40 anos depois

TESOURA DA DITADURA CORTOU A UPI
John Virtue

Há 25 anos, o Brasil entrava na treva pela porta do Ato Institucional N.º 5. A ordem constitucional foi substituída pelos termos draconianos do ato, promulgado em 13 de dezembro de 1968. A censura à imprensa, proibida pela Constituição,nos primeiros dias foi exercida por oficiais do Exército. Eles iam a algumas redações e escolhiam o que saía nos principais jornais. Alguns vetos eram transmitidos pelo telefone. A seguir, o serviço foi alojado na Polícia Federal, com censores treinados para esta função e nome no quadro de carreira: agente de censura. Grandes jornais de resistência democrática, como O Estado de S.Paulo, sofreram durante anos a presença do censor na gráfica. Ele lia o jornal já montado, o que era um transtorno a mais: se algo fosse vetado, a notícia não poderia ser substituída. O Estadão passou a publicar receitas de bolo e poemas de Camões no vácuo da censura.

Já nos anos 70, jornais de oposição explícita, como os semanários Opinião e Movimento, sofreram censura ainda mais rigorosa do ponto de vista da operação: eram obrigados a mandar todos os textos e ilustrações para a Polícia Federal, em Brasília, e recebiam de volta as laudas cortadas. No caso de Movimento, a censura conferia o jornal impresso para checar se os cortes haviam sido respeitados.

Um aspecto pouco conhecido da ação da censura foi a vigilância sobre as agências de notícia estrangeiras. A United Press International (UPI) foi uma das vítimas. Seu correspondente no Brasil, John Virtue, conta, no depoimento ao lado, alguns entreveros com a polícia política. O episódio do fechamento do Congresso a que ele se refere teve como pivô o deputado Marcio Moreira Alves, do MDB, hoje colunista do Globo. A censura acabou em 1978. A UPI fechou o escritório em 1997. Virtue atualmente é professor na Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

Poucas vezes a imprensa estrangeira foi submetida à censura na América Latina, mas isso ocorreu quando o presidente brasileiro Artur da Costa e Silva fechou o Congresso em 13 de dezembro de 1968 e assumiu poderes excepcionais.

Os censores não foram enviados apenas para os jornais, rádios e estações de televisão brasileiros. Foram parar também nas agências internacionais de notícias e em suas salas de telex e teletipo. Como diretor da UPI, eu fui recebido por um major do exército brasileiro quando cheguei dia 15 de dezembro à redação, que naquela época ficava no antigo prédio do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco. O major explicou que nada poderia ser transmitido sem sua prévia aprovação e disse que todas as ligações telefônicas seriam monitoradas.

Consegui frustrar a censura através da transmissão de radiofotos. Eu mostrava ao major uma cópia da foto que queria que ele liberasse para transmissão. Depois, enviava uma legenda de 200 a 300 palavras, que era, na prática, uma notícia completa.

 Os censores permaneceram na redação das agências internacionais e nas salas de telex e teletipo por uma semana. Costa e Silva fechou o congresso depois que a Câmara dos Deputados negou a autorização para que um de seus integrantes fosse processado por ofensa às forças armadas. O fechamento do Congresso foi seguido de uma série de prisões em todo o país, resultado da ascensão dos militares "linha-dura" dentro do governo.

Mesmo antes do fechamento do Congresso, a imprensa brasileira estava sujeita à autocensura, quando não censura direta. Já que a imprensa não podia publicar notícias atacando a ditadura militar, a UPI não traduzia para o português esse tipo de notícia quando elas chegavam em inglês e espanhol aos teletipos do escritório de São Paulo. Contudo, eu costumava colocar esse material em um envelope e dá-lo ao editor internacional do Estado de S.Paulo, para que fizesse o uso que achasse melhor.
Um dia o Estado publicou um desses artigos, com o crédito para a UPI. Assim que o jornal chegou às bancas, eu fui chamado ao DOPS para explicar como a notícia chegara ao jornal. Eu disse ao policial de plantão que costumava dar ao Estado de S.Paulo, para sua informação, esse material não traduzido.

"Da próxima vez que você tiver material ‘quente’ ", disse ele, "coloque-o em um envelope mas mande-o para mim".
Também fui chamado ao DOPS no Rio, quando um mensageiro da UPI foi preso no aeroporto do Galeão, onde ele tentava localizar um passageiro que pudesse levar um pacote com filmes de televisão para Nova York. Na década de 60, essa ainda era a melhor maneira de enviar imagens jornalísticas para fora do Brasil.

O pacote continha filme não revelado de uma corrida de cavalos internacional que tinha ocorrido no Rio naquele dia e também, mudando totalmente de assunto, imagens para ilustrar uma matéria sobre violência policial na Zona do Mangue. Entre as imagens aparecia uma prostituta de 75 anos de idade.

O policial do DOPS, um homem alto, cerca de 60 anos, bem apresentado e impecavelmente arrumado, disse que nós estávamos tentando desabonar a imagem do Brasil através da distribuição de fotos de prostitutas. Eu garanti que era exatamente o contrário: nós queríamos justamente mostrar que o Brasil não era conivente com a prostituição. Agradeci a ele por haver revelado o filme, que àquela altura já não possuía nenhum valor jornalístico. 

 

http://www.igutenberg.org/censu19.html

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