40 anos depois

DIÁLOGOS TRAGICÔMICOS COM A CENSURA
Hilka Telles

Quando o regime militar abriu suas cortinas e exibiu a censura como uma das principais protagonistas na história da luta da direita contra a esquerda, outro personagem subiu ao palco disposto a roubar a cena: Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema, que acabou se revelando um dos melhores negociadores nos embates com os censores.

- O êxito no processo de enfrentamento com a censura dependia da nossa intuição, da capacidade de improvisar para contornar as dificuldades que a censura criava. Houve lances dramáticos, cômicos, durante as negociações. A liberação de "Terra em Transe", de Glauber Rocha, por exemplo, foi cercada de lances tragicômicos. Relatadas as reuniões, hoje, parece até programa do Casseta e Planeta - ironiza Barreto.

Era 1969. Luiz Carlos Barreto e Glauber Rocha foram a Brasília para uma audiência com o coronel Moletale, então chefe da Polícia Federal.

- Entramos no gabinete. Ele levantou, nos cumprimentou, foi até a porta e deu duas voltas na chave. Foi para o outro lado da sala, onde havia outra porta, e também deu duas voltas na chave. Era uma coisa simbólica. Ele sentou-se à mesa e perguntou quem éramos. Nós nos identificamos - recorda o produtor.

- Ah, o senhor é o Glauber Rocha. Estou lhe processando com base na Lei de Segurança Nacional - avisou o coronel.

- Eu? Mas o senhor está me processando por quê? - quis saber Glauber. - O senhor deu uma declaração no jornal O Estado de S. Paulo - disse o militar, puxando um exemplar da gaveta, no qual se lia o título "Glauce Rocha diz que Moletale é nazista".

- Coronel, eu sou Glauber Rocha, ela é Glauce Rocha. Não tenho nada a ver com isso.

- Mas ela é sua irmã.

- Ela é atriz. Aliás, trabalha nesse filme do qual eu vim falar.

- Vou botar ela na cadeia - esbravejou Moletale.

Barreto e Glauber deixaram o filme de lado e passaram a negociar para que Glauce não fosse presa. O coronel cedeu. Barreto vislumbrou que aquela flexibilidade poderia lhe render bons frutos em outras negociações. Depois de dias de explicações aos censores sobre o significado do filme, "Terra em Transe" foi liberado sem cortes. Justificativa: era muito intelectualizado e ninguém entenderia as mensagens.

- Só houve uma restrição. A cena final, um padre com um fuzil no ombro, acharam que representava a instituição da Igreja. Não podia. O padre tinha que ter um nome. Concordamos em pôr um letreiro e o batizamos de padre Camilo Torres, que era o nome de um guerrilheiro cubano, herói da Revolução. Aquilo passou - conta Luiz Carlos Barreto, entre risos.

As negociações com os censores duravam de dias a meses, como aconteceu com o filme "Como era gostoso o meu francês", de Nelson Pereira dos Santos. - Foram seis meses de negociação. Quando a corda estava muito esticada, eu dava um tempo. A negociação continuava, e se eu percebia que ainda não era o momento, relaxava de novo, numa hora mais propícia - conta.

O filme fora interditado integralmente. A alegação era que, o tempo todo, havia um homem branco nu. Era o francês. O chefe dos censores, de nome Rogério, tratado como professor e com cerca de sessenta e poucos anos, argumentou com Barreto que ficava muito desagradável as mulheres irem ao cinema e verem o sexo do ator. E arrematou com uma pérola, como reproduz Luiz Carlos Barreto:

- Se eu levar a minha senhora no cinema, ela vai ficar vendo aquele ator nu. Não é que eu tenha medo de comparação não, porque eu até que sou bem servido. O professor Rogério queria que Nelson pusesse uma folha de parreira no corpo do ator ou desenhasse uma borboleta que o seguiria, esvoaçante, tapando-lhe o sexo durante todo o filme. "Como era gostoso o meu francês" acabou liberado, sem folha de parreira ou borboleta – para surpresa geral, com censura livre, sem cortes.

- O caso foi surrealista. Eu e Nelson passamos a brigar para que o filme recebesse a censura de faixa etária. Argumentamos que a censura livre iria prejudicar o filme, porque todo mundo acharia que não havia nada de mais e até crianças poderiam assisti-lo. O professor afirmou que seria muito difícil redigir um texto compreensível para a fiscalização, explicando o porquê da censura por faixa etária. Portanto, o melhor era dar o certificado de censura livre – relata.

O famoso professor Rogério, que Arnaldo Jabor chamava de "o bom velhinho", descobriu-se depois tratar-se de criminoso foragido de uma penitenciária no Rio Grande do Sul.

- Ele estava escondido no prédio da Policia Federal, em pleno regime militar e exercendo a função de censor!

Segundo o produtor, as cenas mais cortadas eram de conteúdo moral. Os censores viam nelas um complô da esquerda para articular a dissolução dos costumes da sociedade. Barreto diz que essa mentalidade ficou muito evidente nas negociações para a liberação de "Guerra conjugal" e "Dona Flor e seus dois maridos".

- Eles alegavam que os dois filmes eram ácidos, de destruição dos costumes, e que faziam parte de uma estratégia comunista para abalar os alicerces da família brasileira. A preocupação moral era maior que a política - acentua. "Dona Flor e seus dois maridos" só recebeu o aval da censura porque houve uma sessão exclusiva no Palácio Alvorada, a pedido de Amália Lucy, filha do então presidente Ernesto Geisel. Amália pediu ao pai que assistisse e o convenceu a liberar a película.

Barreto considera o problema da censura no Brasil "endêmico". Acha que o cinema nacional sempre foi alvo de suas garras, mesmo em sistemas democráticos.

- Quando a ditadura chegou, o cinema já tinha know-how disso. O cinema vivia há muito tempo enfrentando problemas de censura. Evidentemente que, na ditadura militar, isso recrudesceu, tomou um aspecto mais parrudo. Mas continuamos com o cacoete da ditadura, que é manter a censura. O que aconteceu no Carnaval foi muito grave. Não houve um intelectual contra a censura aos bonecos do Joãozinho Trinta. Nós temos na Constituição a garantia de que o ato da censura é proibido, mas o seu fantasma não está afastado, e eu me sinto quase na mesma situação da época do regime militar.

 

http://jbonline.terra.com.br/destaques/1964/cap4-3.html

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