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No ano em que
o homem realizou o sonho de chegar à Lua,
fazendo a humanidade dar o que o astronauta
Neil Armstrong chamou de um "gigantesco
salto", o Brasil deu um passo atrás e
mergulhou nas trevas, atacado de sectarismo
ideológico e intolerância política. Ao
contrário de 1968, que foi solar e generoso,
sintonizado com o mundo, o nosso 1969
político foi de descompasso e desvio. À onda
planetária de distensão política e liberação
dos costumes, respondemos com a repressão e
o obscurantismo.
No ano em que nos Estados Unidos cerca de
400 mil jovens se reuniam em Woodstock
durante três dias para ouvir Jimi Hendrix,
fazer amor e pedir a paz, uma parte da
juventude brasileira se entregava a uma
guerra perdida. Mofino e sombrio, 1969
inaugurou os anos de chumbo - tempos de
tortura e censura, terror e medo. De um
lado, um governo impondo uma repressão
implacável; de outro, uma esquerda radical
tentando derrubar a ditadura pelas armas. No
meio, um povo mais ou menos indiferente ao
fanatismo dos que falavam em seu nome. Em 12
meses, o Brasil conheceu vários graus de
arbítrio.
Primeiro, o da ditadura ambígua e hesitante
de Costa e Silva, que no ano anterior, no
dia 13 de dezembro, se declarou constrangido
a decretar o famigerado Ato Institucional nº
5, o AI-5, que conferia ao governo poder
quase absoluto de vida e morte sobre o país.
Creditavam-se ao velho ditador boas
intenções e uma certa indisposição para
assinar um ato que ele pretenderia, quem
sabe, revogar logo depois - um ato capaz de
decretar o recesso do Congresso Nacional,
suspender o habeas-corpus, impor o estado de
sítio, confiscar bens, cassar direitos e
impor a censura prévia. Costa e Silva não
revogou nada, foi revogado antes, morreu.
Se 1968 é o ano que não terminou, 1969, no
que teve de pior, foi o ano que começou
antes de começar - começou naquela sinistra
sexta-feira 13 da decretação do AI-5 e
prosseguiu abrindo na alma do país feridas
que doem até hoje. Já em janeiro, numa
segunda leva de cassações (a primeira, que
incluía Fernando Henrique Cardoso, foi em
1968), eram suspensos os direitos políticos
de 43 cidadãos, entre eles os então
deputados Mário Covas, Ivete Vargas e Cunha
Bueno. Logo depois, eram cassados 33
mandatos parlamentares - e assim por diante.
A essa incessante produção de atos
institucionais, que chegariam logo ao 17º,
correspondeu uma escalada terrorista de
assaltos e atentados, levando o processo a
um círculo vicioso.
No dia 25 de janeiro, um fato chocou as
Forças Armadas: um capitão do Exército,
oficial exemplar, desertava com três
companheiros levando um caminhão de armas
para montar um campo de treinamento de
guerrilha no Vale do Ribeira, em São Paulo.
Carlos Lamarca tomou-se logo uma lenda. A
sua fuga do quartel, o roubo de US$ 2,5
milhões do cofre do ex-govemador paulista
Ademar de Barros, a conversão à causa da
revolução, suas cartas de amor a Iara, as
operações plásticas para não ser
reconhecido, a melancólica morte no interior
da Bahia, dois anos depois, doente e
indefeso, fizeram do "capitão Lamarca" um
personagem trágico, talvez o mais
emblemático daqueles tempos em que não era
incomum encontrar alguém capaz de morrer por
uma causa, de forma insensata, é verdade,
mas nem por isso menos heróica - heróica e
inútil.
A crise institucional chegou ao ponto máximo
quando no dia 27 de outubro Costa e Silva
foi impedido de continuar na Presidência em
conseqüência de uma trombose, que paralisou
seu lado direito e as esperanças dos que
lutavam pelo restabelecimento da normalidade
democrática. Uma junta de militares assumiu
então o poder, afastou da sucessão o
vice-presidente Pedro Aleixo - único membro
do governo a não assinar o AI-5 - e escolheu
o general Emílio Garrastazu Médici como
terceiro ditador - o mais arbitrário dos
cinco que o Golpe de 64 teve.
Antes de entregar o poder, a junta deu uma
decisiva contribuição ao governo que ia se
instalar, baixando o AI-14 e aprovando a Lei
de Segurança Nacional, com os quais
introduziu a pena de morte, a prisão
perpétua e o banimento. Mas sofreu
humilhante derrota ao enfrentar a mais
espetacular ação da guerrilha: o primeiro
seqüestro de um embaixador no mundo.
Neil Armstrong ainda recebia homenagens
quando o representante de seu país no
Brasil, Charles Burke Elbrick, disputava
espaço na mídia com o astronauta. Um comando
guerrilheiro da ALN-VPR resolveu
seqüestrá-lo durante a Semana da Pátria, no
dia 4 de setembro, para exigir em troca a
libertação de 15 presos políticos. Foram
algumas das horas mais tensas desse já tenso
1969. A Junta Militar acabou cedendo e
permitiu que os prisioneiros fossem levados
de avião para o México.
O sucesso da operação serviu de sugestão
para outros seqüestros e de senha para o
recrudescimento da repressão. Em pouco
tempo, o líder dos seqüestradores era preso,
torturado e morto na Oban, a Operação
Bandeirantes de São Paulo, um centro
policial-militar que ficaria famoso como
usina de iniqüidades e morte. Pouco mais de
um mês depois, Armstrong e Elbrick se
encontraram no Rio, quando o astronauta,
acompanhado de seu colega Collins, passeou
de carro e foi aplaudido a distância.
Elbrick, que fora aos Estados Unidos fazer o
relato de seu seqüestro, voltou
especialmente para receber os compatriotas.
Quando Médici assumiu, percebeu-se logo que
o seu governo seria uma perversa combinação
de cinismo e crueldade. Uma face escondia o
reino do terror; a outra, simpática, exibia
o ufanismo do "ame-o ou deixe-o", do
"ninguém segura este país", Felizmente, em
outros setores fora da política, a luz por
vezes rompia as trevas.
Foi em 1969, por exemplo, que surgiu como um
clarão a beleza luminosa de Vera Fischer,
imperecível miss Brasil dos velhos e novos
tempos. Pelé fez seu milésimo gol e dedicou
o feito às "criancinhas do Brasil". Foi
ridicularizado pela esquerda, que não
acreditava na sinceridade do gesto, já que o
atleta do século era "alienado". Ele deveria
ajudar a "transformar as estruturas", ou
seja, a fazer a "revolução". A patrulha
ainda não tinha esse nome, mas já existia
como prática.
Um fato surpreendente foi a explosão de
risos provocada por um jornaleco que
contrariava toda a lógica do mercado, a
começar pelo título: O Pasquim. Irreverente
e debochado, o semanário tomou-se um
fenômeno de comunicação daqueles tempos - e
Leila Diniz, a sua mais luminosa revelação.
Por isso, os dois viriam a ser perseguidos
pela ditadura, assim como todos os artistas
que ousavam contestá-la. Vandré, Gil,
Caetano e Chico, acossados pela censura,
tiveram que deixar o país.
Apesar de alguns parênteses para respirar,
1969 chegou ao fim envolto no mesmo clima de
sufoco em que começou. Em novembro, no dia
22, era assassinado em São Paulo o líder da
ALN, Carlos Marighella, numa operação
comandada pelo delegado Sérgio Fleury. Sua
morte anunciava o fim próximo da aventura
armada. Isso, em vez de aplacar a repressão,
açulou-a. No ano em que o absurdo recebeu o
Prêmio Nobel de Literatura com Samuel
Beckett, o Brasil mereceu o prêmio da
insensatez e da intolerância.
Os brasileiros ainda não sabiam, em 1969,
que toda grande façanha no espaço sideral
embutia uma mensagem ao país do futebol:
quando ocorria algum desses prodígios, os
deuses dos estádios estavam avisando que o
ano seguinte reservaria poderosas emoções à
religião da bola. Em 1957, os russos
lançaram o Sputnik. A Seleção lançou Pelé e,
em 1958, conquistou a Copa da Suécia. Em
1961, a União Soviética balançou o império
americano com o vôo de Gagarin. Em 1962,
Garrincha destroçou com dribles as defesas
checas e comandou a decolagem para o
bicampeonato no Chile. Em julho de 1969,
numa noite de lua nova, 5,5 milhões de
brasileiros seguiram acordados no fim do
domingo para deslumbrar-se com os primeiros
passos de Neil Armstrong na superfície da
Lua. Um ano depois, o país inteiro cruzaria
madrugadas festejando os últimos passos de
Pelé e seus parceiros rumo ao tricampeonato
no México. Atormentado pelo prólogo dos anos
de chumbo, o Brasil não compreendeu que
seria feliz no ano seguinte.
A paisagem doméstica - estranhamente
agressiva, maniqueísta, belicosa - induziu o
brasileiro a só se mostrar feliz quando
nenhum outro estado de ânimo era possível. O
país foi feliz, claro, com a proeza de
Armstrong, transmitida em pool pelas TVs
Globo e Tupi. (Pouco menos de 200 mil
espectadores preferiram outros programas.
Alguns sintonizaram a TV Continental, que
apresentou a reprise de um empate sem gols
entre Vasco e Fluminense). Também foi feliz
com o milésimo gol de Pelé no palco do
Maracanã. Mas poderia ter comemorado mais
ruidosamente outros grandes momentos do ano.
Em 1969, por exemplo, o concurso para a
escolha da nova Miss Brasil terminou com a
vitória de uma catarinense chamada Vera
Fischer. Uma nação menos crispada talvez
tivesse identificado imediatamente, naquele
monumento louro, a mulher que reinaria no
imaginário popular nas décadas seguintes.
Também em 1969, a peça Hair seduziu
multidões com a cena em que o elenco
aparecia despido. Uma das mulheres nuas era
Sônia Braga.

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