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Quando o
regime militar abriu suas cortinas e exibiu
a censura como uma das principais
protagonistas na história da luta da direita
contra a esquerda, outro personagem subiu ao
palco disposto a roubar a cena: Luiz Carlos
Barreto, produtor de cinema, que acabou se
revelando um dos melhores negociadores nos
embates com os censores.
- O êxito no processo de enfrentamento com a
censura dependia da nossa intuição, da
capacidade de improvisar para contornar as
dificuldades que a censura criava. Houve
lances dramáticos, cômicos, durante as
negociações. A liberação de "Terra em
Transe", de Glauber Rocha, por exemplo, foi
cercada de lances tragicômicos. Relatadas as
reuniões, hoje, parece até programa do
Casseta e Planeta - ironiza Barreto.
Era 1969. Luiz Carlos Barreto e Glauber
Rocha foram a Brasília para uma audiência
com o coronel Moletale, então chefe da
Polícia Federal.
- Entramos no gabinete. Ele levantou, nos
cumprimentou, foi até a porta e deu duas
voltas na chave. Foi para o outro lado da
sala, onde havia outra porta, e também deu
duas voltas na chave. Era uma coisa
simbólica. Ele sentou-se à mesa e perguntou
quem éramos. Nós nos identificamos - recorda
o produtor.
- Ah, o senhor é o Glauber Rocha. Estou lhe
processando com base na Lei de Segurança
Nacional - avisou o coronel.
- Eu? Mas o senhor está me processando por
quê? - quis saber Glauber. - O senhor deu
uma declaração no jornal O Estado de S.
Paulo - disse o militar, puxando um exemplar
da gaveta, no qual se lia o título "Glauce
Rocha diz que Moletale é nazista".
- Coronel, eu sou Glauber Rocha, ela é
Glauce Rocha. Não tenho nada a ver com isso.
- Mas ela é sua irmã.
- Ela é atriz. Aliás, trabalha nesse filme
do qual eu vim falar.
- Vou botar ela na cadeia - esbravejou
Moletale.
Barreto e Glauber deixaram o filme de lado e
passaram a negociar para que Glauce não
fosse presa. O coronel cedeu. Barreto
vislumbrou que aquela flexibilidade poderia
lhe render bons frutos em outras
negociações. Depois de dias de explicações
aos censores sobre o significado do filme,
"Terra em Transe" foi liberado sem cortes.
Justificativa: era muito intelectualizado e
ninguém entenderia as mensagens.
- Só houve uma restrição. A cena final, um
padre com um fuzil no ombro, acharam que
representava a instituição da Igreja. Não
podia. O padre tinha que ter um nome.
Concordamos em pôr um letreiro e o batizamos
de padre Camilo Torres, que era o nome de um
guerrilheiro cubano, herói da Revolução.
Aquilo passou - conta Luiz Carlos Barreto,
entre risos.
As negociações com os censores duravam de
dias a meses, como aconteceu com o filme
"Como era gostoso o meu francês", de Nelson
Pereira dos Santos. - Foram seis meses de
negociação. Quando a corda estava muito
esticada, eu dava um tempo. A negociação
continuava, e se eu percebia que ainda não
era o momento, relaxava de novo, numa hora
mais propícia - conta.
O filme fora interditado integralmente. A
alegação era que, o tempo todo, havia um
homem branco nu. Era o francês. O chefe dos
censores, de nome Rogério, tratado como
professor e com cerca de sessenta e poucos
anos, argumentou com Barreto que ficava
muito desagradável as mulheres irem ao
cinema e verem o sexo do ator. E arrematou
com uma pérola, como reproduz Luiz Carlos
Barreto:
- Se eu levar a minha senhora no cinema, ela
vai ficar vendo aquele ator nu. Não é que eu
tenha medo de comparação não, porque eu até
que sou bem servido. O professor Rogério
queria que Nelson pusesse uma folha de
parreira no corpo do ator ou desenhasse uma
borboleta que o seguiria, esvoaçante,
tapando-lhe o sexo durante todo o filme.
"Como era gostoso o meu francês" acabou
liberado, sem folha de parreira ou borboleta
– para surpresa geral, com censura livre,
sem cortes.
- O caso foi surrealista. Eu e Nelson
passamos a brigar para que o filme recebesse
a censura de faixa etária. Argumentamos que
a censura livre iria prejudicar o filme,
porque todo mundo acharia que não havia nada
de mais e até crianças poderiam assisti-lo.
O professor afirmou que seria muito difícil
redigir um texto compreensível para a
fiscalização, explicando o porquê da censura
por faixa etária. Portanto, o melhor era dar
o certificado de censura livre – relata.
O famoso professor Rogério, que Arnaldo
Jabor chamava de "o bom velhinho",
descobriu-se depois tratar-se de criminoso
foragido de uma penitenciária no Rio Grande
do Sul.
- Ele estava escondido no prédio da Policia
Federal, em pleno regime militar e exercendo
a função de censor!
Segundo o produtor, as cenas mais cortadas
eram de conteúdo moral. Os censores viam
nelas um complô da esquerda para articular a
dissolução dos costumes da sociedade.
Barreto diz que essa mentalidade ficou muito
evidente nas negociações para a liberação de
"Guerra conjugal" e "Dona Flor e seus dois
maridos".
- Eles alegavam que os dois filmes eram
ácidos, de destruição dos costumes, e que
faziam parte de uma estratégia comunista
para abalar os alicerces da família
brasileira. A preocupação moral era maior
que a política - acentua. "Dona Flor e seus
dois maridos" só recebeu o aval da censura
porque houve uma sessão exclusiva no Palácio
Alvorada, a pedido de Amália Lucy, filha do
então presidente Ernesto Geisel. Amália
pediu ao pai que assistisse e o convenceu a
liberar a película.
Barreto considera o problema da censura no
Brasil "endêmico". Acha que o cinema
nacional sempre foi alvo de suas garras,
mesmo em sistemas democráticos.
- Quando a ditadura chegou, o cinema já
tinha know-how disso. O cinema vivia há
muito tempo enfrentando problemas de
censura. Evidentemente que, na ditadura
militar, isso recrudesceu, tomou um aspecto
mais parrudo. Mas continuamos com o cacoete
da ditadura, que é manter a censura. O que
aconteceu no Carnaval foi muito grave. Não
houve um intelectual contra a censura aos
bonecos do Joãozinho Trinta. Nós temos na
Constituição a garantia de que o ato da
censura é proibido, mas o seu fantasma não
está afastado, e eu me sinto quase na mesma
situação da época do regime militar.

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