
Do deserto os grãos de areia?
Então creia: te amo!


Mãe

Abraça-me...Conchega-me a ti!...
Dize-me ainda:
"Deus te abençoe!..."


Dreyf

Transmutação 

 Cristina Pilan Oliveira

Amparada por um braço de mar...
Ensaio um canto com os golfinhos.
Aconselhada por sereias.
Vejo meu futuro em uma pérola...

Mergulho mulher.
Renasço para o céu.
Arcanjos ditam-me as normas...
Apenas amor, amor e amor...

Em minha imagem refletida.
Vejo a face de um anjo.
A seda das asas 
em carícia pelas costas.
No livro do meu destino, 
a caligrafia da luz.

Embalada pelas ondas.
Encorajada pelos pássaros.
Aprendo a voar...

 

 

HILDA HILST, Adorável Transgressora



 O Brasil, berço pródigo de grandes nomes masculinos na literatura (Machado de Assis, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Jorge amado, Caio Fernando Abreu), gerou também , mulheres de reconhecido talento literário. Elas, por vezes, tornaram-se sinônimo de polêmica e controvérsia, sem deixar de lado a qualidade de sua produção literária.

Hilda Hilst é uma destas expressivas mulheres, ao lado de figuras como Lígia Fagundes Telles, Nélida Pinõn, Marina Colassanti e Clarice Lispector, dentre outras. Mas com certeza, Hilda Hist encabeça a lista das grandes escritoras brasileiras que em sua trajetória, amealharam pechas e adjetivos por vezes perturbadores.

 
........
Nos sentiremos “invadindo” a intimidade tão peculiar da grande mulher, através do contato com seu livros, obras de escritores que admira e que a influenciaram, cartas de amigos ilustres e fotos. Ouvindo o latir de seus inúmeros cães, o barulho da água em sua casa, observando alguns objetos pessoais. Nos sentiremos “invadidos” pelo rico conteúdo do universo da escritora, adorável e transgressor. Uma dança dialética justa, na medida certa.
Nobre reconhecimento à mulher, à escritora, à brasileira talentosa Hilda Hilst.
Antes tarde do que nunca !

Texto: Jair Marangoni

HABITANTES DE MIM
Jane Lagares


Conheço( e desconheço) várias mulheres
que habitam em mim...
cada uma com uma cara diferente,
com um querer diferente,
Com uma cor também diferente.
Existe em mim, a mulher calma,
serena, como brisa que é bálsamo.
A outra?
A mulher brava que se faz mar inquieto,
que se faz corredeira.
Existe a mulher tão amorosa,
em vários segmentos do amor.
A outra?
A mulher que teve que aprender a não amar.. Fizeram-me assim.
Existe em mim a mulher amiga,
que se dá,
que escuta,
que compartilha viver.
Habita também, a mulher do cio de vida,
da fêmea em busca do prazer.
que fala, que se permite,
que perde a linha,
que desalinha...
Que mulher sou eu, enfim?
Muitas.
Assim como você.
Habita em mim, como reflexo do céu,
a mulher lua..
Tão cheia e bela,
tão crescente e encantadora,
tão minguante e triste.
De repente ,nova lua se faz,
renascendo.
Existe também a mulher sol,
única, brilhante, que emite raios,
que aquecem,
que queimam,
que clareiam,
que amanhecem.
Existe a mulher céu,
tão azul quanto o dia da mulher sol.
Tão negra quanto a noite da mulher lua.
Tão infinita quanto o céu das duas.
Habitam em mim todas as formas,
todas as histórias,
todo o viver,
todo o ser:
Mulher.

DEVANEIOS

Melliss

"...Penso nas longas noites de nós dois,
quando as marés rendilhadas exibiam a luz do luar
e as estrelas vaidosas desfilavam contas cintilantes
pela imensidão do azul ...
Penso nos teus olhos boiando nos meus,
tuas mãos navegando em mim
teus lábios provando meus beijos
teus sonhos tecendo meus desejos,
nossas vozes sussurrando emoções incontidas,
nossas vidas erguendo um templo de carinhos...
Penso em ti , penso em mim,
viajo entre alamedas de ilusões floridas
perfumadas pela saudade de um tempo que se foi ,
onde estivemos nós
e onde estamos sós
porque se o amor não resistiu ao tempo
era somente uma ilusão,
era querer , era paixão,
e nada mais..."
 
 
MASTRO & MAESTRO
Celito Medeiros
 
Amor de consumo
Eu te proponho
Trepo e ponho
Tudo.
 
De todas as maneiras
Assim deste jeito
Tudo bem feito
Agora.
 
Desejo imoral
Se pareço animal
Não importa
A cena.
 
Sonho sem fim
Assim tu em mim
Cobertura perfeita
Encaixa.
 
Gostosura danada
Toda macia embolada
Coxas sobrepostas
Latejam.
 
Um ato consumado
Este amor danado
Rompe o silêncio
Gozo final. 
 
Curtindo
Ser  homem
as vezes cansa
ser gente
enche a alma
de esperança
leva para longe
coisas
que fazem
a vida pequena
faz-me menos
violento
deixa a alma
mais serena
 
A vantagem
da inocência
e que ela
nutre
a esperança.
 
Cosmo Palasio de Moraes Jr.
15/02/2003

 

Ordem do Mérito Cultural

Hilda Hilst

1997

A quem possa interessar

LianeNiremberg

Nada mais a escrever

Nas linhas as palavras não se encaixam

Sempre as mesmas expressando o mesmo sentir

Escrevam vocês poetas

Mas por favor falem da lua, das estrelas

Falem da esperança, da alegria de ser

Se quiserem falem até do amor

Da fraternidade, do bem ou mal, da fé ou o que se equivale

Mas continuem a escrever afinal palavras perduram

Apenas deixo sim essas lágrimas teimosas

Inconformadas acordadas que foram

Fora de hora não queriam comparecer

Também não importa mais

Importam sim as linhas pois elas irão permanecer

Cantem bem altas as suas verdades

Mas as suas próprias não somente as do poeta

Que existe em vocês

Cantem ao menos uma vez para que eu ouça

E assim talvez compreenda

Um pouco só desse além névoa que a mim chegou-se

Fazendo-me emudecer

Descansar nos braços  do amor
Josemir tadeu
 
 
 
Sublime descanso.
Pouso de vôo.
Dourado remanso,
onde o silêncio impera.
Comanda...
Os corpos relaxados.
Entregues, extenuados.
Por tantas e tantas,
horas de amor.
Extases que viabilizam,
aos segredos viscerais,
travestirem-se de cantos.
Anunciando o sagrado momento,
em que o amor se faz majestade.
Dono dos segundos,
dos momentos.
Repouso.
Colados um ao outro.
Como melodia e verso.
Corpos que se fazem fluidicos.
Pois que perspassaram,
a orla limitada,
do orbe visível.
Momento indescritível.
Sensação intangível.
Pra quem não ama.
Mas completamente aberto,
aos que não se ocultam nos desertos,
da solidão imposta.
Despertar após amar,
de forma completa e plena,
no sentido de igualar corpos e almas.
É como se fosse o nascer do sol,
numa região secularmente escura.
Uma alegria só,
uma festa onde o que se posta.
É o que realmente importa.
Independente se seja voce,
ou que seja eu.
Pois que agora,
somos nós...
 

Impressões de Fernanda Guimarães

No silêncio dos lábios
O pensamento busca no olhar
A margem acessível
A palavra possível
Que me leve até mim

Nem sempre me vêem
As planícies ou lagos plácidos
Vejo-me também no inexato
Na escarpa, no sal, na bruma
Que me refazem os passos, o olhar

Vive-se outrossim, no incerto
Na imprecisão do que se pensa saber
À guisa de alguns ventos
Porque seguir em frente
É muitas vezes ter que retornar

Sinto-me no difuso, no indefinido
No espelho baço que acha refletir
O rosto que nem sempre me reconhece
Viver talvez seja não bastar-se
Ser incontido, sonhar e delirar
Mesmo se só nos resta
A memória da esperança...

Vida, que esse fio de aço nunca se estilhace, liga-me ao teu nervo..."

Hilda Hilst está lá pra quem quiser ver. Se você nunca ouviu falar dela, não se preocupe, é normal. O Brasil não fala em Hilda Hilst. Por que, eu nunca vou entender. Eu soube dela por amigos que, aliás vou passar o resto da vida agradecendo por terem me falado sobre ela, por terem atiçado minha curiosidade a respeito da maior escritora do Brasil. Sim, se não for a maior pra você, será com certeza "uma das". Dê uma olhada em "Cascos e Carícias" ou então, "Estar sendo, Ter sido". Até 4 de fevereiro de 2001 você poderá ver, ouvir, sentir e respirar Hilda Hilst na Área de Convivência do Sesc Pompéia em São Paulo.

QUEM
 
Elane Tomich
 
Quem perverteu a sina
 Da minha rotina
E que sem receios
 Ordenhou meus seios?
Quem descobriu a fonte
Água dos meus montes
E se alimentou
 Da própria semente?
 Quem me chamou do céu
Com a razão doente
 Me desfez o véu,
De um verão -inverno 
No mesmo lugar 
Me deixou, deixar?
Quem me deitou na grama
Levantou-em a saia
 Rasgou-me a cambraia
Me rolou na lama
 Qual lençol de linho?
Quem,  invasor de mim
 Permiti o assalto
Me  rasgando sins
 Me rolando em ninhos
Em ais me engasgava?.
 Quem me grilou a terra
 Morna e mansa guerra
Trincheira na serra
Luta de sentidos?
Quem  no meu segmento
Plantou o alimento
Que me sustentou?
Quem me deixou parada
Olhando a estrada, 
 Sem remorso ou dor
Com alma rasgada, 
 Desejando quem, 
 Fingindo desdém
Suplicando a dor
Na mesma empreitada? 

Corpo e Espírito

®Rick Steindorfer


Sou filho do universo infinito
e nada na vida me limita
pois vivo ligado ao Mestre
Dele jamais me aparto
pois é Ele que me esclarece
as minhas dúvidas e questões.

Sou atemporal e ilimitado
a nada pertenço e nada sou
caminho pelo tempo e espaço
mas a eles não me ligo
pois a minha consciência
está ligado ao alto.

Sou a força do amor
e cubro todas as distâncias
nada temo e jamais me perco
sou eterno em mim mesmo
e sou o meu próprio futuro
por que sei quem eu sou.

Só saudades...

Myriam Peres

 

Se me sinto em solidão

Que nada me acalma a razão

Procuro em meu coração

Os teus beijos na emoção...

 

Se sinto um dia ao alvorecer

Ânsias imensas de te rever

São as saudades de ti, meu bem querer

Que abrasa ainda o meu viver...

 

Saudades desesperadas

Saudades de quase nada

Que um dia aconteceu

Saudades escravizadas

De um  mundo que era só teu...

 

Saudades que discriminam

Saudades que só fascinam

Todo meu acontecer

Saudades que me alucinam

Que me envolvem só pra te ver...

 

Saudades do muito que ofereci

Saudades do que não pedi

Só saudades desesperadas

Que sinto muito de ti...

 

 

 

 

Fui a esta exposição que comemora os 70 anos de vida muito bem vivida da poeta sorridente e iluminada e voltei completamente extasiada. Desculpe, leitor, mas este texto é sim, um lambe-saco explícito, para a poeta, dramaturga e ficcionista brasileira que o Brasil não conhece, mas deveria.

A partir de "Presságio"- o livro publicado em 1950 até os dias de hoje - tudo na Mostra te leva pelo universo da Hilda e resgata as mesmas sensações que ela provoca em seus escritos.

Guerra e Paz
(Neli Neto)
 
Pronto! Agora é sério
Não se trata mais de um jogo
de brinquedos informatizados
com exércitos de ficção.
Um mero programa virtual de guerra e paz
onde inimigos são grandes amigos
e que só pensam,
em se derrotar uns aos outros
para se ganhar a partida
continuando em irmandade, união.
 
Hoje a ameaça é verídica...
Chegando incontinenti, de pronto
cercada por um raciocínio ilógico
comportamentos incoerentes
que não aceitam desculpas
mutilando nossas mentes
destruindo uma história
por só querer ver resultados.
 
Calcada por uma vingança
imbuída de muito orgulho
e uma terrível vaidade
ela está ali pronta,
frente, aos nossos olhares
como um veneno mortal
penetrando quase sem rastro
destruindo pouco a pouco
a seiva natural existente
da união entre os povos
dos desejos universais de paz.
 
Sem se preocupar com o mundo
com as vidas que serão ceifadas
com a destruição em massa
com os prejuízos iminentes
que cercam um continente
que cerceiam inúmeras nações.
 
Ela está lá firme e forte frente ao poder
desrespeitando apelos
se instalando no mundo
perturbando o sono de muitos
desagregando famílias
desesperando nações
detectada no medo
de ações e reações
tudo que pode ser
e é por demais prejudicial.
 
A guerra como uma doença iminente
se instala frente às nossas portas
imponente, frivolamente vingativa,
imposta por mentes insanas
um fanatismo doentio
marchando passo a passo
ensandecida pelo poder.
 
Não adianta que povos se unam
gritando coesos, pedindo clemência
ou marchando silenciosos
agitando bandeiras de paz.
Ela continua inalterável
sem sequer sair do lugar
como uma sombra sorrateira
chega mansa e bem faceira
causando um caos total.
 
Não é justo que isso aconteça
num mundo que só anseia crescer,
evoluir, entender,
aceitando as leis de Deus
desenvolvendo um amor aos seus.
Num mundo de pessoas inocentes
crianças, mulheres, idosos, doentes
que não tem quem possam lhes defender.
 
Vencer... Vencer... Vencer...
Sempre vencer.
Mas vencer o quê?
se todos somos filhos de Deus
se todos somos irmãos.
Se todos deixassem de lado
suas pretensões em conquistas materiais,
abandonando os preconceitos,
e abraçando com fé a humildade,
que é o verdadeiro caminho seguro
para a conquista da paz,
o mundo seria bem mais hospitaleiro
como uma grande e verdadeira familia...
 
Nossa fé inabalada
continuaria presente nas orações
sussurros coesos clamando por Deus
pedidos que iluminam todas as mentes
que lhes abrandem pensamentos
colocando sentidos na alma
amor em seus corações.
Que se faça surgir coerência
não nos abandonando ao léu.
 
Haveria um só desejo
em cada pensamento, em cada atitude,
o de se melhorar sempre
numa busca incessante
de entendimento, de aceitação
captando as energias emanadas
pela natureza ao nosso redor
a verdadeira morada de Deus.
 
E numa fé renovadora,
estaríamos todos as postos
unidos pela gratidão
refeita em todos os homens
numa alegria venturosa
sem máscaras, preconceitos
estendendo-se as mãos uns aos outros
à procura de bênçãos divinas
que seriam o bálsamo de todas as dores
o acalanto de todas as horas
o incentivo de todos os momentos
onde o enfraquecimento se fizesse presente
e um pensamento se apresentasse
perturbando a nossa alma.
 
Estaríamos libertos e unidos
envoltos pelo manto da paz
e cobertos por um grande amor.
Aquele amor que Deus lançou
em gotas de sabedoria ao mundo
no momento em que nos criou
para este mundo de luz habitar.
 
Que possamos nos unir sempre
numa corrente positiva,
afastando de vez a sombra doentia da guerra
que teima em nos acompanhar...
Que venha sem pressa e sem medo
A Paz!

Mirante IV

Nathan de Castro

Nas mãos dos meus sonetos delirantes,
as mandalas caminham lado a lado
com todas as queimadas que o passado
sabe arrancar das linhas do horizonte.
 
E nem mesmo os mistérios dos quadrados,
podem saber os fogos conflitantes
que escondem a poesia atrás dos montes,
para que o verso aprenda o seu legado.
 
A dor ensina a esfera da esperança,
girando as maçanetas das palavras,
e abrindo a porta aos passos de uma dança.
 
O vento do mirante bate as asas
de encontro ao infinito da criança
que mora em meu poeta de outras plagas.


"...e tudo é tão redondo e completo na hora da morte, pois aí sim é que estás completamente acabado, inteirinho tu mesmo, nítido nítido, preciso, exato como um magnífico teorema..."

A arquiteta Gisela Magalhães reuniu textos, fotos, objetos e histórias da Hilda. Brilhante! As pessoas precisam saber dela. As pessoas não precisam saber do filho do Ronaldinho, da plástica da Xuxa ou da mais nova banda de pagode... É preciso saber sobre a mais nova descoberta que eu fiz na literatura brasileira. Por isso estou aqui, contando sobre a filha de Apolônio, cuja vida inspira e alimenta a alma.

 
Somos
Iracema Zanetti
 
 
Poeta, és todo amor!
Dos olhos seca tuas lágrimas,
São elas que fazem minha pele queimar!
 

 Faça teus dias passarem ligeiros,
Da noite eu cuido...
 darei a ela o tempo que eu desejar!
 Aninharei-me em ti até a manhã chegar!
 
 
 À noite velarei teu sono
Em meus braços não terás pesadelos! 
Anjos te livrarão dos medos que te acompanham!
 
 
Sou tua poeta, tua amante, meu amor jamais se findará!
Inocente criatura, de mim não te livrarás, estás a mim ligado
pelas leis do Cosmo!
 

Não haverá despedida nem adeus!
Unidos seremos recebidos pelos céus,
abençoados pela eternidade a dentro!
 
 
Não me faças rir por tua ingenuidade!
Nossas almas unificadas serão luzes
a sorrir e a festejar o paraíso!
 

 Confessaste a verdade, porém não me citaste!
 Não guardarei mágoas por me esqueceres!
Porque sei que
Somos! Para sempre!
Cheiro da Terra
 
Fatima Dannemann 
 
O cheiro da terra
é de flor e de mato.
Cheiro verde
como tempero de salada.
O cheiro da terra
é de água correndo.
Cheiro azul profundo,
como as águas de um lago.
O cheiro da terra
é de bicho pastando.
Cheiro vermelho
de sangue pulsando
vida nas veias.
O cheiro da terra
tem mil perfumes
e muitas cores.
É feito de bicho e de planta.
É cheiro de terra, fogo, água e ar.
É cheiro de vida,
simples e ao mesmo tempo
intraduzível.


"Se não fosse a morte, quem sabe não teríamos o nosso sexo assim como ele é, nosso sexo seria uma flor azul belíssima sobre a fronte."

Ah, já sei. Você não curte poesia. Você acha um saco essa masturbação intelectual repleta de palavras difíceis e expressões dessoterradas do dicionário..."dessoterradas", gostou dessa? Bom, tudo bem. Então dê só uma olhada, por exemplo, em "Cronista: Filho de Cronos com Ishtar" e morra de rir com os sinônimos que ela cria para palavras como: semântica: antologia do sêmen; Ku: lua em finlandês; democracia: poder do demo - e por aí vai. Delícia! A mulher sabe tudo, juro. Não cansa, mas sim relaxa, estimula, inspira. Tudo o que os artistas deveriam fazer.

Opaco

 

Entre a dor

e o nada,

não escolho.Encolho...

 

Tuca

 


Eu espero sinceramente ter conseguido mexer um pouquinho com a sua curiosidade. Pelo menos o suificiente pra te fazer procurar um livro da Hilda Hilst (o que é meio difícil de achar) ou dar um pulinho até o Sesc Pompéia em São Paulo pra conferir pessoalmente tudo sobre uma vida de liberdade e poesia. Infelizmente ela não vai estar lá em pessoa, isso foi pra poucos privilegiados (como eu e meus amigos) que estiveram no evento na noite de abertura. Emoção total vê-la ao vivo e ainda poder conversar com Lygia Fagundes Telles, que também estava lá!

Estas são as fotos que eu consegui. Não deixe de ir (ou lê-la).

Você não vai se arrepender!

Ave Hilda!!!!

E tudo me são memórias...

Linda Maria

O homem era um grande contador de causos!

Misturava verdade com imaginação sem que ninguém se apercebesse onde começava uma e acabava a outra.

O que espantava era como sabia limitar a imaginação aos parâmetros da verdade.

Se dizia que havia pescado um jaú de 20kg- verdadeira mentira, porque jaú, por aqueles lados era impossível de ser encontrado- o fazia com tal destreza do palavreado e com tal magia no relato que todo mundo jurava que era a mais pura verdade!

Sentado na guia da calçada, nas noites de verão, passava horas contando causos para as crianças que moravam por toda aquela região.

De tardinha já iam chegando e chamando seu nome.

De lado de dentro de casa, ele saía, as vezes com o rosto ensaboado pra fazer a barba e gritava: " que bom que chegaram cedo! esta madrugada me aconteceu uma!!!!! ".

Pronto! A criançada já trabalhava o imaginário: " fantasma", palpitava um! " cobra" sugeria o outro. " Não! no mínimo foi ladrão" dizia o maiorzinho.

E o pior - ou melhor, não sei- é que junto vinham os pais da molecada. As mulheres traziam cadeira e os homens ficavam de cócoras, pitando cigarro de palha enrolado na hora. O fumo, picado também na hora pelo canivete marrudo e amolado de cabo de osso.

E quando ele chegava, o cenário estava pronto para mais uma noitada.

Era pigarrear pra todo mundo se calar, suspense solto no ar.

Hoje, quando passei por lá, cheguei a sentir o cheiro do cigarro Continental que ele fumava. Cheguei a ouvir-lhe a voz, a gargalhada. Cheguei a sentir dor no peito, tamanha era a saudade que apertava.

E lamentei nunca ter tido a idéia de anotar os causos todos que ele contava.

Era um grande contador de causos, meu pai.



 


Zeca Baleiro já deu o start na pré-produção da gravação do disco "Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé", que conta com 10 poemas de
Hilda Hilst. Musicados por Baleiro, os poemas serão interpretados por 10 cantoras. Duas já estão confirmadas no projeto: Verônica Sabino e Ná Ozzetti.

 

Mar revolto
ondas seduzem
tocam
beijam
 
                    num
                               balé
                                     de peles
 
alucinante
suave
vibrantes garras de fogo
 
águas         a   c     a    l    m    a   m
 
como querendo roubar todo o ardor
 
e s f r i a r   o amor
 
 rebatem com força
 
reascendem
 
a paixão como se fossem antenas
 
dança
de bocas
corpos
numa única respiração
ao som da música
sem conseguir acalmar a ânsia contida
das inquietas entranhas
entre estrelas ou luas
mares ou areias
 no êxtase supremo
          
 a
                      fo
                                    ga
                                                         mos
 
renascemos
 
MariaTherezaNeves
 
 
Formatação,pesquisas
TT / MariaTherezaNeves

 
Música: Sonata
 
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