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Os
efeitos mais comuns causados pela fome,
principalmente nos países do Terceiro Mundo, são a
desnutrição calórica-protéica (provocada pela
falta de calorias e proteínas), as doenças
causadas pela deficiência de vitamina A, a anemia
(provocada pela deficiência de ferro), o
raquitismo (gerado pela deficiência de vitamina
D), o bócio e os distúrbios causados pela carência
de vitaminas do grupo B.
Todas essas formas de desnutrição, quando não
fazem suas vítimas diretamente, facilitam o
aparecimento de outras doenças, que acabam levando
o desnutrido à morte.
Por exemplo, os óbitos de crianças pobres nos
países do Terceiro Mundo não apontam a fome ou a
subnutrição como causa dessas mortes. Figuram como
causas a pneumonia, a desidratação, a tuberculose,
o sarampo etc. No entanto, essas e outras são
conseqüência de um organismo debilitado ou sem
resistência, em decorrência da desnutrição ou
fome.
A desnutrição calórica-protéica, também chamada
desnutrição energética-proteíca (DEP), atinge
grande número de crianças em idade pré-escolar nos
países do Terceiro Mundo. Apresenta-se em diversos
graus, sendo que os extremos ou mais graves (3.º
grau) exigem hospitalização para o seu tratamento.
Segundo especialistas, o Kwashiorkor e o marasmo
são exemplos de desnutrição de 3.º grau.
A palavra Kwashiorkor é originada de um dialeto
africano da Costa do Ouro (atual Gana) e possui
vários significados, sendo o mais utilizado o de “
criança desmamada”. O Kwashiorkor ocorre numa
criança após seu desmame precoce, ou seja, quando
nasce uma nova criança, num período em que há uma
outra ainda sendo amamentada no seio materno, esta
cede o lugar para a recém-nascida. Deixando de
alimentar-se do leite materno e em razão da pouca
disponibilidade de alimentos que a família tem em
decorrência de sua pobreza, a criança passa a ter
uma alimentação pobre em proteínas.
Assim, o Kwashiorkor é uma doença causada pela
falta de proteínas e ocorre geralmente em crianças
acima de seis meses de idade. Caracteriza-se por
apresentar: inchaço do ventre, dando aspecto
balofo; lesões na pele; parada do crescimento;
retardamento mental, às vezes irreversível; lesões
no fígado, com degeneração gordurosa; descoramento
dos cabelos; comportamento apático, triste,
retraído. As crianças com Kwashiorkor chegam a
atingir dois ou três anos de idade indiferentes ao
mundo que rodeia. Não engatinham nem andam, e
geralmente morrem de doenças como coqueluche,
rubéola, sarampo e outras mais, que numa criança
bem alimentada raramente causam a morte.
O marasmo, outra forma de extrema desnutrição,
causada pela deficiência de calorias na dieta
alimentar da criança, ocorre geralmente nas
primeiras semanas de vida. Caracteriza-se por
emagrecimento, parada do crescimento longitudinal
e extrema debilidade. A criança chega a ter o seu
peso 60 % inferior ao normal.
Existem ainda os casos de desnutrição leve e
moderada, chamados respectivamente de primeiro e
segundo grau. Trazem, também, graves conseqüências
à saúde e ao desenvolvimento do ser humano e minam
a resistência orgânica, abrindo brechas para o
estabelecimento de várias doenças.
Como
nem todas as pessoas têm acesso aos alimentos que
necessitam, a fome e a desnutrição tornaram-se um
problema de grande abrangência no mundo. Hoje em
dia, quase 800 milhões de pessoas sofrem por
desnutrição crônica e nem sequer podem obter
alimentos suficientes para satisfazerem suas
necessidades energéticas mínimas. Aproximadamente
200 milhões de crianças menores de cinco anos
sofrem sintomas de desnutrição aguda ou crônica,
cifra que aumenta em períodos de escassez de
alimentos ou em épocas de epidemia de fome e
conflitos sociais. Segundo algumas estimativas, a
desnutrição é um fator importante entre os que
determinam, a cada ano, a morte de aproximadamente
13 milhões de crianças com menos de cinco anos por
doenças ou infecções evitáveis, como sarampo,
diarréia, malária, pneumonia e combinações das
mesmas.
A grande maioria das pessoas subnutridas vive na
Ásia e na área do Pacífico. Esta região, onde
residem 70% dos habitantes dos países em
desenvolvimento, reúne quase dois terços (526
milhões) da população subnutrida. Somente na Índia
vivem 204 milhões de pessoas subnutridas, e na
sub-região da Ásia Meridional se concentram mais
de um terço (284 milhões) do total mundial. Outros
30% (240 milhões) vivem no leste e sudoeste da
Ásia, onde mais de 164 milhões entre os 1,2
bilhões de habitantes da China sofrem de
subnutrição. Quase a quarta parte das pessoas
subnutridas vive na África subsaariana, que é
também a que registra a proporção mais alta de
população subnutrida. A situação é especialmente
grave na África central, oriental e meridional,
onde 44% da população total encontra-se
subnutrida. Na América Latina e Caribe
encontram-se 53,6 milhões de desnutridos,
representando 11% da população da região.
As
conseqüências imediatas da fome são a perda de
peso nos adultos e o aparecimento de problemas no
desenvolvimento das crianças. A desnutrição,
principalmente devido a falta de alimentos
energéticos e proteínas, aumentam nas populações
afetadas e faz crescer a taxa de mortalidade, em
parte, pela fome e, também, pela perda da
capacidade de combater as infecções.
A desnutrição é uma das principais causas do
nascimento de crianças com peso abaixo do normal
bem como de problemas de crescimento. As crianças
que nasceram com peso abaixo do normal e que
sobrevivem têm muitas probabilidades de
apresentarem atraso no crescimento e adoecer
durante a infância, a adolescência e a vida
adulta. Aliás, é provável que as mulheres adultas
com atraso no crescimento perpetuem o círculo
vicioso da desnutrição dando à luz a crianças com
peso baixo. Cada vez ficam mais claros os vínculos
causais entre a desnutrição em tenra idade -
incluindo o período de crescimento fetal - e a
futura aparição de problemas crônicos de saúde
como cardiopatias coronarianas, diabetes e
hipertensão arterial. Nos países em
desenvolvimento nascem, a cada ano, cerca de 30
milhões de crianças com atraso no crescimento
causado pela subnutrição na fase intra-uterina.
A desnutrição em termos de carências de vitaminas
e sais minerais essenciais continua sendo a causa
de doenças graves e de morte para milhões de
pessoas em todo o mundo. Mais de 3,5 bilhões de
pessoas sofrem de carência de ferro, dois bilhões
estão expostas aos riscos de carência de iodo e
200 milhões de crianças em idade pré-escolar têm
carência de vitamina A. A carência de ferro pode
causar atraso no crescimento, reduzir a
resistência às doenças e prejudicar a longo prazo
o desenvolvimento mental, motor e das funções
reprodutivas; ao mesmo tempo provoca
aproximadamente 20 por cento das mortes
relacionadas com a gravidez. A carência de iodo
pode causar danos cerebrais irreparáveis,
retardamento mental, distúrbios nas funções
reprodutivas, diminuição da expectativa de vida
infantil e bócio, e numa mulher gestante poderá
determinar diferentes graus de retardamento mental
da criança que vai nascer. A carência de vitamina
A pode provocar cegueira ou morte das crianças e
contribuir para a redução de seu crescimento
físico e sua resistência a infecções, colaborando
para o aumento da taxa de mortalidade infantil.
Mesmo manifestações leves destas deficiências
podem limitar o desenvolvimento de uma criança e a
sua capacidade de aprendizagem em tenra idade,
determinando a acumulação de deficiências em seu
rendimento escolar. Deficiências como estas levam
a níveis mais altos de evasão escolar e um aumento
das taxas de analfabetismo para as populações
futuras. Muitos dos efeitos mais graves das
carências destes três importantes micronutrientes
poderiam ser aliviados consideravelmente mediante
um fornecimento adequado de alimentos e uma dieta
variada que proporcione as vitaminas e os minerais
necessários
Em muitos países os problemas de saúde
relacionados com uma alimentação excessiva ou
desequilibrada estão aumentando. A obesidade entre
crianças e adolescentes está associada com vários
problemas de saúde, e sua persistência na vida
adulta tem conseqüências que vão desde um aumento
do risco de morte prematura até diversas
enfermidades que não são mortais, mas que
debilitam o organismo e reduzem a produtividade.
Estes novos problemas não afetam somente as
populações dos países industrializados; um número
cada vez maior de países em desenvolvimento sofre,
ao mesmo tempo, problemas de desnutrição e
enfermidades crônicas relacionadas com a
alimentação. Além do mais, a contaminação dos
alimentos por micróbios, metais pesados e
pesticidas cria obstáculos para a melhoria da
nutrição em todos os países do mundo. As doenças
transmitidas pelos alimentos são comuns em muitos
países, e as crianças são suas vítimas freqüentes.
Acabam sendo vítimas de diarréias que causam perda
de peso e fraqueza, bem como níveis elevados de
mortalidade infantil.
Sejam leves ou graves, as conseqüências da
desnutrição e da saúde inadequada levam a uma
redução dos níveis gerais de bem estar, de
qualidade de vida e de desenvolvimento do
potencial humano. A desnutrição pode produzir
redução de produtividade e perdas econômicas, já
que os adultos que sofrem distúrbios nutricionais
ou doenças relacionadas com estes fatores não se
encontram em condições de trabalhar; perdas no
âmbito educativo, devido ao fato das crianças
estarem excessivamente debilitadas ou enfermas
para assistir às aulas ou aprender como deveriam;
custos médicos referentes ao cuidado dos que
sofrem doenças relacionadas com a nutrição; e
custos para a sociedade, que precisa cuidar dos
incapacitados, e às vezes também de suas famílias.
Ao longo do século passado foram registrados
progressos consideráveis com relação à quantidade
e qualidade dos alimentos disponíveis no mundo e
ao estado nutricional da população. Na medida em
que o abastecimento de alimentos cresceu no mesmo
ritmo que a população, e que os serviços de saúde,
educacionais e sociais melhoraram em todo o mundo,
o número de pessoas que passam fome e estão
desnutridas diminuiu consideravelmente.
Entretanto, o acesso a quantidades suficientes de
uma variedade de alimentos seguros e de boa
qualidade continua sendo um grave problema em
muitos países, mesmo naqueles onde o abastecimento
nacional é adequado. Em todos os países continuam
a existir diferentes formas de fome e desnutrição.
Acabar com a fome supõe, como condição prévia, que
se produzam alimentos suficientes e que estes
alimentos estejam disponíveis para todos. No
entanto, cultivar alimentos em quantidades
adequadas não é suficiente para assegurar a
erradicação da fome. É preciso garantir o acesso
de toda a população, em todo o momento, a
alimentos nutritivos e seguros, em quantidade
suficiente para levar uma vida ativa e saudável;
em síntese, garantir a segurança alimentar. Uma
intensificação dos esforços se faz necessária em
todo o mundo para garantir a segurança alimentar e
assim acabar com a fome e a desnutrição, junto com
suas terríveis conseqüências, para as gerações
atuais e futuras. A contribuição de cada um de nós
(através do intercâmbio de informação, da
solidariedade e da participação em atividades) é
absolutamente necessária para garantir o direito
fundamental que todos os seres humanos têm de
viver em um mundo livre da fome.
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